Crónicas da Dina Salústio: “Las estrellas solo brillan cuando el cielo está oscuro”

PorDina Salústio,21 set 2020 7:28

Tão pequeno o mundo que fazemos que nele não cabem opiniões e perceções diferentes?

Ainda pensei que fosse um minilivro de bolso, mas não, era um diário que a anfitriã do encontro me oferecia. “As estrelas só brilham quando o céu está escuro” – traduzo o título e iniciamos a conversa numa espécie de espanhol, nessa manhã gostosa de produtividade inútil. …Café vai, olhar vem, falamos dos dias imprimindo-lhes rótulos, damos um salto à situação de alguns conhecidos, paramos na nossa vida privada, aquela dor do cotovelo, sabes? deslizámos os olhos pela plateia, revemos os últimos acontecimentos políticos, malfalamos… pois é a vida, não é Carlota de Barros?

Achei gostoso o desafio de usar o diário para escrever um conto e estávamos a tentar um início quando parou alguém à nossa mesa e nos brindou com notícias frescas. Quando se foi já não havia clima para prosseguirmos com o projeto e mudámos de tema, mas definitivamente eu ficara amarrada ao título.

– Será que para as estrelas brilharem é preciso que haja escuro? – Não devia o seu brilho por si só existir? Onde está o poder da luz? A autoconfiança como fica? Quantos astros terão de ser sacrificados em nome do hipotético brilho de uma estrela?

E a noite? Porque não lhe dar a sua dimensão real, o encanto de uma surpresa, a dimensão de uma incógnita, uma inquieta ternura… Por que reduzi-la a apenas um palco para a realização brilhante das estrelas? Com que direito privilegiar um em relação ao outro? Com que autoridade fazer o brilho de uma depender da existência da outra?

– Provocações – diz. Pode ser – aceito.

Invejo a sabedoria e a habilidade de algumas pessoas construírem e desconstruírem, às vezes com ligeireza cruel, pontes, sonhos e castelos; de amarem e dizerem que não para logo inventarem um sim que durará o tempo de um verso. Imagino-as no tear tecendo palavras e emociono-me, mas porque porém as estrelas a brilhar apenas quando há escuro? Para quê criar limites, impor condições, estabelecer determinismos para a luz de uma estrela? E o brilho de outros seres, porque os ameaçar em nome da existência de um brilho maior?

Não é tempo de se esquecerem os prazos e seus relógios? Esquecermos os preconceitos? Esquecermos as astúcias… as singularidades, a pequenez? Que história estamos a construir onde o medo do outro é o pano de fundo e a ideia de uma hegemonia nos ameaça? Será que para uma voz brilhar as outras terão de se calar? Que seria das orquestras ou dos coros fabulosos deste mundo se apenas uma voz ou um instrumento se pudessem ouvir?

Penso em estratégias de silenciamento, nas astúcias para sufocarmos o próximo, no ardiloso trabalho de apoucar a verdade dos outros em nome de construirmos um sucesso pessoal com mais peso. Tão pequeno o mundo que fazemos que nele não cabem opiniões e perceções diferentes? Tão insignificante o nosso mundo que ele não suporta muitas luzes brilhando? Que é dos opostos? Não é tempo de rivalidades mesquinhas serem apenas uma ideia passando? Para quê restringirmos as coisas e os espaços à nossa dimensão momentânea e às nossas ligeiras particularidades?

O sol no seu auge. Uma lua passa distribuindo palpites e suspiros. Sigo-a, mas acabo por perdê-la. Não tínhamos de nos amar.

“As estrelas só brilham quando o céu está escuro”.

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Revejo essas inquietações e lembro a Carlota de Barros, segura, a olhar-me, apontando uma lua no céu desse longínquo dia claro e que ela, só ela, foi capaz de ver.

Sigo o seu gesto e chega-me uma resposta: as estrelas estão sempre lá, no céu, com a sua luz, juntamente com milhões de outros seres e ideias igualmente brilhantes ou não, e não precisam de magias e truques para cintilarem. O mesmo se passa com a noite, senhora no céu, que aguarda enquanto enlaça o tempo e compõe o escuro. Nós é que podemos ter ou não capacidade para, independentemente da hora, vê-las cintilando e existindo. Ou morrendo.

A Lua não se importou de ser chamada de estrela e eu decidi escrever esta crónica enquanto a chuva brilha no céu das ilhas, neste setembro molhado.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 981 de 16 de Setembro de 2020.  

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Autoria:Dina Salústio,21 set 2020 7:28

Editado porSara Almeida  em  21 set 2020 7:28

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