Jovens agricultores

PorEurídice Monteiro,7 set 2020 7:16

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Trata-se de uma agricultura mais rentável (acessível a uma nova classe de consumidores), com menor desperdício de água (devido aos equipamentos de gota-a-gota) e mais prudente no uso de pesticidas que são danosos para a saúde pública.

Hoje em dia, um pouco por todas as ilhas, assistimos à emergência de novos agricultores, com especial destaque para o aparecimento de um punhado de jovens rurais, urbanos e até emigrantes ou retornados da diáspora que se empenham na produção agropecuária. Outro dia, numa conversa de café, um jurista de trinta e poucos anos dava conta dos equipamentos moderníssimos de rega gota-a-gota e de hidroponia que importou para montar numa propriedade rural em Carriçal, pacata aldeia costeira situada a cerca de vinte e quatro quilómetros do centro da cidade da Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau. Muito dinheiro investido, disse ele.

De Santo Antão, chegam notícias frescas de empresários jovens adultos que se instalaram de vez na ilha das montanhas, investindo em modernas tecnologias agrícolas, em trapiches eléctricos e outros equipamentos de produção do grogue e dos seus derivados, em instâncias hoteleiras de turismo rural e até na prestação de serviços e actividades de desenvolvimento rural, fomentando a criação de empresas de transformação de produtos, em especial atenção para as frutas cristalizadas, a doceria, a queijaria, as bebidas espirituosas e o artesanato.

Quem diria que São Vicente só vive da importação de produtos agrícolas de Santo Antão é hoje confrontado com uma nova realidade. Não apenas «peixeiros» (jovens rapazes que fazem a venda ambulante de peixes) estão a despontar na urbe, como gente interessada em assuntos do campo e a sua industrialização. Há quem até desconfia que há pastores de Mindelo na ilha de Santa Luzia, ilha deserta que, juntamente com os ilhéus vizinhos, têm servido de base para a investigação científica e a realização de desportos náuticos. A mesma coisa se diz do Sal, ilha do turismo de sol e praia, onde é ainda residual a agricultura, mas não faltam cultores e criativos. Um amigo meu, conhecedor da boa mesa, confidenciou-me que falar de grogue do Sal vai na mesma proporção que falar de vinho do Tejo. Vinhos ou do Alentejo ou do Douro; grogue ou de Santo Antão ou de São Nicolau ou da Ribeira de Principal em Santiago.

Já na Boa Vista, ilha do turismo por excelência, não obstante a sua notória incapacidade no aprovisionamento dos hotéis, são visíveis as novas modalidades de produção agrária e de atracção turística e prática desportiva com recurso a animais importados (como os camelos das áfricas magrebinas), burros de carga e cavalos de corrida.

Maio, a ilha mais antiga do arquipélago de Cabo Verde, está novamente de volta à ribalta, desta feita pela via do turismo das salinas, dos recantos marinhos, das paisagens áridas e semidesérticas, da gastronomia à base da sua especialidade agro-pecuária (carne de cabra, mariscos, queijos). Fogo, a ilha do vulcão, é cada vez mais uma potência nacional. Sendo a segunda ilha mais produtiva do arquipélago, singulariza-se no domínio das espécies fruteiras e dos seus derivados (vinhos). Vinhos do Fogo, Queijo do Fogo ou Café do Fogo são marcas que a ilha do vulcão cristalizou.

Da ilha Brava, pequena e montanhosa, temos telúricas casinhas de campo, pequenos hotéis e a transformação de produtos agro-pecuários a despontarem-se por entre as folhas e flores que adornam as aldeias dispersas. Jovens camponeses que são exímios tocadores de violão e talentosos compositores de morna existem em quantidade na ilha Brava. Da vez que fui àquela ilha, tive como cicerone um jovem músico consagrado que era pastor e agricultor nas horas vagas, embora fosse a demora da chegada do seu documento para as Américas a razão do seu desassossego.

Santiago é a maior ilha agrícola do país. Advogados, gestores públicos, bancários, professores, poetas, deputados e gente de toda a casta de profissões modernas estão de volta ao campo nos arredores da capital ou no interior da ilha. De entre estes, encontramos jovens que, para fintar o desemprego, encontraram o campo como alternativa, uma alternativa que hoje não trocam por nenhum trabalho de escritório. Tal como em Santo Antão, o que mais me chama a atenção em Santiago é a quantidade de jovens que se dedicam à produção de grogue, segundo as leis do mercado. Eles produzem já não (apenas) para o consumo, mas sim para o mercado. Concluem que é um negócio lucrativo e devidamente regulamentado.

Em jeito de balanço sumário, apercebe-se à vista desarmada que estes novos agricultores, cujos perfis se distinguem dos velhos agricultores, caracterizam-se por três elementos distintivos. Em primeiro lugar, tudo aponta que se trata de uma mão-de-obra mais qualificada e especializada nas áreas das ciências da terra ou da administração, permitindo a transferência de conhecimentos científicos e de gestão para esta área produtiva. Em segundo lugar, ao contrário da prática tradicional da pequena agricultura de subsistência e no sequeiro, estes novos actores do campo apostam na agricultura de mercado e em propriedades de regadio de maior escala e com maiores investimentos tecnológicos, estando atentos às políticas públicas do sector, aos custos de produção e à cadeia de distribuição urbana, inter-ilhas e internacional. Em terceiro lugar, possuindo conhecimentos técnicos especializados, tendem-se a recorrer menos a pesticidas, primando pela conservação da natureza e pela qualidade dos produtos agro-pecuários. Trata-se de uma agricultura mais rentável (acessível a uma nova classe de consumidores), com menor desperdício de água (devido aos equipamentos de gota-a-gota) e mais prudente no uso de pesticidas que são danosos para a saúde pública.

Estas novas oportunidades que o campo oferece caminham lado a lado com os perigos dos produtos agro-tóxicos, exigindo uma fiscalização adequada, devido os impactos nefastos que têm na saúde pública. Hoje o país já não padece tanto das doenças terceiro-mundistas, estando numa transição sanitária para os problemas de saúde derivados da alimentação e da emergência de doenças típicas das classes médias consumistas. É isso que exige reflexão e cuidado.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 979 de 2 de Setembro de 2020. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,7 set 2020 7:16

Editado porSara Almeida  em  12 set 2020 12:56

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