Jaspers e o Sentido da Filosofia

PorCarlos Bellino Sacadura,2 fev 2026 8:19

Jaspers nunca se afastou do esclarecimento sobre o sentido da vida humana, tanto do ponto de vista científico, proporcionado pela sua formação médica, como no plano ontológico. O esclarecimento da existência orientou-o para o mundo e o que o ultrapassa, para a imanência e para a transcendência.

Considerou a sua filosofia como uma exploração do mundo, um esclarecimento da existência, e uma metafísica. Ao contrário da tendência decorrente das luzese do positivismo, não rejeitou a tradição filosófica, tendo os maiores pensadores sido objecto de ensaios seus, mas também não limitou a filosofia à sua herança histórica, antes considerando-a como motivo para desenvolver uma reflexão pessoal. O mundo de Jaspers não se divide em sensível e inteligível, em objecto e sujeito, ou em si e para si: tem como horizonte o Ser como Englobante,para lá dos dualismos tradicionais.

Como em Kierkegaard, a lógica de Jaspers não é a de um pensamento anónimo, nem uma visão da totalidade ou um saber absoluto à maneira de Hegel, mas uma lógica vivida ou existencial. Contudo, Jaspers não considera a existência como um novo absoluto que viria substituir os anteriores – as Formas, a Substância ou a Razão – porque esta é sempre um movimento para se transcender a si mesma, numa tensão que nunca termina por uma superação ou reconciliação final. Essa tensão pode assumir a forma de arte e conduzir a uma visão estética do mundo, ou a uma visão ética, como modo de encontro consigo mesmo, com os outros e com Deus. A essa presença do divino no mundo humano, do infinito no finito, Jaspers chama Cifra, que não é o Ser como forma, ideia ou racionalidade, mas o Ser como mistério. A existência e o Ser ultrapassam a razão e os conceitos, e não podem imobilizar-se numa visão do mundo definitiva.

A condição humana significa um poder-ser, e não um modo de ser cristalizado ou fechado. A questão formulada por Sócrates e Kant sobre quem sou eu? enuncia-se em Jaspers como o que posso eu ser? Isto apela a conceber o ser humano como projecto, e não a uma auto-suficiência como a sartreana. O nosso poder-ser faz-se em diálogo com Deus e com os outros, ou seja, com o que nos transcende, por meio do amor e da liberdade. Na esteira de Gabriel Marcel, Jaspers considera a filosofia, não como uma mera forma de racionalidade ou como construção sistemática, mas como um apelo do Infinito que para nós – seres finitos e limitados – se apresenta como mistério e cifra da transcendência. O sentido do mundo e da vida está sempre em devir, em movimento – como em Hegel – mas este devir não pode ser compreendido como totalidade, antes como uma permanente interrogação e questionamento.

O pensamento de Jaspers pode inscrever-se na filosofia existencial ou existencialismo, apontando as limitações da ciência e da técnica para compreender o ser humano, mas reservando para a cientificidade um lugar onde esta é acompanhada pela investigação filosófica: nele, as dimensões do cientista e do humanista unem-se, e esta aliança reconhece-se no seu empenho em prol de uma humanização da medicina. Os pacientes não são apenas objectos para os quais se fazem diagnósticos e prescrições: são pessoas, que só podemos entender a partir da sua sensibilidade, das emoções e afectos. As ciências humanas e as ciências exactas têm de cooperar no entendimento da condição humana. A tecnicidade da medicina não pode fazer esquecer a arte, nem a razão ignorar o sentimento, a paixão ou a empatia. O encontro entre o médico e o paciente não é entre um sujeito que toma alguém como objecto de estudo, mas entre dois sujeitos numa relação de reciprocidade, envolvidos num diálogo.

Cada filósofo representa um recomeço da filosofia, retomando por si mesmo, mas criticamente, os momentos que o antecederam. Essa radicalidade foi assumida de modo exemplar pelo projecto cartesiano, ao questionar todo o saber estabelecido e reiniciar por sua conta a reflexão sobre o mundo e o ser humano, pondo em causa todas as certezas. Parece assim poder ser identificado com a actual era de incerteza, introduzindo assim uma dúvida generalizada – até relativamente à existência do mundo. Mas essa dúvida era apenas uma etapa, até se atingir uma certeza última, ou seja, alcançar-se uma segurança ontológica final. Sem assumir qualquer forma de relativismo, a filosofia de Jaspers abraça a transitoriedade da nossa condição, fazendo do mundo actual um ponto de passagem para outros mundos possíveis. O poder-ser ou o vir-a-ser do mundo, do Homem e do Ser é o foco de uma filosofia que é já interpretação e não apenas espelho da realidade.

Enquanto a ciência procura explicar o mundo a partir de métodos quantitativos, a filosofia radica no mundo da vida ou mundo vivido. Na esteira de Heidegger, os pensadores da existência exploram as potencialidades do mundo da vida onde a verdade não consiste numa adequação entre o pensamento e as coisas, mas num desvendamento ou desocultação do mundo e do Ser. Os caminhos não estão já traçados, como nas tradicionais filosofias da história, mas são uma aventura, como atesta o poeta Machado: Caminhante, não há caminho, o caminho faz-se ao caminhar. A história não se deixa encerrar num sentido último ou único, abre-se a uma multiplicidade de sentidos. A imanência histórica do ser humano situado, que conduziu as ciências humanas para uma orientação sociológica – somos um reflexo da sociedade, da história ou da economia – esqueceu a orientação para a transcendência do Ser, de Deus ou do Infinito. Para Protágoras, o ser humano é a medida de todas as coisas, mas é ele mesmo medido por um Englobante ou uma Cifra que transcende toda a medida humana.

Como mostra Lévinas, nenhuma totalidade do saber ou do poder pode pretender assenhorear-se do sentido da história. A tentação totalitária – como a designa Revel – consiste nesta apropriação, em nome do Estado, de um partido ou de um líder providencial. Também a ideia de sistema filosófico visa a totalidade do saber, incompatível com a finitude humana, e com o conhecimento enquanto procura sempre inacabada. Há em Jaspers e Lévinas uma interpretação da história como horizonte da liberdade, que ambos assumiram na sua vida e pensamento, perante as sombras que envolviam o ser tempo. Hoje vivemos também tempos sombrios – nas palavras de Hannah Arendt - que tornam actual o apelo de Jaspers à paz, à justiça, ao diálogo, aos direitos humanos e à democracia, patente em A Situação Espiritual do Nosso Tempo, obra que denuncia o desfasamento entre o progresso tecnocientífico e a falta de compromissos éticos conferindo sentido à vida humana. A progressão material não nos deve fazer esquecer a cultural e espiritual para onde apontam as ideias de Paideia e Bildung retomadas por Jaspers como inspiração de uma filosofia assumida como um novo humanismo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1261 de 28 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Carlos Bellino Sacadura,2 fev 2026 8:19

Editado porAndre Amaral  em  6 fev 2026 10:12

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