Ah! A Boa Escola!...

PorOndina Ferreira,13 dez 2021 8:12

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​Entrando logo no assunto a que hoje me propus, sempre vou dizendo que soube há bem pouco tempo, por um aluno da Escola Portuguesa da Praia, que a referida escola tem na hora actual, cerca de 900 (novecentos alunos) e que possui uma extensa ou igual lista de espera – Quando ouvimos isso, alguém ao meu lado comentou: “Ainda bem, que estão aí tantos alunos. São eles que irão conservar a Língua portuguesa neste Arquipélago. Bem-haja a escola portuguesa!”

Fiquei com curiosidade e com vontade de me abeirar da Escola em apreço, para saber, através de dados fiáveis do número de procura de lugares e da proveniência e do perfil socio-económico dos alunos que a frequentam.

E o interessante é que já se distinguem os alunos da escola em referência, pois que na rua, ou quando estão juntos, falam português uns com os outros.

Pensei comigo: “Que contraste! Ao que chegou a escola pública no meu país! É certo que de há muito, se previa a sua derrocada, mas não na dimensão a que esta se deu. Foi preciso ser implantada entre nós a escola Portuguesa (em boa hora chegou) para se redimir o ensino da Língua portuguesa, nossa de pleno direito, e que era ensinada com precioso cuidado aos nossos alunos há poucas décadas, por professores cabo-verdianos que a dignificavam. Mas hoje, e infelizmente, para mal dos nossos pecados, já nem o professor cabo-verdiano da disciplina, sustenta – com proficiência linguística – uma conversação em português. Enfim, uma derrocada gigantesca do ensino público!”.

Veio-me à memória – igualmente por contraste – a conversa havida, há já algum tempo, com um antigo Faroleiro do farol de D. Maria Pia da Praia, que ao ser-lhe notado que ele se expressava bem em português, ele respondeu de pronto: “Minha senhora, eu fiz a 4ª Classe da Instrução Primária, no tempo em que se completava a escola Primária aqui em Cabo Verde, a saber falar, a contar e a escrever em português!” (Sic).

Pois bem, voltando à escola portuguesa, os pais que podem economicamente e que cuidam duma escolarização de melhor qualidade para os seus descendentes, procuram com afã, um lugar para o filho ou para o neto na Escola Portuguesa. O que está bem. Ninguém condena. Antes, pelo contrário, uma vez que a escola pública em Cabo Verde anda pelas “ruas da amargura” em termos de qualidade de ensino, torna-se infelizmente normal, que esses mesmos pais procurem - entre a oferta escolar - a melhor.

Não possuo dados para definir o perfil das famílias cujos filhos frequentam a referida escola, mas não corro muito o risco de errar se eu disser que elas pertencem à classe social mais instruída e mais capaz financeiramente. O que faz sentido e tem lógica.

Apenas uma nota irónica, (que não belisca e não tem nada a ver com o bem enorme que foi criar-se a Escola Portuguesa nas cidades da Praia e do Mindelo); alguns desses pais e avós pertencem ao grupo que quer impor o Crioulo nas escolas públicas. Os chamados crioulistas. Numa atitude que alguém já definiu e bem, como de um egoísmo atroz. Ou seja: “eu já domino a Língua portuguesa e outras Língua globais e os meus filhos e netos vão pelo mesmo caminho. Ponto final. Não quero saber dos outros que frequentam a escola pública. Para estes, basta o Crioulo.” Adivinhem quem são esses “outros”?...

Quando hoje, mais do que nunca, devemos estar todos, e empenhadamente, a defender o ensino desta Língua global (definida pela Unesco) que é nossa também, a Língua portuguesa, e, ao mesmo tempo, defender uma melhor escola pública no país, uma vez que é na escola que os filhos e netos da camada social menos favorecida procura o chamado “elevador social” que lhes trará melhor futuro. É na escola, através da leitura, do escutar o professor, e no decorrer do processo de aprendizagem que o aluno se socializa com a Língua portuguesa, veiculo, por excelência, de transmissão de conceitos científicos, tecnológicos, literários e filosóficos, insertos nos programas e nos manuais escolares.

Uma boa escola é fundamental, em todo o percurso de vida da criança, do adolescente e do jovem na sua formação para o trabalho e para a sociedade.

E falando em boa escola e na qualidade do seu ensino, trago à colação, um excerto do livro: «Os Meus Compatriotas» de Luís Valente de Oliveira, editora Gradiva, 2021. O livro, como o próprio título indica, incide sobre os portugueses enquanto povo antigo e o modo como se adaptam, em contextos e em culturas diferentes. O interessante é o excerto escolhido pois que se refere à educação formal e àquilo que se espera que a escola faça. Um pouco na linha da questão, que deve fazer a escola?

Segundo o autor, a escola deve apelar: “a) ao conhecimento rigoroso e à análise racional dos problemas, por oposição ao palpite e às imagens impressionísticas; b) à reflexão amadurecida, por oposição à primeira ideia que nos vem à cabeça; c) ao método e à persistência na acção, por oposição à improvisação e à indiferença; d) ao espírito crítico construtivo por oposição à maledicência; e) à cooperação e à generosidade, por oposição ao individualismo egoísta; e) a que vejamos no sucesso alheio um estímulo e não uma fonte de inveja. Propõe-nos, em suma, um código de conduta, um guião para a cidadania responsável. No fundo, para merecermos o bem de viver em democracia e em paz, cabe-nos a todos e a cada um a responsabilidade de sermos cada dia melhores cidadãos.” Luís Valente de OliveiraOS MEUS COMPATRIOTASGradiva, 216 pp. – Fim de transcrição.

Será que nos dias que correm, a escola pública cabo-verdiana, se reconhece em alguma alínea aqui transcrita?

Será que a nossa escola – na pessoa do professor – estará a cuidar do desenvolvimento do raciocínio cognitivo, lógico e dedutivo do aluno? Que é um dos fundamentos do ensino?

Será que ainda existe entre nós, no sistema de ensino, a inspecção pedagógica para os diferentes níveis do ensino, para se aquilatar do saber e do saber fazer do professor?

Será que estamos a criar um fosso social ainda maior?... em quase tudo, semelhante ao que aconteceu no Haiti? Quando os socorristas internacionais (europeus e falando francês) não se entenderam – linguisticamente – com os naturais, na entrega de géneros alimentícios e de medicamentos, aquando do último terramoto? E foi o caos. Porquê? A escola e outros meios de comunicação, do Haiti, por lei nacional, haviam sido desapossados de uma Língua global, o francês. Claro que os haitianos, a minoria com posses, colocou os filhos nas escolas privadas francesas. Em flagrante diferença, a significativa maioria pobre e socialmente desfavorecida, ficou apenas com o “Créolo” haitiano na escola pública.

Não sei se por esta altura, já terão emendado a situação.

Será que é isso que queremos para este nosso Arquipélago pobre e em tudo dependente da ajuda internacional para o seu desenvolvimento?

Custa-me acreditar...

Para onde caminha o ensino em Cabo Verde?

Bem, creio que este meu escrito para “post” já vai longo e cabe-me pôr um ponto final, se não, corro o risco (agora sim) de sequer, ele ser lido pelo leitor do «Blog».

Publicado no http://coral-vermelho.blogspot.com/

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1045 de 8 de Dezembro de 2021.

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Autoria:Ondina Ferreira,13 dez 2021 8:12

Editado porAndre Amaral  em  23 dez 2021 9:40

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