Cachupa Psicadélica – de um alternativo imaginário cabo-verdiano

PorPaulo Lobo Linhares,6 jun 2022 7:58

​Há um conjunto de grupos, que a mistura da sua especificidade e a paixão que por eles nutre, faz com que seja extremamente difícil escrever sobre os mesmos, pois o sentir ofusca o descrever. Fica a sensação de que tudo o que digo, ou é pouco ou não é descrito da forma completa.

Escrever sobre Lula’s e Cachupa Psicadélica é difícil, mas senti-los é fácil.

Começam exactamente por serem criadores de experiências musicais, sendo experimentais na medida certa – o que faz com que com que consigamos criar em nós os ambientes necessários e exactos, pois o que nos dão é tão preciso que sobra pouca sobra…

Convidam-nos a viagens, baseadas no ambiental-electro, onde há peças de um puzzle que passa pelas sonoridades de Seattle, quase que nos inícios do movimento da sempre presente indie-música, porém sempre em naves com a estampa CV. Neste espaço já me tinha referido a palcos-movimento especiais que brotavam em Lisboa, de um novo vento de Cabo Verde do qual nomes como Danae Estrela, Bilan e Cachupa Psicadélica iam desbravando inícios, porém sem a preocupação de serem pioneiros. Tudo acontecia por expressão musical interior …mas foram-no…sobretudo “geraram acção” embrulhados no que denominaram “culturaédnossa”.

As cordas de Lula’s quase que nos indicam os pontos e nos transportam para a construção do todo. Balanceiam por sons criados sem etiquetas nem compromissos. Acredito que tudo é feito com base em (in)formações sonoras de origem mil, que passando pelo tal som-Seattle, vai a salpicos de Moore e retira pedaços do maior oásis de guitarras da África – os sons do Mali. Contudo, tudo o que disse é assente em tela que recebe as referidas pinceladas e forma o som dos Cachupa, que conseguiu, ao longo das diferentes formações, nunca perder identidade, mesmo nesta fase mais recente, com a entrada do experimentalismo de Henrique Silva. Ah – a tela referida é feita das ilhas, e toda a inspiração que dai advém. Da tradição-cultura sempre como bandeira primeira…

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Conforme referi, a formação actual tem os teclados e programações e um infinito criativo de “plus” que tanto poderão passar pelas “beat machines”,” samplers” ou cavaquinhos.

Se Lula’s pinta a música que escreve, Henrique faz, das sonoridades que usa, experiências intensamente sonoras que nos remetem para ambientes que preenchem os tais pontos traçados pela sua guitarra. Henrique é clara imaginação criativa e conhecimento técnico-musical.

A completar o trio, Renato Chantre. Baixista de excelência, vem participando em imensos projectos das novas tendências musicais cabo-verdianas, mas não só. Incute na referida estrada-viagem o balanço … quase que nos propondo a maneira apropriada de recebermos a sonoridade-conjunto e a “cachupa servida” com os mais variados ingredientes, porém sempre apurada.

Poderia continuar a falar da inovação que o grupo trouxe à nossa música, dos conceituados duetos que já fez, das diferentes formações que foram tendo desde a sua formação, dos palcos pisados e críticas recebidas, dos nomes mais conceituados de analistas musicais, da importância do impacto numa nova geração que passeia por Lisboa a nossa nova mistura musical…mas acredito que inútil seria, pois cada vez tenho mais a sensação de que os Cachupa Psicadélica tocam para a música…o que vem de rótulos, títulos, etc. é consequência… obviamente valorizada. Mas em primeira instância o desapego pelo compromisso que têm unicamente com a música.

Vão estar entre nós em meados de Junho, onde viagens serão propostas, trilhos aconselháveis e musicalidade para nos deixarmos levar e embalar.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1070 de 1 de Junho de 2022. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,6 jun 2022 7:58

Editado porAndre Amaral  em  27 jun 2022 7:20

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