O estreante

PorFrancisco Carapinha,4 abr 2021 7:57

Presidente da Federação Cabo-verdiana de Xadrez
Presidente da Federação Cabo-verdiana de Xadrez

​Os muitos anos que já levo de xadrez proporcionaram-me a vivência de inúmeras situações dignas de registo. Algumas dessas situações classifico-as de hilariantes, enquanto outras considero serem comoventes e outras ainda, estão catalogadas como irritantes.

Enquanto estas últimas pretendo esquecê-las, as outras, recordo-as amiúde quando em grupo, tipo “tertúlia”, se reúnem alguns membros da tribo esquística á qual faço parte.

Infelizmente, este tempo pandémico, não me tem permitido reunir com outros elementos desta tribo singular e que se encontra espalhada pelo mundo inteiro.

Mas não é um bicho qualquer que me impedirá de recordar algumas dessas vivências, a que apelido de histórias, facto pelo qual, mais uma vez, utilizarei este cantinho para fazê-lo e assim divulgar algumas das situações que chegam a ser tema de conversa nas tais reuniões “tribais”.

As situações que hoje trago até vós, aconteceram num Campeonato Regional de S. Vicente, em que a arbitragem esteve a meu cargo.

Nesse campeonato, verifiquei que havia dois ou três jogadores que estavam inscritos e que eu não conhecia, situação rara nas competições internas.

Um desses jogadores, um senhor já avançado na idade, na primeira ronda desse Regional, após eu ter dado início à sessão, verifiquei que estava sentado frente às peças brancas e que o seu adversário ainda não tinha chegado. Dirigi-me à sua mesa e reparando que ele ainda não tinha feito o primeiro lance, accionei o relógio.

Calculando que este fosse o seu torneio de estreia, informei-o que devia efectuar o lance e carregar no relógio.

Disse-me a sorrir, como se estivesse numa de fair-play, que esperava pelo adversário para iniciar a partida.

Apercebi-me logo da sua inexperiência em competições pelo que lhe disse que o tempo estava a contar para ele e que deveria jogar.

Com esta conversa abandonei a sua mesa e fui verificar outras situações, sempre naturais no início de cada ronda, que necessitavam da minha atenção.

Passados aí uns 20 minutos, olhei para a mesa do nosso estreante e reparei que o seu adversário continuava sem estar sentado à sua frente, pelo que deduzi que ainda não tivesse chegado.

No entanto, no tabuleiro, as peças já estavam em “movimento”, de tal forma que a abertura estava quase despachada.

Dirigi-me ao local do misterioso jogo e perguntei pelo adversário do estreante, ao qual me respondeu que ainda não tinha chegado.

-Se o seu adversário ainda não chegou, como é que o jogo chegou a esta posição? – perguntei.

-Então, o senhor não me disse para jogar? Eu fui jogando…

Fiquei estupefacto com a resposta. Então este sujeito esteve a jogar sozinho.

Não imagino o que lhe passou pela cabeça, mas eu ri-me interiormente enquanto lhe explicava as regras.

Numa outra ronda deste Regional, este “nosso estreante” foi emparceirado para jogar com a minha filha. A mesa desta partida ficava mesmo frente à mesa onde eu, na qualidade de árbitro, me sentava e de forma a que o “estreante” ficava virado para mim.

A determinada altura da partida notei que o “nosso amigo” estava a fazer uns movimentos estranhos.

Suspeitei de imediato que estava a ser utilizado o telemóvel .

Levantei-me e, sorrateiramente, fui-me aproximando da mesa do jogo.

Nem quis acreditar no que os meus olhos estavam a ver: o jogador estava a manusear um telemóvel debaixo da mesa de jogo.

Interrompi de imediato a partida, comunicando ao prevaricador que lhe era averbado derrota e expliquei-lhe os motivos mostrando-lhe o regulamento da prova.

Enquanto isto se passava, ouviu-se um borburinho na sala, oriundo da mesa número um.

Então o que se passava?

O líder do torneio, a jogar na primeira mesa, ao aperceber-se do que estava a acontecer com o nosso estreante, lembrou-se que tinha no seu bolso o aparelho de telemóvel, situação proibida regulamentarmente. Levantou-se de imediato, com o aparelho na mão e com intenção de colocá-lo onde o devia ter colocado de inicio: na mesa do árbitro.

-Árbitro. Árbitro. - ouviu-se, chamando da mesa um.

-Ele estava com o telemóvel no bolso – reclamaram.

O árbitro só tinha uma alternativa: averbar derrota ao, até então, líder do torneio.

Foi isso que fiz e como consequência desse acto, ficou afastada a hipótese desse jogador conquistar o título regional.

Na verdade, neste Regional, aconteceram várias situações dignas de serem contadas e comentadas nas apetecíveis tertúlias, como aquela em que um jovem, deparando-se com um adversário em estado de embriaguez, perguntou ao árbitro se era obrigado a jogar com uma pessoa naquele estado.

Relativamente ao estreante, deixou-o de ser, como é lógico, e é um assíduo jogador nos vários torneios que se realizaram em S. Vicente, depois da sua estreia competitiva.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1009 de 31 de Março de 2021.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Francisco Carapinha,4 abr 2021 7:57

Editado porAndre Amaral  em  5 abr 2021 16:31

pub.
pub.
pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.