Há 50 anos deu-se o assalto ao navio Pérola do Oceano

PorBruno Spencer,26 ago 2020 7:21

​Foi no dia 19 de Agosto de 1970 que se deu o assalto ao Navio Pérola de Oceano. A embarcação pertencia ao armador, conhecido por Antoninho Bernabéu, e fazia as ligações: Praia-Fogo-Brava-Praia. Há uma ligação entre a minha pessoa e o Pérola do Oceano pelo facto de o meu pai, António Spencer, ter sido tripulante desta embarcação, como cozinheiro.

Ele trabalhou no Pérola até este deixar de fazer viagens entre as ilhas. Tudo o que vou contar, neste artigo, sobre o Pérola do Oceano foi meu pai que me confidenciou, também das conversas que tive com outros tripulantes da referida embarcação mais o diálogo que encetei com pessoas que conhecem a história do assalto.

No dia 19 de Agosto de 1970, um grupo de pessoas, na sua maioria homens de Santa Catarina de Santiago, comandado por um senhor de nome José dos Reis Borges assaltou o navio quando este saindo da Praia ia com destino à ilha do Fogo.

Normalmente, o navio saía sempre à noite, depois de tomar carga e passageiros. Nesse dia 19 de Agosto, José e seus companheiros chegaram cedo ao navio e compraram bilhetes de viagem com destinos diferentes, sendo uns para Brava e outros para Fogo. José falou com meu pai, perguntando o que fazia no navio; meu pai respondeu que era cozinheiro. Prosseguindo o diálogo, o passageiro disse-lhe que tinha familiares no Fogo. Meu pai indicou-lhe o contramestre, de nome Morgado, que é do Fogo. José foi falar com o contramestre e este conhecia familiares dele na referida ilha. Mas antes, José já tinha falado com um tripulante, de nome Manuel, da Ilha Brava: prometeu-lhe trabalho, dizendo que ia abrir uma grande empresa nessa ilha.

O assalto deu-se depois de o navio ter ultrapassado o Farol da Praia

O navio saiu do Porto da Praia e o Capitão, de nome Aníbal, fez toda manobra de saída e entregou o comando do leme a um tripulante, de nome Nhônhô. Já era noite, um tripulante, de nome Nho Maninho, cujo trabalho era cuidar dos passageiros, viu José e seu grupo por cima do compartimento do camarote dos passageiros a mudarem de traje civil para militar, ficando admirado com o que viu, confidenciou ao Nhônhô o que tinha visto. Não ficando parado, o trabalho dele o exigia, Nho Maninho foi, outra vez, ver os referidos passageiros, acabou por morrer e sobre essa morte, vou falar mais adiante. Todos fardados, o grupo dirigiu primeiro ao Nhônhô, tendo um dos elementos lhe apontado a arma ao ouvido. José pediu-lhe que mudasse a rota do navio para Dakar, Senegal. Amedrontado, Nhônhô disse que não era Capitão, este foi chamado e desviou o navio da rota do Fogo para Dakar; a seguir José e o seu grupo quiseram saber onde ficavam as instalações de comunicação: estas situavam-se no camarote do amador, Antoninho Bernabé. Foram para o seu camarote e apontaram-lhe uma arma e o armador espantado, gritou. “Vocês matam um homem a sangue frio?”. José respondeu “queremos o navio para nos levar a Dakar”. O armador respondeu que podiam fazê-lo mas nem o combustível nem os mantimentos davam para chegar a esse destino. Da conversa, José decidiu que o navio rumava para Rincão para aprovisionar esses produtos. Tiraram o armador do seu camarote e desligaram os fios para que não houvesse nenhuma comunicação com exterior.

Chegada a Rincão. Água usada como estratégia para libertar o navio

Tendo a embarcação nas suas mãos, José decidiu reunir-se com todos os tripulantes, meu pai estava deitado e ouviu alguém dizer: “Todos os tripulantes para cima”.

Ele vestiu, saiu e quando viu homens fardados, interrogou a si mesmo: “O que está a passar connosco?”. Há frases ditas por José que ficaram gravadas na memória do meu pai até à morte. “Não vim aqui para fazer mal a ninguém. Estou a fazer trabalho de Amílcar Cabral. Vou levá-los para outro local onde não vão comer cachupa, etc” . Terminada a reunião, os tripulantes que não estavam de serviço, regressaram aos seus camarotes, o sono desapareceu dos olhos do meu velho, pensando na família que tinha deixado.

