Até ao lavar dos cestos é vindima (2)

PorFrancisco Carapinha,1 nov 2020 8:16

​No passado dia 29 de Setembro completaram-se dez anos que publiquei, neste espaço, a minha primeira crónica.

Com o título de “Até ao lavar dos cestos é vindima”, contava a história de uma partida que joguei por correspondência, com um Mestre ucraniano, em que eu estava totalmente perdido. Como não desisti, acabei por ser premiado, conseguindo um empate que seria impensável antes do erro crasso que o meu adversário cometeu.

Essa crónica deu início a uma longa série de escritos que aqui vou publicando, tendo o xadrez como tema principal.

Realce-se que há 10 anos atrás, o xadrez em Cabo Verde, salvo raras excepções, não tinha actividade conhecida, o que tornava difícil a tarefa de encontrar tema para apresentar neste espaço e, durante vários anos, só com uma pequena interrupção, debati-me semana após semana em encontrar matéria para vos trazer aqui. Mas, mesmo com as difuldades dessa altura, nunca falhei com o compromisso da minha crónica semanal.

Foram muitas as vezes em que via aproximar-se a hora de enviar o texto para a redacção sem ter sequer ideia sobre o que iria escrever.

Nessa altura não se vislumbravam escribas que me acompanhassem nas crónicas escaquisticas e este jornal acabou por ser pioneiro na divulgação do xadrez através das minhas notas.

Hoje, o xadrez em Cabo Verde, já começa a ter matéria suficiente para que qualquer um candidato a cronista se aventure a escrever e publicar o que bem lhe aprouver.

É claro que muitos não têm aquilo que gostariam de ter e mesmo dando umas “calinadas” no tema e no português lá tentam a sua sorte.

Mas deixemo-nos desta conversa e vamos ao assunto que hoje aqui pretendo realçar e que se relaciona com o título que decidi dar a esta crónica.

Desde há muito que tento escrever para que todos etendam as minhas crónicas, mesmo aqueles que pouco ou nada conhecem do jogo dos reis. Fugindo um pouco a essa regra, hoje decidi aventurar-me com duas histórias que serão melhor entendidas por quem tem conhecimentos de xadrez.

As histórias passaram-se no último Campeonato Nacioanl Individual Absoluto que se realizou recentemente no Mindelo e ambas referem-se a partidas que decorreram na 7.ª e última ronda desta competição.

A primeira aconteceu na mesa n.º 4, onde se defrontavam o Aires Fortes e o Luís Fernandes. Ambos, com 3,5 pontos, poderiam sonhar alcançar o ultimo lugar do pódio desde que se verificassem algumas condições, sendo uma delas, vencer a partida.

No lance 46, Luís Fernandes, de pretas, jogou o peão para f3, atingindo-se a posição do Diagrama 1.

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Diagrama 1: Posição após 46…f3

Após efectuar este lance, Luís mirou o tabuleiro e consciencializou-se que esta partida estava perdida, pois de seguida, as brancas poderiam jogar o seu Rei para e6 preparando a estocada final com Ta8#. No máximo, 3 lances bastariam para Aires Fortes dar xeque-mate. Prevendo o desfecho, Luís Fernandes assinou a sua planilha e quando se preparava para lhe colocar o resultado, as brancas respondem com 47. Tf7+. Imediatamente defendeu-se jogando o Rei para g8 altura em que as brancas decidem suicidar-se jogando 48.g7. É claro que Fernandes não se fez rogado, recolheu a planilha e sem cerimónias tomou a Torre (48…Rxf7).

Aires percebeu-se da asneirada, mas já nada havia a fazer, vindo a abandonar ao 63.º lance, entregando o 5.º lugar da classificação ao seu adversário.

A outra história refere-se à partida entre David Anes Monteiro e Célia Rodriguez, que decidia o 2.º lugar, bastando um empate para Célia alcançar essa posição.

Entre várias peripécias da partida, a partir de determinada altura, jogando de pretas, Célia Rodriguez alcançou vantagem decisiva.
Após o lance 46, necessitei de ir á casa de banho, com a certeza que as pretas já não deixariam fugir a vitória tal era a vantagem que dispunham.

Quando saio da casa de banho encontro, no hall de entrada, Mariano Ortega que me diz: “a Célia já perdeu”.

“Já perdeu?”, perguntei eu,”Como é possível ela tinha uma grande vantagem!”.

”Entregou a Dama”, respondeu Ortega.

Com efeito, fui logo ver a partida e após 50.Rf1, atingiu-se a posição do Diag. 2.

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Diag 2 As negras suicidam-se jogando 50…Db1+

Foi aqui que Célia, à semelhança de Aires, também se decidiu suicidar e jogou 50…Db1+, oferecendo a Dama ao seu oponente e com isso dando-lhe o 2.º lugar na classificação do torneio. Estas 2 histórias mostram-nos, como aconteceu naquela que contei há 10 anos atrás que “até ao lavar dos cestos é vindima”, ou seja, não podemos gritar vitória antes dela ter acontecido.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 987 de 28 de Outubro de 2020.

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Autoria:Francisco Carapinha,1 nov 2020 8:16

Editado pormaria Fortes  em  1 nov 2020 17:56

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