Um monumento incontornável da música cabo-verdiana, em tempo de festas - a outra face

PorCésar Monteiro,23 dez 2022 12:28

César Monteiro | Sociólogo e investigador
César Monteiro | Sociólogo e investigador

No contexto de uma família urbana modesta, nasce, a 10 de fevereiro do ano de 1935, na Ribeira Bote, freguesia de Nossa Senhora da Luz, na cidade do Mindelo, São Vicente, Luís Ramos Morais, de nome completo, filho de Raimundo Conrado Morais (Musa) e de Guilhermina Antónia Ramos (Nhá Guilhermina ou Gadjome), ambos solteiros e, também, naturais da ilha do Porto Grande.

O menino-prodígio da Ribeira Bote

Desenvolto e oriundo de uma família de músicos com realce para o avô paterno Pedro Doroteia “Nhô Pitra” Morais, o pai Raimundo “Musa” e os tios Francisco (Pitrinha), Adão, Manuel (Penha), Augusto e Pedro Doroteia “Duca de Nhô Pitra” Morais, Jr., Luís, desde a mais tenra idade, ganha o gosto pela música, ao longo de um processo de socialização musical que decorre sem maiores sobressaltos. Em 1951, o menino-prodígio da Ribeira Bote termina a 4ª classe de instrução primária, e, entre 1960 e 1961, volvidos cerca de dez anos, apenas inicia o estudo do 2º ano liceal, numa altura em que, curiosamente, cumpria o serviço militar. Em 1954, a mãe, que, no tempo dos Carvoeiros, em São Vicente, laborava, ora na Companhia Nacional de Carvão, ora no Cais da Alfândega, carregando, à cabeça, verduras que chegavam à ilha, através dos palhabotes, faluchos e lugre de cabotagem de então, resolve emigrar para São Tomé e Príncipe, mediante contrato de trabalho individual. Nas roças do Sul, Nhá Guilhermina trabalha na famosa Água Izé, na azáfama da quebra de cacau, à procura de meios de subsistência dos seus filhos, que não encontrara na sua ilha natal, onde labutava de sol a sol, numa dinâmica da roda da vida que se tornara insuportável. Criado com a mãe, primeiro, na Ribeira Bote e, depois, entre os 9 e os 14 anos, na Rua do Douro (ou Rua de Muralha), no meio de imensas dificuldades, Luís, que já contava com 18 anos de idade, na altura, recusara-se a acompanhar a mãe Gadjome para a então colónia portuguesa localizada no Golfo da Guiné, alegando que apenas os “desanimados” emigravam para S. Tomé. Traumatizado e amargurado com a partida da mãe para as roças desse país da costa equatorial ocidental da África Central, o filho mantém-se firme nas suas convicções e prefere permanecer em S. Vicente, em casa de uma prima chamada Virgínia de Frank Doze, que o acolhe durante cerca de três meses. Porém, antes da partida de Nhá Guilhermina, Luís Morais coabita com o pai Musa, durante pouco tempo, é certo, pois desentende-se com a madrasta e passa a residir, a título provisório, em casa do seu avô paterno, sita na Rua Guibarra, popularmente conhecida por Rua de Murguine.

