Do Positivismo à Filosofia Analítica

PorCarlos Bellino Sacadura,13 abr 2026 8:06

​Auguste Comte (1798-1957) elaborou uma filosofia denominada positiva, significando para ele aquilo que Kant afirmava sobre o Iluminismo: a entrada do género humano na sua maioridade, mediante o uso da razão. Considerou que à filosofia compete apenas organizar e estruturar o conhecimento obtido pela ciência, ficando como uma auxiliar do conhecimento científico.

Em parte, o modelo de Comte foi antecipado por Francis Bacon, o qual na Nova Atlântida prefigurava uma sociedade que, em vez dos filósofos de Platão, seria governada por cientistas e tecnólogos. Estes recolheriam todos os saberes e invenções disponíveis, para os colocar ao serviço da Humanidade. O futuro deve encaminhar-se para este mundo novo, sendo assim proposta uma noção de progresso como característica da modernidade. Comte retoma de Bacon a ideia de progresso, a de uma ciência baseada na experiência e a de uma articulação enciclopédica das ciências: a filosofia não pode ser substituída pelas ciências, ela tem uma dupla função própria, de “generalização” e de “sistematização dos conhecimentos científicos” permitindo encontrar as verdades mais importantes trazidas por cada ciência, e depois classificá-las e hierarquizá-las (Jean-François Braunstein). Enquanto as ciências tratam de domínios sectoriais da realidade, a filosofia procede a uma visão de conjunto, ou seja, dá uma forma organizada aos conteúdos fornecidos pelas ciências.

O projecto filosófico de Comte comporta duas vertentes: a epistemológica ou da filosofia da ciência, e a da filosofia política, desenvolvidas respectivamente no Curso de Filosofia Positiva e no Sistema de Política Positiva. A ideia antiga e medieval de ciência era baseada numa atitude teorética, sendo a theoria um modo de compreender e contemplar o mundo, enquanto a moderna é prática, tornando o conhecimento numa forma de poder: Knowledge is power – conhecimento é poder – como já afirmava Bacon. As ciências adquirem poder através da técnica, enquanto a sociologia incide sobre o poder ao nível político e social. É preciso reorganizar a sociedade segundo os princípios da ordem, do amor e do progresso.

A mais célebre concepção de Comte consiste na lei dos três estados: teológico, metafísico e positivo. O primeiro corresponde ao recurso aos mitos e religiões para entender o mundo e a vida humana, ligando-os aos deuses, em torno dos quais se produzem narrativas sobre o Universo e o homem. O segundo já recorre à razão para explicar os fenómenos, mas o seu fundamento é ainda metafísico (a referência é Descartes). Comte não considera que haja um mundo para além dos factos ou fenómenos, ou seja, uma meta-física (para lá da física). O terceiro e último é o estado positivo, que emerge com a ciência moderna galilaica e newtoniana, e com o método experimental – sendo para este estado que tende o futuro. Embora recusasse a ideia do Absoluto, a filosofia de Comte parece apontar para um fim da história que seria o estado positivo. A ciência, no estado positivo, atinge um ponto fixo e definitivo na sua evolução: embora progrida integrando novas observações e acumulando factos, o modo científico de pensamento atinge o seu acabamento, ou seja, pode haver factos novos mas o seu modo de enquadramento mantém-se inalterável. Rodolf Carnap veio clarificar os termos em que podemos definir o conceito de ciência como correspondendo a um saber que pode ser provado ou infirmado pela experiência, mas defende que é preciso deixar esse espaço do saber não fechado de modo redutor, mas implicando ulteriores possibilidades de investigação. Também contribuiria para a formulação do empirismo lógico, ao afirmar que os dados sensoriais e o campo da experiência não são suficientes para elaborar o conhecimento científico, mas que este implica também um enquadramento lógico, ou seja, que o conhecimento tem um conteúdo empírico e uma forma lógica. Para se afastar de uma perspectiva redutora da ciência como aquisição de dados observacionais e revalorizar o lugar da teoria, Carnap veio propor uma dupla articulação na linguagem científica, entre observação e teoria, ou seja, entre linguagem observacional e linguagem teórica. Mas a própria prática científica mostra é que as observações já são guiadas por um determinado quadro teórico (tese conhecida como impregnação teórica da observação) modificando-se a teoria em função de novos dados observacionais. Por isso, filósofos como Davidson ou Putnam propõem uma perspectiva holista da ciência, sem nela separar a observação e a teoria, mas integrando-as interactivamente.

O neo-positivismo propõe como critério de verdade a testabilidade ou verificabilidade empírica das teorias ou proposições, excluindo a metafísica por esta ultrapassar o campo da experiência possível, continuando Comte, mas diferencia-se pela tónica colocada na lógica e na linguagem: a filosofia é uma tarefa de clarificação da linguagem. (Wittgenstein). Chegar a uma concepção científica do mundo e unificar as ciências era o objectivo do chamado Círculo de Viena onde, na esteira de Wittgenstein no seu Tratado Lógico-Filosófico, o foco estava no sentido das proposições, sendo as verificáveis as que têm sentido. Contudo, mesmo tendo um conhecimento total da Natureza, o essencial continuaria por explicar – como atesta Wittgenstein – porque temos sempre questões éticas que escapam à lógica das ciências positivas. E a ideia de haver significações inexprimíveis conduziria este filósofo à afirmação de um horizonte transcendente – o místico. Depois do Tratado Lógico-Filosófico, Wittgenstein renunciou a uma visão unidimensional correspondente a uma forma lógica do mundo. Nas Investigações Filosóficas, não há uma lógica do mundo, mas múltiplas formas de vida diferenciadas e plurais. A pluralidade de modos de viver e pensar o mundo não permite um procedimento que vise unificá-las num único padrão e, com esta formuçação, Wittgenstein elabora uma visão multicultural do mundo.

Até que Kant viesse a formular o método transcendental, vulgarmente chamado empírico-racionalista, a filosofia dividia-se entre o racionalismo, defendendo o primado da razão – desde Parménides a Platão, no mundo antigo, até culminar na modernidade cartesiana, e o empirismo, com Bacon e Locke. Se considerarmos o horizonte geográfico da filosofia, a orientação racionalista e metafísica marca a Europa continental, enquanto a orientação empirista radicaria na tradição filosófica britânica. Ainda hoje se usa a designação de filosofia continental para designar a tradição filosófica racionalista ou metafísica, diferenciando-a da britânica e americana, de base empirista. Esta perspectiva assinala a polaridade entre dois modos de ver o mundo, ou entre dois estilos de pensamento filosófico, mas não é possível simplesmente ver o continente europeu e o anglo-americano como blocos agrupando visões unilaterais. Trata-se antes de redes conceptuais complexas, onde se desenvolvem modos complementares ou opostos de configurar a experiência e a teoria, enquanto formas de inteligibilidade do mundo.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271 de 08 de Abril de 2026.

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Autoria:Carlos Bellino Sacadura,13 abr 2026 8:06

Editado porAndre Amaral  em  13 abr 2026 8:06

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