Germano Almeida: “Não considero que isto tenha feito reconhecer mais o valor daquilo que escrevo”

PorChissana Magalhães,26 mai 2018 6:59

Nove anos depois de Arménio Vieira, e 30 anos depois da instituição do Prémio Camões, Germano Almeida é laureado com aquele que é tido como o mais importante prémio da literatura em Língua Portuguesa. No dia seguinte à boa nova (ontem), conversamos com o escritor que, igual a si próprio, brinda-nos com o seu humor, faz revelações, esquece-se do nome dos seus livros e do que já escreveu neles, opina desassombradamente sobre a actualidade política e conta histórias. Ou estórias. Com personagens, diálogos e tudo.

Este prémio chega na hora certa?

De ontem para hoje, não senti ainda nenhuma alteração em mim. Um prémio é uma coisa muito relativa. É evidente que fico contente. Ninguém pode ignorar a importância de um prémio, qualquer que ele seja. Agora, temos que relativizar. Há centenas, para não dizer milhares de pessoas como eu que poderiam ter direito a este prémio, e não tiveram por razoes diversas. Ou não são conhecidas, não estavam na hora certa, no local certo… De maneira que, não ignorando a sua importância, relativizo. Não considero que isto tenha feito reconhecer mais o valor daquilo que escrevo.

Acredita que tenha funcionado um lobbypara que fosse o Germano Almeida a ganhar?

Eu não fiz lobby. Mas também não conheço ninguém capaz de fazer lobby por mim.

É um prémio “suculento”. Que uso vai dar aos 100 mil euros?

(Risos). A única coisa que se pode fazer com dinheiro é gastá-lo.

Em alguma coisa em particular?

Não, não tenho ideia. Uma coisa que tenho a certeza é de que nenhum prémio, seja esse ou outro, o Nobel… Não me importava de ganhar o Nobel mas, para mim, tem a mesma importância que o Euromilhões [n.r. jogo de lotaria]. Eu jogo sempre ao Euromilhões e tinha mais esperança de ganhar esse do que o Camões ou o Nobel. Jogo todas as semanas e estou sempre convencido de que vou ganhar. E para esse dinheiro eu tenho destino. Posso fazer muita coisa, posso fazer muita gente feliz.

O júri destacou a ironia dos seus textos. Isto é um pouco da sua personalidade, não é?

Exactamente. Tem a ver com a minha personalidade mas, também do povo cabo-verdiano que é extremamente bem-humorado, que gosta de rir-se, sobretudo de si próprio. E o cabo-verdiano tem também uma cultura de resistência. Não nos deixamos abater pelo clima. Neste momento já estamos a nos preparar para esperar as chuvas que não vieram no ano passado. Se não vierem este ano vamos continuar a esperá-las, porque a esperança não morre. Mas o cabo-verdiano também faz troça da semente que pôs na terra e que se estragou. Eu tento traduzir, o melhor que sei, o espírito do homem cabo-verdiano e esse humor que encontramos no dia-a-dia.

A sua escrita não é rebuscada, não faz muitas concessões a recursos estilísticos muito elaborados e nem se preocupa muito com referências aos cânones, ou mostrar conhecimentos de uma certa cultura europeia e Ocidental. Este prémio prova que ainda há espaço e reconhecimento para estórias simples, mas bem contadas?

Sim, eu não tenho essa preocupação. O meu ideário de contar estórias é regressar sempre a Boa Vista. Quando eu era miúdo ouvíamos estórias à porta de casa e, nessa época, não havia o rebuscado. As pessoas contavam estórias naturalmente. E lembro-me que contavam em Crioulo e depois havia partes mais entusiasmantes em que passavam para o Português. Metiam duas ou três frases em Português e depois regressavam ao Crioulo.

E o Germano nos seus livros faz o contrário. Escreve em Português e, volta e meia, aparece uma frase ou expressão em Língua Cabo-verdiana.