Uma infância atribulada

Na realidade, Luís Morais conhece uma infância relativamente atribulada, do ponto de vista da mobilidade espacial, passando de um lado para outro, não obstante o ambiente familiar de algum desafogo económico encontrado em casa do avô Pitra, descendente do Norte da Boa Vista e então chefe de capatazes da Companhia Nacional de Carvão. As andanças de um lado para outro, no quadro de um frágil processo de socialização primária, geram no Luís um sentimento de revolta interior, conquanto passageira, com incidências negativas sobre a sua estrutura de personalidade, tornando-o por vezes autoritário, tanto no relacionamento em casa, como na sua atividade profissional, particularmente na docência, mais tarde, já na reta final do seu percurso de vida. Após sucessivas e breves coabitações com a mãe, o pai e o avô paterno, Luís Morais, ainda adolescente e antes que emigrasse, primeiro para o Senegal e, depois, para Holanda, passa a viver em casa de Nhá Bernalda, localizada atrás da Igreja Salesiana, em regime de quarto compartilhado, e junta-se a Djosa, filho daquela, com quem estabelecera laços fortes de amizade, e a Djosinha, todos eles bons executantes de clarinete. Ao grupo liderado por Luís, de resto, o mais evoluído dos seus pares, associar-se-ia, em 1964, Armando Pitanga, também ele conhecido no meio mindelense como bom executante de clarinete, bem como os demais companheiros das lides musicais. Entre os oito e os dez anos, Luís Morais apanhava carriço, introduzia os buracos, adaptava teia de aranha e tocava em bailes infantis, batizados de abobrinhas e bonecas confecionadas de trapo, ou de celulóide que determinadas moçoilas de então organizavam. O seu primeiro instrumento musical, ainda na fase da adolescência e antes do seu ingresso na Escola de Música do Sr. José Alves dos Reis, regente da Banda Municipal de S. Vicente e responsável pela aprendizagem musical de várias gerações de mindelenses, foi a flauta pífaro, que lhe oferecera Musa, a pedido do próprio filho.

No roteiro da aprendizagem musical informal, Luís e Toy Estevão, filho Nhô Lisbone, então conhecido clarinetista da Banda Municipal, formam um dueto de flautas, ao qual, mais tarde, viria a juntar-se Nelson de Nhá Nizinha, que anima sessões de música na zona. O acompanhamento do dueto era assegurado pelo ritmo de frigideiras velhas, servindo de banjo, e latas de petróleo, servindo de bateria, em coretos improvisados em carros de mula utilizados, ao tempo, no transporte de materiais de construção, numa altura em que quase não havia camionetas em São Vicente. Ainda em plena fase da infância, quando estudava a terceira classe de instrução primária, na Ribeira Bote, Nhá Guilhermina resolve matricular o filho na Escola Profissional de Artes e Ofícios, vulgarmente conhecida por Pontinha, dirigida pelo mestre Teodoro Gomes (Cunco), com o intuito de se tornar aprendiz de serralheiro mecânico. Sempre que se lhe proporcionasse alguma oportunidade, Luís fugia da escola de formação profissional e preferia a de música do Sr. Reis, que o motivava.

Na Oficina da Pontinha, permaneceria apenas durante treze meses, no término dos quais adquiriria o estatuto de aprendiz de carpinteiro marceneiro. A par da aprendizagem de carpintaria e mercenaria nalgumas oficinas de Mindelo, Luís Morais, que era uma criança fina, do ponto de vista físico, e mostrara vocação para a música, ainda cedo, inscrever-se-ia definitivamente como aluno na escola de música do Sr. Reis. Apreciador do bom clarinete de Ti Féfa, ou do trompete de Djack Estrelinha, conclui o curso de Solfejo e Teoria Musical, aos 14 anos de idade, e começa a tocar clarinete requinta, passando, igualmente, por clarinete em Si bemol, saxofone soprano, saxofone alto, flauta e saxofone tenor. Em outubro de 1950, integra a Banda Municipal de São Vicente e junta-se a Manel Clarinete (ou Manel Requinta) e a Morgadinho. Entretanto, em outubro de 1954, depois de uma digressão ao Fogo da Banda Municipal sanvicentina de que fazia parte o próprio clarinetista, Luís Morais ruma para a ilha do Sal, a convite de Toi Fininha, natural da ilha de S. Nicolau,para animar um baile de aniversario natalício, e encanta os salenses com o seu sensual e deslumbrante clarinete. No Sal, Luís reside em vários locais, mas. inicialmente, vive em Pedra de Lume em casa do falecido Lela Tchau, também natural de S. Vicente, carpinteiro na Oficina de Salins du Cap Vert, executante de violão e bateria, com quem animava bailes. Por suposta interposição do próprio Lela Tchau, Luís Morais trabalha nas Salinas de Pedra de Lume como seu ajudante de carpinteiro. Entretanto, o clarinetista, decorrido algum tempo, passa a residir nos Espargos (Preguiça), pois é admitido na Direção-Geral de Obras da Aeronáutica Civil portuguesa nos Espargos como “ajudante de carpinteiro do Sr. Maçussa, até ao seu regresso definitivo à ilha natal, em 1957. O Luís trabalhava e vivia nos Espargos e, aos sábados, costumava deslocar-se à Santa Maria para animar bailes com o seu famoso clarinete ou passar fins de semana” (Toy Duarte, 2004). Nos Espargos, onde cultiva excelentes relações de amizade, que, por sinal, deixaram na ilha marcas e raízes profundas, passa a viver na localidade de Morro de Curral, num quarto que a empresa à qual estava ligado o músico lhe cedera gratuitamente. Mais tarde, Luís arrenda um quarto na Ribeira Funda, cuja proprietária era uma senhora de Santo Antão, que então respondia pelo nome de Joana de Gualdina, e regressa a São Vicente, em 1958, quando a empresa resolve fechar as portas.