Fundeado o navio no Porto de Rincão, José foi à terra. Como havia uma motorizada de um passageiro, José levou-a consigo. José demorava em regressar, então um sobrinho da esposa dele, de nome João, pertencente também ao grupo de assaltantes, foi também à terra. Vendo os tripulantes que o número de assaltantes estava a diminuir, utilizaram a água como estratégia para libertar o navio. O contramestre mandou esvaziar os barris que continham água no tanque, depois disse ao responsável do grupo que não havia água e que era necessário mandar dois tripulantes à terra para trazer o precioso líquido. O responsável aceitou, mas com a condição de que um dos elementos do grupo dos assaltantes acompanharia os tripulantes. Foram à terra e os dois tripulantes conseguiram fugir à vigilância do assaltante e foram à Ribeira da Barca, a correr, e ali contaram à polícia de alfândega o que tinha acontecido. Este telefonou imediatamente às autoridades na Assomada que mandaram forças para prender o assaltante em Rincão. Entretanto, no navio tripulantes e mais alguns passageiros conseguiram desarmar os elementos do grupo de assaltantes e a embarcação regressou ao Porto da Praia. Uma vez chegado ao Porto da Praia, a PIDE, a ex-polícia política portuguesa, já estava ao corrente do sucedido e foi imediatamente ao navio prender os elementos do grupo de assaltantes.

A morte de Nho Maninho foi homicídio ou não?

Oficialmente, a morte de Nho Maninho aconteceu porque ele se atirou ao mar. Analisando bem, a conclusão a que chego é que se isso se passou, foi um acto de suicídio porque estando Pérola do Oceano a caminho do Fogo, portanto longe da terra, como pode alguém lançar-se ao mar. Ele só podia fazer isso, se estivesse perto da terra, nadava até chegar à terra. Mas há um facto que desfaz a tese de que ele se atirou ao mar. Um tripulante, não vou dizer nome, contou-me que um dos seus companheiros de trabalho teria encontrado depois do assalto uma faca ou punhal com sangue no convés. Só que o tripulante ao invés de entregar a arma às autoridades, lançou-a ao mar.

A PIDE oferece cerveja aos tripulantes

Meu pai foi prestar declarações na PIDE, duas vezes. Contou-me que na segunda vez, juntamente com seus companheiros, tripulantes, a PIDE ofereceu-lhes cervejas. Meu pai não quis beber e pensou de si para si ”Não foi alegria que me trouxe aqui. Como vou beber?”. O agente da PIDE que estava a ouvi-lo em declaração, disse “Você poderia estar morto. Como não morreu, deve agora comemorar”. Meu pai para agradar ao agente, bebeu uma garrafa. Outro facto que meu pai me contou: a PIDE tinha vários fotos, não só dos elementos do grupo de assaltantes como das outras pessoas. A PIDE queria somente que os tripulantes confirmassem as fotos dos elementos do grupo de assaltantes. Dessa história, a conclusão a que chego é de que como houve várias prisões, a PIDE queria saber quem de facto estava no navio ou não.

Minhas conclusões sobre o assalto

Dos documentos que li, diz-se que o objectivo de José, em conluio com PIDE, era desmantelar a organização clandestina do PAIGC em Cabo Verde. Por outro lado, também se fala que o plano não era Cabo Verde, mas chegar à Guiné-Conacri onde havia a sede do PAIGC.

Para uma análise mais aprofunda da actuação de José, seria necessário que se tivesse mais informações. José poderia ter colaborado com a PIDE, mas há poucas informações. Aquilo que se sabe é que ele gozava de boas regalias como preso na Cadeia Civil da Praia e não foi à Prisão no Tarrafal como outros elementos do grupo. Foi a Portugal e deste foi à França. Também se fala que o assalto era uma forma das pessoas irem para a emigração. Há que pesquisar muito sobre a história desse assalto. Tenho um amigo que esteve no Arquivo da Torre do Tombo em Portugal e me contou que há muita documentação sobre o Pérola do Oceano. Meu desejo é que um dia tudo seja esclarecido. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 977 de 19 de Agosto de 2020.

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Autoria:Bruno Spencer,26 ago 2020 7:21

Editado porSara Almeida  em  22 set 2020 23:20

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