Eu não sei escrever em Crioulo. Eu pretendo traduzir a cultura cabo-verdiana de alguma maneira e escrevo em Português mas, há coisas que não se consegue traduzir do Crioulo para o Português. Saem naturalmente, não é nada burocrático.

A Língua Portuguesa, em Cabo Verde, está de facto em perigo?

Não, não acredito que esteja em perigo. Acredito que esteja maltratada. Bem, tem estado maltratada. Daquilo que sei, finalmente despertamos para a necessidade de termos um ensino consciente da Língua Portuguesa e já se começou, desde o ano passado, a fazer um ensino mais criterioso da Língua Portuguesa. É um instrumento importantíssimo para nós contactarmos o mundo exterior, para o conhecimento do mundo. Não há nada em Crioulo capaz de nos levar a isso. Precisamos do Português.

Mas pensa que chega a haver resistência de alguns sectores em aceitar o Português também como língua de Cabo Verde e não uma espécie de empréstimo?

Acho que sim, há uma resistência. E por outro lado os nossos diversos governos não têm tido um empenhamento no sentido de levar as pessoas a assumi-la. Não aparece ninguém do governo a dizer: “Alto aí, que a Língua Portuguesa é importante para nós”. É preciso dizer abertamente “Nós precisamos da Língua Portuguesa”. É preciso cultivar a Língua Portuguesa e aprendê-la bem.

Esperava ter sido o primeiro “Camões” da literatura Cabo-verdiana, ao invés do Arménio Vieira?

(Risos) Não, não esperava. Chegaram a telefonar-me a dizer que eu tinha ganho o prémio…

Ah, sim? E quanto tempo esteve enganado?

Não muito tempo. Um jornalista telefonou-me a dizer isso. Eu sabia que estavam a unir esforços, que estavam a fazer campanha por mim mas, quando o jornalista telefonou eu disse: “Bom, eu prefiro esperar ser notificado disso antes de tomar qualquer posição”. Depois o Corsino [Fortes] telefonou: “Sabes, acabamos por dar isso ao Arménio…”.

No anúncio do prémio, creio ter sido o ministro da Cultura de Portugal a fazer uma associação entre a sua escrita e a de Eça de Queirós, que tem essa característica de ser um grande contador de histórias, com os seus estudos de personagens… Faz sentido essa associação? É uma das suas referências?

Eu não digo que assumo como referência. Se me perguntasse: “aponte três escritores pelos quais seja apaixonado”. Eu diria Eça de Queirós, [Gabriel] Garcia Marquez e Jorge Amado. Dizer que a minha escrita lembra algum deles… Sinto-me honrado.

Há mais escritores cabo-verdianos que poderiam/podem ser Prémio Camões. Concorda?

Claro! Mas temos que investir. Estou a pensar, por exemplo, em dois que já faleceram: o João Vário e o Corsino Fortes. O Corsino teve mais visibilidade. O Vário teve uma vida, de certo modo, escolhida por ele. Fez as suas próprias edições de livros… Sendo os dois poetas muito diferentes, são ambos grandes poetas de Cabo Verde e que mereciam ter tido maior visibilidade do que tiveram (mesmo o Corsino). Sabemos que a poesia é pouco lida, tem menos expressão mas, a verdade é que estes dois indivíduos deviam ser acarinhados. O João Vário faleceu em2007 e até agora não se fez nada a favor da obra dele. É um grande poeta. Ele e o Corsino são, para mim, os grandes poetas cabo-verdianos no sentido de enaltecer Cabo Verde. O Arménio é diferente. É um grande poeta mas, mais introspectivo.

E o Germano Almeida, sente-se pouco aproveitado pelo Estado de Cabo Verde?

