Para um melhor conhecimento da Instituição, onde se ordenaram de “entre nativos e vindos de Portugal” dezenas de sacerdotes e se formou “uma verdadeira plêiade de funcionários e professores, tão beneméritos à sociedade e à cultura de Cabo Verde”,¹ convido os estimados leitores a uma visita à Instituição guiada por um aluno do Seminário, o Poeta José Lopes.
Meu velho e venerando Seminário,
Benemérito e augusto monumento,
Berço da minha fé e sentimento,
Da minha gratidão e relicário!²
O Seminário situado “num dos melhores lugares da vila da Ribeira Brava em S. Nicolau, e bem ventilado e banhado pela luz com uma bonita cerca, reunia boas condições higiénicas para casa de educação e ensino”. A missão da veneranda instituição era “formar bons eclesiásticos e proporcionar aos alunos que se destinavam à vida civil, a par de uma sólida instrução nas ciências e nas letras, uma apurada educação moral e religiosa”. O Seminário compreendia “o curso de estudos preparatórios (instrução primária e secundária) comum para os alunos que se destinavam à vida civil e eclesiástica” e “o curso superior para o estado eclesiástico”.
Os alunos que se destinavam à vida civil na qualidade de pensionistas pagavam uma prestação de dez mil réis mensais; os que seguiam a via eclesiástica podiam ser porcionistas (uma prestação mensal de nove mil réis) ou gratuitos (comida, roupa lavada e medicamentos à conta do seminário).³
Do grande Doutor Júlio José Dias
O prédio antigo fora propriedade,
Pacto que dá maior celebridade
À casa, não as minhas Elegias.
Com a chegada dos cónegos professores vindos de Lisboa e dos que exerceram o professorado no Liceu Nacional da Praia, “estabeleceu-se então de facto o Seminário na bela casa do ex.mo doutor Júlio José Dias, sita na Ribeira Brava e já arrendada pelo Governo, antes da chegada do pessoal, por 500$000 réis mensais” ⁴. A casa continuou arrendada até se efetuar o contrato de compra em 1874 depois de vencidos todos os obstáculos (…), efetuou-se a compra pelo preço de 7:000$000 réis para o que contribuiu a Junta da Bula com 4:000$000 réis e o governo com 3:000$000 réis.⁵
Do edifício propriamente, a entrada
Era uma ampla porta. À esquerda havia
(Entrando-se) a sineta que tangia
Para cada função à hora marcada.
António Aurélio Gonçalves, que foi aluno do Seminário, recorda: “À uma da tarde, a sineta do Seminário tilintava para o jantar. As últimas aulas terminavam e no Salão (entenda-se a comprida sala de estudo) fechavam-se os livros e cadernos. Instantes depois, invadíamos de roldão o refeitório. Às vezes quem nos esperava era o “Homem”, ou se quiserem, o “Bouças” (como familiarmente designávamos Monsenhor António José de Oliveira Bouças). As impressões, os risos, as garotices calavam-se automaticamente. Fazia-se silêncio por fim. Então o «Bouças» com majestade própria de uma cerimónia litúrgica solene traçava uma grande cruz da testa ao peito, baixava a cabeça, inclinava-se levemente e murmurava o «Benedicte» (Notícias de Cabo Verde, 20 julho 1944).
O Título V das “Instruções e Disposições Regulamentares do Seminário-Liceu” (1892) era dedicado à Ordem. Elencava os deveres e obrigações escolares e sociais dos alunos nas instalações escolares, nos recreios, passeios e visitas. Os colegiais não podiam ter contactos com os alunos externos sem prévia licença. As leituras eram previamente autorizadas. Assim se procurava manter a disciplina e a ordem entre os alunos.
Condiscípulos, esses, foram tantos!
Cinco anos lá passei, se quisesse
Citá-los todos talvez não pudesse
Éramos muitos, não sei quantos!....
