2025: um ano charneira, 2026: uma escolha de rumo

PorLuís Carlos Silva,5 jan 2026 9:44

O ano de 2025 ficará registado como um ano charneira na história política recente de Cabo Verde. Não apenas pelos acontecimentos que o marcaram, mas sobretudo pelo lugar que ocupa no ciclo democrático: entre as eleições autárquicas de dezembro de 2024 e as eleições legislativas de 2026, este foi um ano de transição, de ajustamentos, de reposicionamentos e, inevitavelmente, de tensão política. Um ano em que o tempo político começou, cedo, a sobrepor-se ao tempo da governação.

Foi também um ano de contrastes. Cabo Verde alcançou um marco histórico ao ser promovido a País de Rendimento Médio-Alto, reconhecimento internacional de um percurso sustentado de estabilidade, reformas e resiliência. Este novo estatuto não elimina fragilidades nem resolve automaticamente os problemas estruturais do país, mas eleva o patamar de exigência, responsabilidade e ambição coletiva, colocando as escolhas políticas sob um escrutínio ainda mais rigoroso.

Em paralelo, o país foi duramente testado por fenómenos climáticos extremos. As chuvas torrenciais que atingiram São Vicente e Santiago Norte expuseram vulnerabilidades estruturais antigas, mas também evidenciaram a capacidade de resposta das instituições e o profundo sentido de solidariedade nacional. Estes episódios lembraram, de forma clara, que o desenvolvimento não se mede apenas pelo crescimento económico, mas também pela capacidade de proteger pessoas, territórios e meios de subsistência.

No plano político, 2025 foi marcado por um ambiente de crescente tensão e polarização, à medida que o país se aproximava do novo ciclo eleitoral. Embora o episódio de maior confronto institucional — envolvendo o Presidente da Câmara Municipal da Praia, simultaneamente Presidente do PAICV, e o sistema judicial — tenha ocorrido na parte final do ano, o seu impacto ultrapassou largamente o momento em que aconteceu. Pela natureza do cargo, pela exposição pública e pelas implicações institucionais, esse episódio acabou por marcar o debate político de 2025, influenciando o tom da discussão pública e reforçando um clima de crispação que já se vinha instalando ao longo do ano.

Este contexto não pode ser dissociado da lógica pré-eleitoral que passou a dominar o espaço político. Tanto o PAICV como o MpD entraram em 2025 conscientes de que o tempo político já não era neutro. O PAICV enfrentou um processo interno complexo, procurando reorganizar-se após as autárquicas e construir uma narrativa mobilizadora para 2026, apostando fortemente na afirmação do seu líder e numa agenda centrada em respostas imediatas, com particular destaque para a lógica do “tudo grátis”. O MpD, por seu lado, procedeu a ajustamentos nas suas estruturas partidárias e governativas, mudou abordagens, acelerou processos e procurou adaptar-se a um novo contexto político, marcado por maior exigência, escrutínio e maturidade democrática.

O balanço de 2025 não ficaria completo sem referência a sinais claros de vitalidade nacional que extravasam o plano estritamente político. O histórico apuramento de Cabo Verde para a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA constituiu um momento raro de afirmação coletiva, de orgulho nacional e de projeção internacional. Para além do desporto, simbolizou a capacidade de um pequeno país se organizar, competir e ambicionar mais alto quando há visão, disciplina e trabalho consistente.

No plano económico, o turismo manteve-se em franco crescimento, consolidando-se como o principal motor da economia. A entrada de companhias aéreas de baixo custo, o reforço das ligações internacionais e a retoma do turismo de cruzeiros, com especial destaque para o Terminal de Cruzeiros de São Vicente, reforçaram a atratividade do país, diversificaram os fluxos turísticos e criaram novas oportunidades económicas. São sinais claros de confiança externa e de integração progressiva de Cabo Verde nas dinâmicas globais.

Um balanço sério exige, no entanto, a coragem de reconhecer os setores onde os desafios se mantiveram mais evidentes. O transporte doméstico, tanto aéreo como marítimo, continuou a representar um dos principais constrangimentos à coesão territorial e à mobilidade das pessoas e das economias locais, exigindo soluções estruturais que garantam maior previsibilidade, regularidade e confiança. No setor da saúde, apesar dos investimentos realizados, do reforço de infraestruturas e do empenho contínuo dos profissionais, persistem desafios relevantes relacionados com a capacidade de resposta, a pressão sobre o sistema e a necessidade de consolidação de soluções que melhorem o acesso e a qualidade dos serviços. São desafios conhecidos, que exigem continuidade de políticas, reforço de meios e tempo para produzir resultados sustentáveis.

Apesar dos progressos alcançados, a pobreza e o emprego continuam a ser os grandes desafios estruturais do país. Persistem bolsas significativas de pobreza e de desemprego que exigem foco total da governação, políticas públicas bem desenhadas e capacidade de execução.

Os dados disponíveis indicam que 2025 se alinhará com a trajetória de crescimento médio na ordem dos 7% ao ano que Cabo Verde tem vindo a registar desde 2021. Este não é um detalhe menor. É precisamente esta dinâmica de crescimento sustentado que cria as condições económicas, financeiras e institucionais para enfrentar os problemas estruturais do país. Sem crescimento, não há emprego em escala suficiente, não há redução consistente da pobreza, nem há margem orçamental para reforçar políticas públicas essenciais. O caminho para resolver os problemas estruturais passa, inevitavelmente, por manter e aprofundar esta dinâmica, transformando crescimento em oportunidades reais, na dimensão e na urgência certas.

À medida que o país se aproxima de 2026, torna-se inevitável reconhecer que Cabo Verde entra numa nova fase do seu debate democrático. Uma fase em que o risco do populismo deixa de ser uma abstração e passa a fazer parte do jogo político concreto. As promessas de soluções fáceis, de respostas imediatas para problemas complexos e de políticas públicas sem custos aparentes encontram terreno fértil num contexto de pessoas com relevante exposição à pobreza e expectativas legítimas de melhoria das condições de vida. Este tipo de discurso pode mobilizar, mas ignora deliberadamente os limites da sustentabilidade financeira, da capacidade institucional e da responsabilidade intergeracional.

Ao entrar em 2026, Cabo Verde não estará apenas a preparar-se para mais umas eleições legislativas. Estará, sobretudo, a confrontar-se com uma escolha de rumo. Entre aprofundar um percurso assente na responsabilidade, na credibilidade institucional e na sustentabilidade das políticas públicas, ou ceder à tentação do fácil, do imediato e do emocionalmente mobilizador. Entre a política que explica e a política que apenas promete. Entre governar com base em resultados ou disputar o poder com base em perceções.

A democracia cabo-verdiana é suficientemente madura para suportar o confronto político, o debate intenso e a alternância. Mas essa maturidade será posta à prova se normalizarmos a ideia de que tudo é possível sem custos e de que os problemas complexos do país se resolvem com slogans simples. O verdadeiro risco não está na disputa eleitoral, mas na erosão silenciosa da confiança nas instituições e na desvalorização da responsabilidade enquanto valor político.

Fechar 2025 é, por isso, mais do que fazer um balanço, assumir que o futuro do país continuará a depender menos do que se promete e mais do que se constrói — com crescimento, seriedade, diálogo e sentido de responsabilidade de todos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1257 de 31 de Dezembro de 2025.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Luís Carlos Silva,5 jan 2026 9:44

Editado porAndre Amaral  em  5 jan 2026 9:44

pub.
pub
pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.