Não quero ser excessivamente modesto. Eu tenho insistido sempre em como o Estado de Cabo Verde devia ter aproveitado mais a Cesária Évora. A Cesária levou o nome de Cabo Verde a todo o mundo. Cabo Verde devia ter acompanhado Cesária pelo mundo e aproveitado para divulgar o país. A nível dos escritores… Vou dar um exemplo: há uma série de livros meus traduzidos para diversas línguas estrangeiras. Nenhuma dessas traduções foi feita com apoio do Estado de Cabo Verde. Mas também, como eu nunca pedi nenhum apoio para tradução dos meus livros… Eu até ignorava que eram instituições portuguesas a subsidiar estas traduções. Um dia, abri um livro e estava lá “subsidiado por …” E fui ver os outros, e todos eram subsidiados pelo Estado Português. O Estado de Cabo Verde… Não sei se é porque nunca ninguém pediu ou se é desinteresse. Eu penso que se Cabo Verde quer internacionalizar a nossa literatura esse é o papel que deve ter. Eu lembro-me que há alguns anos estive no Brasil e entrava nas livrarias e não via livros de escritores portugueses. Três anos depois, as livrarias brasileiras estavam inundadas de livros de autores portugueses. Comentei isto com um senhor que era director da Biblioteca: “Então, de repente, o Brasil descobriu Portugal?” E ele disse-me: “Não. Está a sair-nos do bolso. Nós é que financiamos essas traduções e publicações”.

Ou seja, tem que haver um investimento.

Tem que haver investimento! Portugal investiu imenso (agora é capaz de já não ser necessário) para que a literatura portuguesa fosse conhecida no Brasil. Estas coisas não se sabem, porque não são publicitadas, mas Portugal investiu imenso para que Saramago ganhasse o Nobel. Estas coisas não se ganham à toa. Portanto, quando você fala no meu eventual lobby (risos) … eu não posso estranhar. Só que eu digo que não tenho (risos).

Estão em voga os festivais literários. Acredita que são a solução para a internacionalização dos autores e do livro cabo-verdiano?

Só isto não. Só os festivais, não chega. Eu penso que os festivais são importantes, sobretudo para os escritores se conhecerem uns aos outros, estarem juntos. Estes festivais têm um problema, duram pouco tempo. Devia haver mais tempo de lazer, de convívio, porque é assim que se apreende uns com os outros; não é estarmos sentados a ouvir alguém a debitar coisas. Isto por um lado. Por outro lado, é preciso mais. Por exemplo, houve o festival Morabeza o ano passado, na Praia. Este ano vai haver outro. Mas, nesse intervalo de tempo, o que aconteceu? Que eu saiba, nada. É preciso haver movimentação. Esse festival é importante mas, na sequência desse festival o que aconteceu mais? Que ganhos houve? Isso é que é importante fazer. Devia ter havido, por exemplo, um concurso literário para jovens dos 15 aos 30 anos, para incentivar as pessoas a trabalhar. Porque escrever custa. Escrever é prazer mas também custa. A gente deixa de fazer muitas coisas para ter tempo para escrever. Mas se se pensa que não haverá nenhuma compensação… não vale a pena.

Está então a dizer que a emergência de novos talentos precisa ser estimulada e acarinhada.

Sim, sim. É preciso haver prémios para que os mais jovens concorram e precisa haver formas de serem publicados. Estou a dar um exemplo de algo que gostaria de ter tido e não tive.

O seu novo livro, é o seu 17º…

Sim, li isso agora. Sinceramente, nunca os contei.

Depois de “Regresso ao Paraíso”, regressa a Mindelo. Afinal ainda há histórias de Mindelo e de suas gentes para contar?

Há sempre muitas histórias para contar. A gente cria a partir da realidade em que vivemos. As pessoas inspiram-nos estórias e, às vezes, inspiram estórias de modo contrário. Isto é, alguém inspira uma história que é ao contrário da dessa pessoa. O personagem que me inspirou “O Mar da Laginha” não tem nada a ver com o personagem que está lá. No entanto, eu sei que “fulano de tal” é que me inspirou esse livro.

Já houve casos de pessoas que se reconheceram?

Sim. Já houve e já houve quem reconhecesse outro mas não a sí próprio.

Mas ninguém se zangou.