Taninho Évora admirava-o muito, pois acabara de se formar na escola de música do Sr. Reis, executava muito bem o requinta e tirava solos extraordinários de clarinete. Luís Morais introduz na ilha do Sal o clarinete, que, passa, assim, a suplantar os bailes de violino animados por Manim Tudinha e Ti Rocha, e ensaiava num quarto na Ribeira Funda com um grupo musical constituído por Manuel de Eugénia (violão), Taninho Évora (violão), Augusto Tudinha (viola de 10 cordas), Tututa (cavaquinho) e Lela Tchau(bateria ou djazz). No Sal, o também afamado flautista e saxofonista começaria a interessar-se pelos solos de violão de Luís Rendall, Tazinho e Taninho, transcrevendo-os para a pauta. Afora a sua atividade laboral na empresa portuguesa de construção civil, na área da carpintaria, e da música, Luís Morais jogava, no Sal, no Campo d’Obra inaugurado em maio de 1956, na posição de lateral direito ou defesa central no clube desportivo d’Obra, revelando-se um jogador tecnicamente razoável, “duro e muito forte como uma parede” (António Roque Evangelista “Taninho” Évora, 2004). No seu regresso à ilha natal, alinha para a Associação Académica do Mindelo como médio de ataque e enverga a camisola 6, até 1962, ano em que emigra para o Senegal.

Todavia, antes que abraçasse a emigração, ingressara, em 1960, no serviço militar em São Vicente, na segunda incorporação daquele ano, na 2ª Companhia de Caçadores, com o estatuto de soldado refratário. Portador de uma caderneta militar sem qualquer castigo e concluída a escola de cabos, Luís Morais, “figura impoluta e respeitadora” (Vicente “Tchenta” Gomes), ascenderia imediatamente à categoria de cabo 73/60. No Quartel, assumiria as funções de instrutor dos corneteiros de fanfarra militar e andava em punho com o seu clarinete, sem, todavia, deixar de participar em ensaios, sempre que os houvesse. Cumprido o serviço militar em S. Vicente como primeiro-cabo monitor da Escola de Recrutas na 2ª Companhia de Caçadores e não podendo prosseguir os estudos musicais, o já famoso clarinetista mindelense resolve, em finais de 1962, emigrar para o Senegal, onde já se encontravam o pai Musa e o tio Penha, desde 1952, e, mais tarde, Bana, em dezembro de 1961. Passados cerca de dois anos, ingressaria no Conservatório de Música denominado École des Arts em Dakar, com o n.º de matrícula 91, e ali concluiria os seus estudos musicais virados essencialmente para o estudo da flauta, formando-se como músico médio. Na cidade senegalesa, encontraria, também, Djosinha, irmão falecido da Ofélia Ramos, muito conhecido como Joseph de Portugal, conceituado executante de banjo e violão, que integrara o conjunto musical acústico de Djack Estrelinha e tocara, em São Vicente, com Augusto Morais, Ti Féfa e o próprio Luís. Ainda em Dakar, Luís Morais e Djosinha, que residiam em Medina, periferia da cidade senegalesa, tocam juntos, em 1963, no dancing Miami Jazz, propriedade de um senegalês, onde atuava, também, uma orquestra que Luís viria a dirigir, mais tarde.

