Rabidante de cada dia

PorEurídice Monteiro,20 dez 2020 9:17

Nas ciências sociais e humanas, há uma tensão entre as mais distintas áreas disciplinares no que se deve às abordagens e à conciliação das políticas públicas de natureza sociais, económicas e fiscais necessárias para se atender às intensivas dinâmicas dos mercados, nomeadamente no contexto da África subsariana.

De modo particular, o sector do comércio espontâneo tem causado uma grande dor de cabeça aos decisores e gestores públicos, a tal ponto de, por vezes, se colidirem as abordagens mais economicistas com as mais desenvolvimentistas.

A atenção à problemática social e histórica africana tem ganhado relevância neste contexto quando se pretende compreender a razão pela qual cada vez mais as camadas mais vulneráveis da população subsariana tende a identificar o sector informal com a principal e, não raramente, a única alternativa de subsistência. São já conhecidos os dados que apontam o facto de que a larga maioria da população do continente ainda depender de pequenos negócios retalhistas e informais.

Tratando-se, assim, de um tipo de negócio que reproduz uma vasta rede de contactos e de afectos, as complexas relações de sociabilidades e convivialidades que se desenvolvem nos interstícios dessas iniciativas espontâneas têm sido vistas como sendo tanto ou mais importantes quanto à própria dimensão monetária. Quer isto dizer que o mercado informal tem potencializado não apenas alternativas para a empregabilidade dos quase dois terços da população continental, mas também tem sido um espaço privilegiado de interacção social onde se entrelaçam relações sólidas e duradouras de afinidades e de interajuda. De maneira que, para além dos laços consanguíneos, novas relações emergem nestes contextos de proximidade, sobrevivência e inter-relacionamento plurais: comadres e compadres; madrinhas e padrinhos; afilhadas e afilhados; manas e manos; tias, tios, sobrinhas, sobrinhos, primas e primos por afinidades. De tal sorte que, nestes contextos, tende a se prevalecer a lógica de «um por todos e todos por um», pelo que frequentemente «mexer com um significa mexer com todos».

São tão intensas as relações de afecto que não raras vezes surgem relações amorosas que vale a pena serem contadas. Certa vez, conheci um casal de jovens que se dedicavam à venda de água de cocô numa das zonas balneares da ilha que se tinham conhecido no mercado do Sukupira. Ela «saiu de casa» com ele. Quer dizer, me disse ele, que ela foi para a «morada» dele e não quis regressar à procedência. Conforme me contou, «fronta ka só agu ku lumi», pois, nessa altura quando ela decidiu ficar, ele «não tinha onde cair morto». Vivia com a avó e lá tiveram que «fazer um jeitinho» para que as coisas pudessem dar certo. Vivem juntos desde essa altura em que ela decidiu ficar com ele. A partir de então, os dois se entregaram à rabidância, porque ambos não «tinham outro remédio». «Sem escola, sem dinheiro», o que podiam fazer? Decidiram que seria o comércio informal a solução para as suas vidas. Iniciaram na comercialização de banana verde; depois de tantas voltas, hoje se encontram na venda de água de cocô para banhistas. Tiveram um filho, «por enquanto»; construíram uma habitação própria, que pouco a pouco tem conhecido melhorias.

Somos um país de pequenos negócios. Ao lado do tal casal de vendedores de água de cocô, vem aparecendo na praia balnear um jovem vendedor de gelados, confeccionados pela namorada, que virou esposa depois da quarentena. Apesar de ser um país onde o verão é praticamente durante o ano inteiro, é residual a venda de gelados na rua. Existem algumas gelatarias aqui e acolá e alguns poucos casos de cafés-gelatarias, bares-gelatarias ou restaurantes-gelatarias. Não é nada comum encontrar vendedoras ou vendedores de gelados na rua, nem nas cidades portuárias como acontece noutras paragens do mundo. Isto se explica pelo baixo poder de compra da população, salvo o caso da ainda pequena classe média e dos turistas. É certo que hoje é maior a clientela que pode adquirir gelados do que na minha infância quando nos contentávamos com as fresquinhas de cinco escudos, dez escudos ou, quanto muito, vinte escudos.

Não sei por que razão ou se por desatenção minha mas me parece que hoje em dia até há menos gente itinerante no comércio de fresquinhas caseiras. Conheço uma senhora que faz isso numa praia e uma outra mais jovem que também faz isso numa dada zona da capital mas essa outra tem fugido permanentemente dos fiscais porque, conforme a própria reconhece, ainda não tem licença para o efeito.

As fresquinhas eram menos dispendiosas para quem as fabricam e para os consumidores. Havia um número substancial de vendedeiras e vendedores de fresquinhas caseiras. Bastava um frigorífico em casa. Hoje em dia, ainda que tenha havido uma popularização dos gelados, a sua comercialização tem sido residual por ser mais custoso para os bolsos das famílias cabo-verdianas. É por esta razão que embora tenhamos abandonado o hábito de chupar a fresquinha, ainda estamos longe de falar no consumo generalizado e corriqueiro dos gelados. Tudo por uma simples questão de baixo poder de compra.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 994 de 16 de Dezembro de 2020.

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Autoria:Eurídice Monteiro,20 dez 2020 9:17

Editado pormaria Fortes  em  21 dez 2020 7:55

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