Que eu saiba, não. Porque as pessoas também gostam. Quando nos contam coisas é sempre na secreta esperança de se verem retratados. Claro que ninguém quer ser um mau personagem. O João Branco uma vez pediu-me para lhe meter num livro…

A sério?!

Sim. E eu meti. Mas, de facto, não funciona. As pessoas vivas não funcionam bem como personagens. Comecei, e estive bastante tempo a tentar escrever um livro que se passava no “Correntes d’Escritas”, na Póvoa de Varzim, que eu frequentei não sei quantas vezes. Era uma história engraçada, passada no meio dos escritores, em que chegava lá um escritor com uns livros que desapareciam e todos os escritores eram suspeitos de os ter roubado. E seria um dos escritores, que até é meu amigo, a funcionar como detective, a tentar descobrir o ladrão. Ele é quase um anão (tem 1,10 m) e eu com 1,95 seria o seu ajudante. Comecei a escrever e cheguei a umas páginas mas, quando alguém entra na realidade concreta de transformar pessoas vivas em personagens, engata. Então, há anos que comecei essa história mas nunca consegui avançar.

Alguns leitores tendem a associar o autor aos seus protagonistas. No seu caso, estes protagonistas caracterizam-se por uma certa carga erótica. Cria-se um certo imaginário, não?

É normal. É impossível escrever sem nós estarmos nos personagens. Eu parto do princípio que o autor está em todos os personagens que ele cria. Numas mais, noutras menos. Mas não se pode dissociar completamente. Eu lembro-me que quando escrevi “O Meu Poeta”, toda gente dizia que o Poeta era o Corsino Fortes. E eu dizia: “ Bom, eu tenho muita consideração pelo Corsino para transformá-lo num personagem tonto como o d’O Meu Poeta”. Aliás, uma vez encontrei-me com ele e ele disse-me: “As pessoas estão a dizer que eu sou o Poeta mas tu e eu sabemos que eu não sou”. E respondi-lhe: “Exactamente. Sabemos que não és”. A pessoa que inspirou “O Meu Poeta” – inspirou, porque vou além – foi um indivíduo obscuro na sociedade, e por isso ninguém nunca chegou a ele.

Já que estamos a falar de personagens, falemos um pouco das suas mulheres.

Sim??? (Enfaticamente)

Tenho a sensação de que elas, de certa forma, se reduzem a uma dimensão. São musas, numa acepção sensual do termo… O que pergunto é: há um certo sexismo na forma como as mulheres estão retratadas nas suas histórias?

Penso que depende sempre da interpretação do leitor. Eu, como leitor, não diria isso. Mas se tem essa impressão é porque ela é verdadeira para sí. É uma coisa que não vale a pena discutir. É um facto que nós vivemos numa sociedade machista portanto, se não houvesse um certo machismo nos livros nós estaríamos a escrever falsidades.

[Neste ponto a conversa é interrompida. O escritor pede licença para receber uma amiga que o foi felicitar pelo prémio. Ao fundo, ainda consigo ouvir comentários sobre o Sporting. Finalmente, Germano Almeida volta ao telefonema e eu prometo não lhe roubar muito mais tempo. Mas, eis que ele muda a direcção da entrevista e faz uma pergunta].

Vamos voltar àquela questão de antes. Aqui a minha amiga também está a dizer que houve lobby a meu favor. Afinal, o quê que sabe disto? (Risos)

(Risos) Nada! É que estas coisas costumam funcionar assim… Há vários lobbies e aquele que for mais forte vence. No seu caso, não será apenas gente de Cabo Verde. Tem aí um editor…

Ah, não. Ele ficou tão surpreendido com isto como eu. Telefonou-me ontem todo admirado: “Oh Germano, todos os anos eu penso que deveria ser a sua vez de receber o prémio. Finalmente, aconteceu desta vez”.

