Mar Azul Abri’m Camim

PorEuridice Monteiro,2 nov 2026 8:08

Cesária Évora, a diva, nasceu neste pequeno país, retratado em Petit Pays, o país de morabeza e Sodade, que marcou a sua trajectória de vida e a sua carreia musical. Foi apontada como a maior intérprete de Petit Pays e Sodade, duas das mais belas e representativas músicas das ilhas de Cabo Verde, que graças à sua voz consagraram este país na cena musical mundial.

Cantou na língua materna e era pouco expressiva em línguas estrangeiras, mas foi por causa do seu cantar e da forma singular como transmitia os seus sentimentos através da música que Cesária conquistou primeiramente a França e depois o mundo inteiro. Ela soube se distinguir através da sua voz e, com isso, dar voz a Cabo Verde.

Para ela, Cise, todas as homenagens. É a única mulher no país a quem deram o nome a um aeroporto. Consagrada em notas, monumentos e sítios, selos e cartões postais, gravuras e museus, prémios e distinções, condecorações e honras de Estado. E cujo nome, durante décadas, se confundia com um país.

Em Cabo Verde e a Música: Dicionário de Personagens, Gláucia Nogueira garante que, sendo a primeira pessoa de origem cabo-verdiana a tornar-se celebridade mundial, «Cesária Évora põe Cabo Verde no mapa, na virada do século XXI».

As gravações mais antigas que constam na sua discografia remontam à extinta Rádio Barlavento, uma compilação editada em 2008, com o título Rádio Mindelo, para a satisfação do público. Revelam uma artista singular no panorama musical destas ilhas atlânticas. Em jeito de síntese do perfil artístico e do sucesso de Cesária Évora nos palcos do mundo, Gláucia Nogueira enaltece que: «Numa época em que os fenómenos mediáticos da indústria discográfica quase dependem mais da imagem do que da música, a cantora mindelense, longe de encarnar os padrões estéticos vigentes, responde entrevistas com monossílabos, aparece em palco quase monolítica, alheia a noções de expressão corporal e sem grande empenho em comunicar com o público. Mas o facto é que convence. Pela sua voz, bela, sem dúvida, mas também por um carisma difícil de definir ou situar, talvez pela espontaneidade do seu canto meio distraído, sem ênfases ou grandes voos.»

Sabe-se, segundo ouvir dizer, que ela tinha sangue de artistas, pois o seu pai tocava instrumentos de corda (cavaquinho, violão e violino) e, curiosamente, era primo do compositor B.Léza, que ela chegou a conhecer quando era ainda criança. E o seu irmão Lela era saxofonista, com quem ela fazia a dupla de animadores juvenis nas ruas do Mindelo.

Teve percalços na vida devido a tragédias no seio da sua família. Aos 7 anos morria-lhe o pai, tendo sido levada pela mãe para um orfanato, onde passou uma breve temporada ao cuidado das irmãs de caridade. Por decisão pessoal, ela teria saído do orfanato. Passou os anos subsequentes aos cuidados da avó. Consta que muito cedo teria entrado na vida adulta e teria começado a cantar aos 17 anos. Nos anos sessenta, ela já se destacava como intérprete das coladeiras, tendo como compositores Ti Goy (Gregório Gonçalves) e Frank Cavaquim (José Vicente Gomes). B.Leza tinha falecido (1958), mas deixou boas lembranças e continuava a ser recordado e aclamado.

Tratando-se de uma época em que vigorava uma divisão social muito nítida, a espécie de «apartheid social em vigor proibia os pés-descalços, como ela, de subir ao pavimento da principal praça do Mindelo, reservada ao passeio das famílias abastadas» (Gláucia Nogueira). Ainda assim, a sua voz fazia-se ouvir em sítios reservados como o Grémio Recreativo, frequentado pela alta sociedade mindelense, local onde quiseram lhe obrigar a cantar com um par de sapato novo nos pés, mas, a seu jeito, ela tratou de escondê-los ao lado de uma árvore quando foi a sua vez de subir ao palco e, deste modo, cantou descalça, o que foi uma marca digna de registo e respeito, desde o início da sua carreira: «Eu entrei e atravessei o corredor de entrada do Grémio calçada. [...] na hora da saída, no final do espetáculo, eu não calcei o sapato e saí do Grémio descalça e levei os sapatos numa bolsa». À voz baixa, conta-se que foi esse tempo que lhe cunhou a alcunha pelo qual é conhecida: a diva dos pés descalços. Nesses tempos áureos, chegou a gravar o seu primeiro disco, em várias sessões de gravação, entre 1962 e 1964. De entre as gravações dessa fase da sua vida, sabe-se que algumas composições foram incluídas em edições coletivas, por intermédio dos músicos cabo-verdianos que se residiam na diáspora, particularmente na Holanda. «De meados dos anos 60 a meados dos anos 80, Cesária Évora esteve longe da popularização que os circuitos da edição discográfica alcançam», tendo passado doze anos sem cantar ao público, por desilusão sobretudo com o meio social e cultural que pouca atenção e reconhecimento prestava aos artistas, e enfrentado grandes problemas de alcoolismo.

Em meados dos anos oitenta, com a elevação paulatina da morna e da coladeira, a voz de Cesária voltou à ribalta, inicialmente através dos festivais femininos da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV), por ocasião do décimo aniversário da independência nacional, que incentivaria um grupo de quatro mulheres cantoras a gravarem um LP, Mar Azul Abri’m Camim: Cantá Mudjer’s. Encontraria apoio do seu amigo e músico Bana, residente em Lisboa, que a convidou para gravar um disco em 1987. É então, em Lisboa, que apareceu o empresário Djô da Silva na sua vida artística quando esta cantava, durante um almoço, num restaurante sob a gerência do Bana. Dali em diante tudo mudaria. Digressões pela vasta diáspora cabo-verdiana e contactos com o mundo inteiro, tendo contado com a imprescindível colaboração do público francês. Aí se construiu uma imagem realística da Cesária (ou simplesmente Cise).

Nos anos noventa, já com o movimento do World Music, Cesária apanhou finalmente o comboio do sucesso e desenvolveu uma «carreira fulgurante, conseguindo alcançar a mundialização, que até hoje nenhum outro artista cabo-verdiano conseguiu... uma vingança do destino e uma vitória da música de Cabo Verde!» Gravou mais de duas centenas de discos, com inúmeras colaborações nacionais e internacionais, próprias do estrelato que ela alcançou.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1300 de 28 de Outubro de 2026.

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Autoria:Euridice Monteiro,2 nov 2026 8:08

Editado porAndre Amaral  em  2 nov 2026 8:08

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