Tiloun, a alma crioula em corpo de música

PorPaulo Lobo Linhares,26 jul 2020 8:47

​Seria inevitável não me curvar perante a partida de Tiloun.

Alguém disse que a música escolhe sempre o músico, sendo preciso algo de especial para que este a mereça. Se sim, poucos são os músicos que espelham esta ideia de forma mais preci(o)sa que Tiloun.

Conhecemo-nos quando esteve na nossa cidade. Confesso que a minha paixão pela sua essência foi imediata. Calma e de forma descontraída, a sua presença positiva nunca passava despercebida. Parecia deixar a fragância da música que misturava a uma enorme simplicidade e simpatia, que o fazia travar conversas e oferecer sorrisos. Parecia centrar-se sempre no outro, o que depois vim a constatar que assim era. Esteve connosco no Kriol Jazz Festival 2019, onde no projeto “Rogaiverde” com Elida Almeida, celebraram em festa o Crioulo…doce e suavemente… de forma tão convincente e natural.

Desde muito cedo, ainda miúdo, apaixonou-se pela música da sua ilha, viveu-a e conviveu com os nomes maiores de uma região que consta brotar criatividade: Saint-Denis.

A sua enorme paixão pela música faz com que ele conviva com a sua amada, escolhendo os eventos mais íntimos, de proximidade… tendo inclusive passado por uma fase em que foi músico de rua – era a paixão pela partilha da música… das suas ideias. Só mais tarde, e depois de alguma pressão, acaba por enveredar pelo profissionalismo, mas mesmo assim temperado sempre com enormes doses de emoção.

Defendia acerrimamente o crioulo, enquanto ideal e cultura, facto que o levou a cantar sempre na língua crioula, para divulgá-la mundo fora. E como contribuiu…O “Meloya” - género musical tradicional da Reunião - com muita dança à mistura, sempre cantado em Crioulo, foi um dos meios dessa divulgação.

O músico também se envolveu em imensos projectos de parcerias musicais. Recebeu em 2010 o prémio SACEM.

Lutar e estar com os outros foi sempre fundamental para ele, tendo-o inclusive levado a participar em vários movimentos de solidariedade, das mais diferentes causas. Contudo, em todos eles um denominador comum: ajudar o outro.

Soube que Tiloun apaixonou-se de tal forma por Cabo Verde que teria já marcado o seu regresso ao nosso país, para a gravação do seu disco, com Hernâni Almeida. Não teve tempo. Contudo teve tempo de deixar aqui plantado um pedacinho do seu coração e a saudade por parte de todos que com ele conviveram…sim, Tiloun era partilha e paixão…era todo ele música apaixonadamente crioula.

Obrigado, Tiloun.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 973 de 22 de Julho de 2020. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,26 jul 2020 8:47

Editado porAndre Amaral  em  7 ago 2020 23:20

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