23 de Abril: Três Gestos, Um País

PorManuel Brito-Semedo,23 abr 2026 7:57

O 23 de Abril tem, em Cabo Verde, um significado particular. Nesta data assinala-se o nascimento de Baltasar Lopes da Silva, celebra-se o Dia do Professor Cabo-verdiano e marca-se o Dia do Livro e do Autor. Três dimensões cruzam-se num mesmo ponto: a educação, a escrita e a formação de consciência. Mais do que coincidência, trata-se de uma convergência com valor cívico. Um país afirma-se também pela forma como ensina, lê e se pensa.

Num tempo marcado pela velocidade da informação, pela fragmentação da atenção e pela pressão do imediato, esta data ganha um alcance acrescido. Falar de professores, de livros e de autores é falar de permanência, de transmissão e de construção. É afirmar que o futuro não se improvisa – forma-se. E forma-se, antes de tudo, na relação entre quem ensina, quem escreve e quem lê. A escola, nesse quadro, não é apenas um espaço de instrução. É um lugar de formação de carácter, de construção de sentido e de preparação para a cidadania.

O Depoimento pelos 50 anos da Claridade (1986), de Baltasar Lopes, ajuda a compreender esse sentido. O autor revisita o surgimento da revista Claridade nos anos 30, num contexto de censura e escassez de meios, e sublinha uma opção decisiva: escrever a partir da realidade cabo-verdiana. A literatura deixa de ser exercício distante e assume-se como instrumento de leitura do país. A palavra passa a ter função, direcção e responsabilidade. A escrita deixa de ser ornamento e torna-se acto.

Raiz

A Claridade introduz uma mudança de fundo. A escrita passa a observar e a interpretar as condições concretas do arquipélago – sociais, económicas e culturais. A seca, a fome, a emigração, as formas de vida, os ritmos da insularidade deixam de ser pano de fundo e tornam-se matéria central. Cabo Verde afirma-se como objecto de reflexão e deixa de ser apenas cenário literário.

Esta mudança não é apenas estética. É intelectual. A literatura ganha uma função de conhecimento. A escrita torna-se uma forma de pensar o país e de o dar a conhecer a si próprio. Nesse gesto, nasce uma consciência – ainda em construção, mas já orientada para a afirmação de uma identidade própria.

É neste quadro que se insere Chiquinho, um dos clássicos maiores da literatura cabo-verdiana. O romance acompanha o percurso de formação do seu protagonista, da infância à maturidade, num itinerário que é também o de uma geração. A escola, a terra, a partida, o confronto com o mundo – tudo ali se articula numa narrativa que dá forma à experiência cabo-verdiana.

Chiquinho não é apenas um romance. É uma síntese. Ao transformar a experiência em narrativa, fixa uma visão do país por dentro e aprofunda o gesto da Claridade: olhar, compreender e dizer Cabo Verde com verdade.

Fundação

Ao centrar-se na realidade cabo-verdiana, a Claridade contribui para afirmar uma identidade própria. Sem adoptar um discurso político directo, a revista desempenha um papel decisivo na construção de uma consciência colectiva. Ao nomear o país, torna-o visível. Ao descrevê-lo, torna-o pensável.

Baltasar Lopes reconhece, no seu depoimento, as limitações da época – falta de meios, dispersão dos colaboradores, ausência de formação especializada –, mas destaca a existência de uma orientação comum. Mais do que um programa, houve um sentido. E esse sentido foi suficiente para abrir caminho.

Num contexto em que a intervenção política era limitada, a escrita tornou-se um espaço de afirmação. Ao descrever e interpretar o país, ajudou a estruturá-lo como ideia. A literatura antecipou, nesse plano, aquilo que mais tarde se afirmaria como projecto histórico.

A passagem dos 90 anos da Claridade confirma a actualidade desse contributo. O que ali se iniciou como movimento literário é hoje reconhecido como um dos momentos fundadores da modernidade cabo-verdiana.

O 23 de Abril não é apenas uma data comemorativa. É um ponto de convergência entre memória, educação e cultura. Um dia que lembra uma evidência simples e exigente: um país constrói-se quando ensina, quando lê e quando se pensa

Herança

O impacto da Claridade prolonga-se no tempo. A “caboverdianização temática” atravessa gerações e manifesta-se em diferentes linguagens – literatura, ensaio, música, investigação académica. A escrita mantém-se como instrumento de reflexão e responsabilidade pública.

O 23 de Abril ganha, assim, um alcance particular. A data articula ensino, produção literária e formação cultural, três pilares essenciais para o desenvolvimento do país. Num tempo de novos desafios educativos e de concorrência à leitura, esta convergência assume valor estratégico.

A escola continua a ser o primeiro espaço de cidadania. O livro mantém-se como instrumento insubstituível de aprofundamento. O autor organiza a experiência e transforma-a em sentido. Juntos, formam uma base.

Neste quadro, a aproximação de 2027, ano em que se assinalam os 120 anos do nascimento de Baltasar Lopes, coloca um desafio claro: ler mais, ensinar melhor e pensar com maior exigência. A efeméride deve traduzir-se em leitura efectiva, presença nas escolas e debate público informado.

Baltasar Lopes permanece como referência. A sua obra continua presente no sistema educativo, no espaço literário e na reflexão sobre a identidade cabo-verdiana. Permanece porque responde a uma necessidade: a de pensar o país com rigor, atenção e responsabilidade.

O 23 de Abril não é apenas uma data comemorativa. É um ponto de convergência entre memória, educação e cultura. Um dia que lembra uma evidência simples e exigente: um país constrói-se quando ensina, quando lê e quando se pensa – e afirma-se quando transforma a palavra em acto. Como um livro aberto numa sala de aula, é aí que o país começa todos os dias.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,23 abr 2026 7:57

Editado porClaudia Sofia Mota  em  23 abr 2026 9:54

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