Quantas vezes, foi atendido com rudeza por pessoas de cara fechada? Quantas vezes “engoliu” serviços intragáveis (e, pior, terá de lá voltar ainda reiteradas vezes porque não existe outro)?
Quantas vezes, horas preciosas da sua vida foram desperdiçadas, de pé, desconfortável para tratar de um assunto banal?
Quantas vezes, teve de regressar ao mesmo local para corrigirem um erro, ou para carimbarem o tal documento que por descuido ficou por fazer?
Quantas vezes, enquanto aguardava por sua vez reparou (embora tenha feito vista grossa) que os amiguinhos dos funcionários passaram à sua frente? E pior, teve de aguardar que o “tiroteio” de conversas privadas acabasse para ser atendido?
Quantas vezes, após horas à espera, já lhe disseram que “ca tem sistema”? E, já agora, quantas vezes, efetuou o pagamento e teve como resposta “ca tem troco” e mandaram-lhe ir trocar o dinheiro ou passar outro dia?
Quantas vezes, se apercebeu que a forma de atendimento é discriminatória e que o tratamento varia consoante o “pedigree” de cada um?
Quantas vezes, fez-se de “bolinha de ping-pong” andando de serviço em serviço, perdendo o seu tempo, porque foi mal informado/ recebeu informações contraditórias ou incompletas?
Quantas vezes, aqueles documentos que custaram dinheiro e tempo, uma vez entregues, extraviaram e teve de começar tudo do zero?
Quantas vezes, se apercebeu que afinal sabe-se atender com cordialidade e ser-se expedito desde que seja conhecido da pessoa que atende?
Quantas vezes, pediu licença do trabalho ou deu aquela “fugidinha” porque os horários dos sítios obedecem a uma lógica de horário alheio às reais necessidades das pessoas?
Quantas vezes, foi passando para ver se já estava pronto o tal documento? E quantas vezes, já desesperado, recorreu a uma cunha para acelerar o seu processo pendente?
Quantas vezes, num Cabo Verde tecnológico, teve de levantar-se mais cedo, percorrer distâncias, dirigir-se ao local, colocar-se numa penosa fila para pedir uma única informação?
Quantas vezes, teve de dirigir-se ao mesmo serviço porque quem trata daquele assunto faltou ao trabalho, ou estava doente, não havia quem o substituísse e teve que aguardar pelo seu regresso?
Quantas vezes, sentiu que o prestador de um serviço no seu local de trabalho se agiganta, ostenta poder e em contrapartida os utentes/utilizadores fragilizados, sucumbem a uma dominação que não reconhece nem postura laboral, nem direitos, nem ética?
E quantas vezes sentiu-se defraudado? Teve a sensação que “já não tem jeito” e que o melhor a fazer é desistir deste país?
Quantas, quantas vezes? E insisto, quantas vezes apoiamos os problemas e disfuncionalidades em vez de retirarmos o nosso apoio? Haverá limite para a nossa subserviência? Ainda estou por descobrir qual é o nosso ponto de fervura, aquele que fará estalar a inabalável passividade que se apoderou de nós. Até quando o espinho de abusos e mediocridade cravado na nossa carne? Até quando essa vida encolhida, por nós escolhida?
Os vícios e más práticas não morrerão de velhice. E a mão que por vezes é levantada para os afagar deveria se juntar às outras para os afogar.
A indignação, seguida de acções de protesto, para mim serão os nascedouros de um país digno e com uma nova fisionomia: menos tóxico, mais competente e humanizado.
E nós, consumidores/utilizadores, perante tudo o que foi dito (e que de certo por si já foi experienciado) o que temos feito?
Engolimos o desaforo e levamos a reclamação para casa: “nesse terra cabo stâ mau”. Sim, e o Cabo… verde nesse andamento dificilmente chegará a maduro. Porque tenho medo, porque toda a gente se conhece, porque fulano vai deixar de me falar, porque podem me prejudicar, porque… ufa!!
O último a sair, por favor, que apague a luz.
Antónia Môsso
Mindelo, 19-05-2020