Na douta opinião do Professor Baltazar Soares Neves, “a grande maioria dos estudantes era originária de famílias de pequenos e médios proprietários agrícolas, e pequenos e médios comerciantes e empregados administrativos nativos, ao serviço da administração colonial”. No ano letivo 1909/1910, o Seminário era frequentado por 28 estudantes (via eclesiástica) e 54 (via geral). ⁶
Monsenhor Bouças é, - nobre coragem,
Sublime Derradeiro Abencerragem
Na luta em defensão do Seminário.
Com o advento da República em Portugal em 5 de outubro de 1910 e a perda da influência da Igreja Católica foi traçado o destino do Seminário, que culminou com a sua extinção e a criação de um liceu, que viria a ser instalado na ilha de S. Vicente, conforme a Lei n.º 701 de 13 de junho de 1917. O Vice-Reitor António José de Oliveira Bouças nunca abandonou o edifício e conseguiu prolongar o seu encerramento com o argumento que nele estavam internados alunos de outras ilhas e mesmo vindos da Guiné.A Escola de Ensino Primário Superior manteve-se no edifício sob a direção do Cónego Bouças até 20 de setembro de 1922. O Liceu laico foi inaugurado na cidade do Mindelo no dia 19 de novembro de 1917.
Hoje, do nosso antigo Seminário
Só resta em seu conjunto o edifício,
Que se ergue como o altar do sacrifício,
Mas de Mória passando a ser Calvário…
…………………………………………………………….
Passando o Mar Vermelho… a pé enxuto,
Deram-lhe o novo nome de «instituto»,
Legando os outros aos séculos futuros…
Em finais de 1918, um novo Plano Orgânico da Instrução Pública determinou o regresso do ensino secundário ao edifício do Seminário na ilha de S. Nicolau com o nome de Instituto de Instrução Secundária, tendo-se determinado a extinção do recém-inaugurado Liceu no Mindelo, o que não se efetivou.
Entretanto, o edifício abandonado foi-se deteriorando. O jornal O Manduco de 1 de setembro de 1923 denuncia: “Abandoná-los aos ratos e à consumação do tempo é uma coisa que nos repugna escrever; mas utilizá-los para a instalação do Liceu Nacional é um ato benemerente de governo; é uma prova de bom senso, de claro espírito de economia e nobre amor à Instrução”. Dois anos depois, o ensino secundário retorna à Casa do Seminário, com o nome de Instituto Cabo-verdiano de Instrução, também dirigido pelo Cónego Bouças, conforme Portaria de 6 de novembro de 1925.
Surpreendentemente, por Portaria de 9 de junho de 1931, foi determinado o encerramento das aulas do Instituto, sendo o edifício transformado em prisão para os presos políticos enviados da metrópole para as colónias.
João Nobre de Oliveira descreve de forma lapidar essa deplorável decisão: “Em 1931 o edifício foi adaptado (transformado em prisão) para receber uma leva de militares e civis portugueses que se tinham revoltado contra Salazar. Foi então oficialmente designado «Campo de Concentração dos Deportados Políticos». Triste fim para um edifício que fora antes Templo do Saber!”.⁷
¹FredericoCerrone, 1983, História da Igreja de Cabo Verde, Ed, S. Vicente, pp. 38-39.
² Fonte dos versos de José Lopes: “Jardim das Hespérides”, Sequência 1882-1887 - III Parte de José Lopes - Antologia Poética, Org. M. Fátima Fernandes e outros. Ed. LPC, pp. 326-341.
³ Fonte: Instruções e disposições regulamentares do seminário lyceu de Cabo Verde na ilha de S. Nicolau, de 14 de setembro de 1982.
⁴Almanaque Luso-Africano para 1899, ed. 2011, pp. 196/197.
⁵ Francisco Ferreira da Silva, 1899, Apontamentos para a história da administração da Diocese e da organização do Seminário Lyceu, Lisboa, p.161.
⁶Baltasar Soares Neves, O Seminário-Liceu de S. Nicolau, 2017 (2ª ed.), Fundação João Lopes, pp. 151,156-157.
⁷A imprensa cabo-verdiana – 1820-1975 (1998). Ed. Macau, p. 82.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.
homepage










