País precisa de consensos positivos para dar o salto em frente

PorA Direcção,27 fev 2026 8:14

​Acontecimentos inesperados podem revelar-se marcantes na vida das nações por várias razões. Em geral, destacam-se e surpreendem, independentemente de serem de origem interna ou externa, pelo impacto positivo ou negativo provocado, pelas oportunidades criadas e pelo efeito permanente no carácter do colectivo, na atitude em relação ao mundo e na escolha das prioridades quanto ao futuro.

Passam a ser uma vantagem quando na sua esteira abre-se o caminho para uma nova era em que as qualidades exaltadas de realismo, pragmatismo, mas também de paciência, perseverança e solidariedade são associadas ao esforço do desenvolvimento.

O renovar da confiança que daí emerge permite que se criem condições de prevenção mitigadoras de efeitos negativos, quando ocorrem, de aproveitamento criativo da nova realidade estabelecida e de reforço dos laços que vão manter bem viva a esperança essencial para continuar a progredir. Cabo Verde, pela sua situação geográfica propícia a secas periódicas e devastadoras, pela sua natureza arquipelágica e localização, algo distante dos continentes, claramente que foi marcado por acontecimentos extraordinários. As especificidades do seu povo e da sua cultura provavelmente advêm dai.

O cabo-verdiano, mostrando-se não fatalista, mas resiliente, disposto a emigrar mas agarrado afectivamente às ilhas e unido como povo no país e no estrangeiro deixa saber que tem os ingredientes de carácter para fazer o melhor para a sua terra. De facto, não se deixar prender no passado demonstra que se tem energia para combater dificuldades e também iniciativa e disponibilidade para correr riscos e enfrentar o desconhecido e ainda vontade, movido pelo sentido de pertença, de ver o seu país livre e próspero. O que precisa é de liderança para canalizar e potenciar tudo isso.

É verdade que já se fez muito na consolidação das instituições para se ter os alicerces onde suportar o esforço do crescimento económico e do desenvolvimento e já se investiu muito ao longo de décadas em vários sectores-chave como educação, saúde, infraestruturas e segurança. São reveladores desses avanços os dados apresentados nos últimos tempos nos domínios da governança, corrupção, de perspectiva de crescimento, estabilidade macroeconómica e capacidade de cumprimento de compromissos externos. Podem sugerir que o país está no bom caminho, mas não é de obscurecer o facto que vulnerabilidades múltiplas persistem e podem manifestar-se a qualquer momento face a acontecimentos díspares.

A memória recente do impacto da covid-19, um desses acontecimentos inesperados, traduzido numa contração violenta da economia nacional, uma das maiores verificadas no mundo, deve ser tomado como um aviso sério do nível da fragilidade do país, ainda demasiado dependente do turismo. Não é, pois, de esquecer a perda de rendimento, o desemprego provocado, os investimentos perdidos e a quebra na produção de riqueza verificados e há que evitar que algo similar a essa escala se repita. Felizmente que na sequência da epidemia, uma rápida recuperação da economia, logo que o fluxo turístico foi restaurado, acabou por sinalizar muito do que de positivo vinha sendo feito, o que, aliás, é reconhecido nos relatórios das organizações internacionais. Seria de grande importância que se retirassem daí os devidos ensinamentos.

Não é evidente, porém, que assim se fez. De facto, não se procurou servir-se da sabedoria chinesa de interpretar a crise não só como perigo, mas também como oportunidade. O encerramento forçado do turismo, a actividade comprovadamente vital para o país, devia ter sido servido para se proceder à uma revisão completa de como vinha sendo desenvolvida ao longos dos anos. É natural que tivesse problemas complicados impulsionada como foi por uma procura que crescia rapidamente e estimulava uma oferta de bens e serviços que, muitas vezes sem orientação, regulação ou planeamento, se esforçava por a satisfazer. Com a tal revisão, práticas, comportamentos e ineficiências várias poderiam ser identificados e ultrapassados. E o ideal seria que a recuperação da actividade turística em todo o país e em particular a retoma nas ilhas do Sal e da Boa Vista acontecesse num outro patamar.

Deixou-se passar um momento único provavelmente irrepetível para relançar o turismo num outro nível, a partir do reconhecimento por todos de como é realmente o motor da economia. O país assim focado poderia ter sido mobilizado e preparado para, além de aumentar o fluxo actual, tudo fazer para que a actividade turística resultasse num maior efeito no arrastamento na economia nacional e num maior impulso à diversificação da economia. Também poderia aproveitar a procura externa em potencial para dar escala a outras actividades económicas como a agricultura, a pecuária e os transportes. Concomitantemente devia engajar-se na articulação de políticas em sectores-chave como segurança, transportes, saúde, habitação e educação para responder às exigências criadas pelo aumento do fluxo de turistas, pela movimentação da população para as ilhas onde os investimentos estavam a criar empregos, e pela pressão de novos pedidos de alojamentos e de mais solicitação dos cuidados de saúde.

A realidade actual do aumento rápido do número de turistas, atingindo a maior parte das ilhas na sequência do início e rápida expansão dos voos “low cost” para várias ilhas, começa a deixar mais visível as dificuldades do país em responder à pressão da nova procura. O choque que o crescendo fluxo turístico poderá estar a representar, embora neste caso positivo porque dinamiza a economia, vai revelando a deficiente preparação de um país que há muito devia ter assumido em pleno a centralidade do turismo. É claro que poderá vir a mitigar os efeitos negativos desse descaso, designadamente no que respeita a quebra da qualidade e ao aumento de incidentes e de insuficiências na prestação dos serviços de saúde. Não deixará, porém, de arcar com custos reputacionais evitáveis num quadro de comprometimento maior do país com o turismo, à altura da morabeza que apregoa.

O problema em conseguir um maior engajamento do país na dinâmica de uma actividade económica vital vem da insistência em fazer política reforçando a dependência, valorizando a vitimização e deixando entender que a economia é um jogo de soma zero. As qualidades que os cabo-verdianos poderão ter ganho com a luta contra as adversidades, designadamente as da resiliência, de iniciativa e disponibilidade para correr riscos e de “junta mon” para uma maior união e cooperação sofrem uma erosão permanente no ambiente político da crispação existente.

Ao invés de “consensos positivos” quanto às questões que o país deve focar para se desenvolver e que podiam permitir um debate plural e construtivo de como lá chegar, preferem-se “consensos negativos” sobre questões que de forma demostrada e continuada vão dar praticamente no mesmo, mas com custos acrescidos em cada iteração. Garante-se, assim, alimento para a disputa política que infantiliza e polariza a opinião pública, ao mesmo tempo que não deixa o país focar suficientemente no essencial para o seu desenvolvimento.

Aproximam-se as eleições e com o país a ser acenado com a oportunidade de fazer mais pelo interesse que o destino Cabo Verde está a suscitar, fica-se com a impressão de que o mais importante é passar a mensagem que o país está a ficar caótico, que serviços diversos estão a falhar e que a carência de produtos passou a ser norma. Claramente que num ambiente desses não é a discussão de políticas para o futuro que se pretende. O que se quer é uma sociedade impaciente e respostas emotivas que não deixam os cabo-verdianos potenciar plenamente as suas qualidades que, conjugadas com as instituições e a qualidade de governança já criadas na democracia, podem permitir o país dar um salto no seu desenvolvimento. Há que dar um basta a essa forma de fazer política. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1265 de 25 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:A Direcção,27 fev 2026 8:14

Editado porAndre Amaral  em  27 fev 2026 8:14

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