Calane da Silva, Meu Irmão Índico

PorBrito-Semedo,24 mai 2021 7:00

Na ‘Carta para Manuel Bandeira’¹, o Poeta modernista cabo-verdiano Jorge Barbosa (Praia, 1902 – 1971), escreveu os seguintes versos para o Poeta brasileiro (Manuel Bandeira, 1886 – 1968) que não conhecia e de quem não tinha lido nenhum livro, apenas o poema ‘Estrela da Manhã’ e alguns outros:

Aqui onde estou, no outro lado do mesmo mar,

tu me preocupas, Manuel Bandeira,

meu irmão atlântico.

Eu faria por ti qualquer cousa impossível.

Depois voltaria tranquilamente para a minha ilha

no outro lado do Atlântico.

Seguindo o exemplo desse meu conterrâneo Jorge Barbosa, aqui da minha ilha atlântica, onde o Calane da Silva (Lourenço Marques, 1945 – 2021) e eu estivemos juntos pela última vez em 2018 e nos despedimos com um novo encontro marcado, dessa vez em Maputo, invoco com profunda estima o meu irmão índico.

*

Cheguei à grande cidade de Maputo em Março de 1992,deixando para trás a minha pequenina cidade da Praia, na ilha de Santiago.

Eram tempos difíceis, Moçambique estava a sair de uma guerra civil e a assinatura do Acordo de Paz, em Roma, era a esperança de um novo recomeço.

Maputo, a cidade das acácias rubras, com cerca de um milhão de habitantes, era para mim um deslumbramento: amplas avenidas, vivendas e prédios altos, espaços amplos, jardins enormes, cheiros e cores exóticos das frutas, das capolanas e das gentes. O espaço e o tempo eram para mim outros.

Já um pouco mais ambientado, saí de casa com um mapa decidido a percorrer o centro da cidade a pé. Ao fim da tarde, entrei na vivenda onde funcionava a Associação dos Escritores Moçambicanos. Fui conhecer os donos da casa e meti conversa com um pequeno grupo que se encontrava a uma mesa cavaqueando e tomando cerveja. Calane da Silva chamou a minha atenção pois era o único a tomar chá. A foto do autor de Xicandarinha na Lenha do Mundo,na badana do livro, tinha-me feito pensar que era homem idoso. Contei isso ao Calane da Silva que deu uma estrondosa gargalhada e me contagiou. Foi assim a nossa apresentação.

A conversa, acompanhada de goles de chá preto, correu solta sobre escritores de Cabo Verde, seus conhecidos, e sobre as viagens que fizera às ilhas. E, coincidência das coincidências, Calane da Silva, depois de vários anos de jornalismo, voltara a estudar e frequentava o Instituto Superior Pedagógico de Maputo, o mesmo instituto onde eu ia fazer o complemento de licenciatura, vindo a ser meu colega de estudo e amigo de todas as horas!

*

Em 2015, Calane da Silva era Presidente do Conselho Científico do IILP – Instituto Internacional da Língua Portuguesa (2014-2018), quando veio a Cabo Verde. Eu tinha sido Director Executito do IILP indicado por Cabo Verde para o biénio 2004-2006. Calane da Silva logo me procurou para um abraço, matar as saudades e colocar a conversa em dia. Curiosamente, era Directora Executiva do Instituto, a Doutora Marisa Mendonça, uma das nossas antigas professoras no Instituto Superior de Educação em Maputo.

Desse reencontro, guardo como memória a dedicatória deixada no meu primeiro livro, escrito em Maputo e publicado pela Ilhéu Editora (Cabo Verde) em 1995:

Caro irmão e grande amigo Manuel

Vinte anos depois e agora na tua casa, na Praia, te abraço com palavras de muita admiração pessoal e intelectual e recordo esta obra que li em primeira mão e fiz o prefácio2.

(Ass) Calane da Silva, Praia, 12.02.2015

*

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

Digam que eu sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi

[coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerá

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã.

Saudades do Calane da Silva, Meu Irmão Índico.

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Académico, escritor e ensaísta, Raúl Alves Calane da Silva começou por fazer jornalismo em 1969 tendo sido coordenador da Gazeta Artes e Letras da revista Tempo e chefe da redacção da Televisão Experimental de Moçambique. Atingiu o topo da carreira em 1991.

Foi membro fundador da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), onde foi secretário adjunto, em 1987. Dos Meninos da Malanga (1981) e Xicandarinha na lenha do mundo (1987) são os livros mais conhecidos dessa fase. Em 2011 Calane da Silva foi Prémio José Craveirinha, o maior galardão literário moçambicano, que distinguiu a sua carreira na literatura e no ensaio.

Calane da Silva era Mestre e Doutor em linguística portuguesa, vertente lexicologia, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Além de docente no Centro de Línguas da Universidade Pedagógica, em Maputo, Calane da Silva foi investigador da literatura moçambicana. 

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1 In Caderno de um Ilhéu (Lisboa, 1956). 2 “Não deixar os ensaios sobre as nossas culturas apenas em mãos alheias”, Caboverdianamente Ensaiando, Vol. I, São Vicente, Ilhéu Editora, 1995.

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Entre as letras, um porto de abrigo

“O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:

Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças

dos meus marejados olhos transborda-me a vida,

salgando-me o rosto e o gosto”

– Conceição Evaristo, escritora e poeta brasileira,

in Cadernos Negros, vol. 15

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1016 de 19 de Maio de 2021. 

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Autoria:Brito-Semedo,24 mai 2021 7:00

Editado porAndre Amaral  em  24 mai 2021 7:00

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