«Crime e Castigo» de Aquiles Almada

PorAdilson F. Carvalho Semedo,29 set 2020 7:03

Cientista Social/Sociólogo  – Professor Auxiliar na Uni-CV
Cientista Social/Sociólogo – Professor Auxiliar na Uni-CV

Se essa decisão de despedimento por justa causa de Aquiles Almada se provar irreversível, morre com este Professor a possibilidade da crítica intrauniversitária na Uni-CV.

As eleições para o cargo de Reitor de 2014 e de 2018 trouxeram questionamentos que acentuaram a condição da Uni-CV enquanto campo de forças e de lutas. Extremaram-se as posições das quatro gerações de docentes que hoje compõem este universo: a geração de 79 (da escola de formação de professores do ensino secundário), a geração de 90 (dos docentes dos primeiros institutos de ensino superior do país), a geração 2006 (da comissão instaladora da universidade pública) e a geração 2012 (dos aspirantes a professores doutores de carreira).

Os elementos das três primeiras gerações que apresentamos, com exceções certamente, reclamam a condição de fundadores da Universidade Cabo Verde e outorgam-se a condição de legítimos luzeiros do futuro desta universidade. Formatados no «amor à terra dos anos 70», nos «ventos de leste dos anos 80», no «fogo do despotismo esclarecido dos anos 90», e nas «águas ternas da agenda da transformação dos anos 2000», não poderão deixar de sentir-se incomodados com uma geração que não pretendeu e tampouco pretende fazer do doutoramento um meio para um fim exclusivo, vale dizer, a chefia, seja de departamentos, de faculdades ou de universidades.

Cada geração tem os seus próprios desafios impulsionados pela mudança social que acontece todos os dias. Por mais que possa parecer desdenhoso aos três grupos da “geração dos quadros”, emergiu uma grupo heterógeno de jovens docentes que se Orgulham da condição de Professor, quem se Realizam enquanto Professor, e que têm como projeto de vida Ser Professor, não vendo essa categoria profissional como inferior a nenhum outro cargo que a administração pública ou privada ou as afilhações políticos/partidários possam oferecer, cientes de que a própria evolução social da vida académica assim o exige.

O extremar das posições nos últimos embates eleitorais para o cargo de Reitor da Uni-CV é, por isso, o produto de uma demanda social, um sinal dos tempos. Para se ter uma ideia ilustrativa do que se tornou a Universidade de Cabo Verde, a partir de 2014 é preciso que se faça a analogia com a fábula satírica do escritor inglês George Orwell, Animal Farm [A Revolução dos Bichos (título no Brasil) ou O Triunfo dos Porcos(título em Portugal)], publicado no Reino Unido, em 17 de agosto de 1945.

Em 2014 emergiu no espírito de muitos o sonho de constituírmos uma Universidade autónoma dos donos poder político-partidário invasivo e colonizador, que no livro é personificado pelo Senhor Jones. Esse sonho, que guarda dentro de si a revolta e a ansia da revolução, representou no nosso universo o personagem do velho Major do livro de Orwell.

Aquiles Almada, a representação do personagem Snowball da fábula, foi um dos rostos da indignação académica em 2014 e assegurou credibilidade a candidatura da Professora Doutora Judite Nascimento, que, por analogia, pode ser vista como a representação do personagem Napoleão de George Orwell, enquanto Mário Lima, que viria a ser Administrador Geral da Uni-CV (2014-2018) e Pró-reitor para a cultura universitária (2018-2022), pode ser visto, também por analogia, como o personagem Squealer, o braço-direito de Napoleão.

Tal como na fábula, estas personagens deram corpo e voz a indignação de muitos. Embora mais jovem, a verticalidade e a credibilidade de Aquiles Almada junto aos colegas e aos estudantes funcionou com um importante capital social a candidatura de Judite Nascimento em 2014. Após a vitória desta, ele, sem ter assumido qualquer cargo na administração reitoral ou dos departamentos, arcou a incumbência da elaboração, comparticipada por outros docentes, do Plano Estratégico da Uni-CV, ferramenta tida como fundamental para a execução das mudanças que se propunha fazer.

Nas eleições para o cargo de Reitor de 2018, Aquiles Almada absteve-se de apoiar publicamente quaisquer dos quatro candidatos, mas ficou notório o seu distanciamento do projeto de recandidatura da reitora cessante. Em 2020, nos meses de isolamento devido a pandemia Covid 19, esse distanciamento converte-se em dissidência pública, quando este Professor, com doutoramento em Geografia, em circuito universitário interno de comunicação, levanta uma serie de questões sobre os procedimentos administrativas na Uni-CV; sustenta as suas indagações a partir dos dados publicados pelo Ministério das Finanças relativos as contas da Uni-CV dos anos de 2014-2019; e levanta, sobre a forma de 27 questões, a possibilidade de existirem indícios da prática de gestão danosa e de crimes administrativos.

A resposta patronal concretiza-se com o levantamento de dois processos disciplinares ao Professor em causa. O primeiro por insulto ao Presidente da Faculdade de Ciência e Tecnologia e o segundo por desrespeito à Reitora da Uni-CV. O Gabinete Jurídico da Uni-CV, órgão superiormente indicado para dar seguimento aos processos disciplinares, entendeu fazê-lo sem auscultar por uma única vez o Professor indiciado e concluiu os processos, após ouvir, apenas, as testemunhas da defesa e da acusação, indicando que havia matéria de facto e de direito para despedimento por justa causa deste docente com 15 anos de serviço, cumpridos entre o extinto ISE e a Uni-CV.

Tal qual o personagem Snowball na fábula de G. Orwell, Aquiles Almada foi sentenciado a «guilhotina» por seus antigos companheiros de jornada. Sem menosprezar os custos pessoais que essa situação acarreta ao Homem, ao Pai, e ao Professor, a questão coletiva que se impõe é se terão todos os elementos da Uni-CV a consciência do alcance dessa decisão. Qual será o seu impacto na estrutura das relações objetivas (embora invisíveis) que se impõe a todos os membros da academia?

Ora, se essa decisão de despedimento por justa causa de Aquiles Almada se provar irreversível, morre com este Professor a possibilidade da crítica intrauniversitária na Uni-CV. Consequentemente morre o alicerce basilar do que chamamos universidade. O medo, a autocensura e a mordaça serão os nossos senhores, e a “guilhotina” o destino dos indóceis que incomodam. Neste cenário, Aquiles Almada será mais um «Snowball».

Se essa decisão provar-se reversível, a tirania, a prepotência, o clientelismo/a subserviência político-partidária, a instrumentalização torpe do direito e do poder, arrogante por se julgar impune, serão expostos a luz, e com isso serão conhecidos os vícios que apodrecem, também dentro desta universidade pública, a esperança dos cabo-verdianos de uma «terra nova». Neste cenário, a «Ilíada» da Uni-CV terá o seu Aquiles.

Alea iacta est.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 982 de 23 de Setembro de 2020. 

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Autoria:Adilson F. Carvalho Semedo,29 set 2020 7:03

Editado porSara Almeida  em  31 out 2020 23:21

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