Decorrido algum tempo, Luís abandona o Miami Djazz e passa para o cabaret Saloum, aberto em 1965, propriedade de um cabo-verdiano natural da ilha de Santiago, de nome Nuna, já falecido, e junta-se a Bana, Morgadinho, Toy de Bibia, Jean da Lomba, Manel Tidjena e Amburtu. Em Dakar, anima bailes de cabo-verdianos, atua nos cabarés Miami Jazz, Saloum Rhytm, Calipso ou Pigalle e elege o clarinete, o saxofone e a flauta como instrumentos de sopro preferidos, numa época em que se impunham, no plano musical, os ritmos latino-americanos como o merengue e o chá-chá-chá. Mais tarde, em junho de 1966, ruma para Holanda, onde, em Roterdão, viria a criar o célebre Voz de Cabo Verde juntamente com Morgadinho, Toy de Bibia, Jean da Lomba e Frank Cavaquim e ao qual se associariam, sucessivamente, o vocalista Djosinha (1967) e o pianista Chico Serra (maio de 1968). A despeito da faceta humorística e da generosidade que tanto o caraterizavam, Luís Morais tinha um sentido apurado da disciplina, particularmente nos ensaios. De forma inteligente, soube utilizar o clarinete na música cabo-verdiana, particularmente na morna, cujo timbre reflectia a melancolia e a tristeza, assumindo-se, na verdade, como um virtuoso e exímio intérprete de sopro. Dotado do perfeito domínio do clarinete, Luís Morais, a partir da música brasileira e privilegiando uma excelente técnica de execução baseada essencialmente na velocidade e na improvisação, teve a capacidade e o reconhecido mérito de evoluir, rapidamente, para o solo cabo-verdiano já despido do sentimento brasileiro, mas incorporando elementos da cultura cabo-verdiana, o que, só por isso, lhe confere um lugar cimeiro na história musical das ilhas.

A intemporalidade, o emblematismo e o simbolismo do Boas Festas

De facto, Luís de Musa ou Ti Liz, nomes por que também era afetuosamente conhecido, deixa uma discografia soberba e de indiscutível interesse, que enriquece sobremaneira o património musical cabo-verdiano. Do valioso legado traduzido na abundante produção discográfica do falecido músico cabo-verdiano, destaque-se, pela sua dimensão identitária e afetiva e, ainda, pelo simbolismo intrínseco, o LP em vinil Boas Festas, classificado, aliás, pelo então Conselho de Ministros, em dezembro de 2015, como património histórico e cultural nacional, “seguramente, um dos mais emblemáticos registos discográficos que enformam a música cabo-verdiana”. Gravado em 1967 e editado em Rotterdam-Holanda, pela Casa Silva, com o selo ou etiqueta da Morabeza Records (Roterdão, Holanda, 1965), o álbum instrumental dominado quase todo ele pela melodia tipicamente cabo-verdiana e ritmo sambado, é composto por 12 faixas musicais executadas no clarinete, de forma soberba, por Luís Morais acompanhado pelo Conjunto Voz de Cabo Verde. Dono de uma embocadura melodiosa, o Mestre, que “não conseguia perceber a sua grandeza, a sua verdadeira dimensão, nem tinha consciência do seu valor como músico” (Manuel Faustino, 2004), não obstante o seu carisma e a sua reconhecida reputação nacional e internacional, projeta-se e perpetua-se, através, também, da grandiosidade, da intemporalidade e da transversalidade do Boas Festas considerado, aliás, uma relíquia incontornável da música cabo-verdiana e fator de união da Nação diasporizada, em tempo de festas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1099 de 21 de Dezembro de 2022. 

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Autoria:César Monteiro,23 dez 2022 12:28

Editado porClaudia Sofia Mota  em  7 jan 2023 11:17

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