Em Cabo Verde tem-se criado prémios literários que pouco sobrevivem, são descontinuados, o que não lhes permite crescer em prestígio e até em valor pecuniário. O ano passado anunciou-se um grande Prémio Arnaldo França e nunca mais se ouviu falar… É (só) um problema de falta de recursos, de recursos mal alocados, ou tem havido alguma falta de vontade?

Como dizia Amílcar Cabral: “Nós pensamos que quando pensamos já fizemos”. Cria-se o Prémio Arnaldo França – aliás um intelectual cabo-verdiano importante e que merece ser honrado – cria-se o prémio, e depois não se faz mais nada. Há uma coisa que sempre insisto e que é importante: criar prémios literários sobretudo para estimular os jovens a escrever e a concorrer. Mas penso que não basta criar o prémio. Cria-se o prémio com algum valor para que a pessoa saiba que vale a pena perder até um ano a escrever um livro para concorrer e ganhar 1000 contos, dois mil, o que seja. E o júri não pode ser apanhado “à balda”, e trabalhar de graça em algumas horas que tenha vagas. Devem ser pagos para trabalharem como deve ser, e tomarem posição sobre cada obra. Tem que ser feito com seriedade. Os prémios estimulam.

Caberia aí alguma iniciativa às Câmaras Municipais?

A todas as instituições. Todas as instituições têm responsabilidade social e todas as que têm responsabilidade a nível da Cultura deviam fazer isto. Nós, os mais velhos, não precisamos de prémios. Mas os mais jovens precisam.

Está entre os poucos escritores/intelectuais cabo-verdianos da actualidade com um discurso e uma intervenção política (no sentido de reflexão e análise). Sente que podia haver mais posicionamento dos intelectuais cabo-verdianos ou há um certo receio de conotações partidárias?

Há. Eu penso que, vivendo numa sociedade, eu tenho o direito de intervir quando alguma coisa me desagrada ou me agrada. Claro que há esse problema, somos sempre conotados. Eu já fui conotado ao MpD (aliás, eu fui deputado do MpD nos anos noventa, quando estávamos a iniciar o pluripartidarismo e achei que era importante contribuir para isso) mas, a política de direita do MpD não me agradou e saí. Saí e fui imediatamente conotado ao PAICV. Agora não sei com quem estou conotado.

Há tempos reflectia numa entrevista sobre a relação Cabo Verde-CEDEAO e Cabo Verde-União Europeia. É tarde demais para nós, no que diz respeito à CEDEAO?

Nós não temos feito muito. Esta ambiguidade, esta mestiçagem, o termos uma cultura mais europeia do que africana, faz-nos pender mais para a Europa do que para África (excepção feita ao período em que o PAICV esteve no poder, logo depois de o partido vir do continente). A verdade é esta: Cabo Verde é África. Não há que nos enganarmos sobre isto. Mas também é preciso ver que há diversas áfricas. Nós somos uma cultura diferente dentre as várias culturas diferentes de África. Temos que arranjar maneira de nos valorizarmos com isso. Isto tem que ser uma conquista. Entramos em África com conquista, não é concessão. Não nos vão conceder nada. Entrar na Europa é concessão. Vão nos concedendo pequenas coisas.

E nós também temos feito concessões à Europa. E aquela concessão que muitos esperam [reciprocidade na questão dos vistos, por exemplo] esta parece que ainda tarda.

Sim, o problema é esse. Fazem concessões naquilo que não lhes dói. Esta ideia de isenção dos vistos aos europeus, eu penso que é uma ideia daninha. A receita proveniente dos vistos é importante. Não acredito que venhamos a ter mais turistas dispensando o pagamento dos vistos. Mas, mesmo que viéssemos a ter, é importante ter em conta a questão do orgulho nacional. Passamos por estas embaixadas e vemos a fila enorme de pessoas à espera de um visto de entrada na Europa... Abrirmos para que entrem dessa forma escandalosa, eu sou absolutamente contra. Quando recebemos certas “benesses” da União Europeia, pensamos “ah, já nos ofereceram isto”… Mas não é verdade. Há sempre contrapartidas. Não é de graça. Por exemplo, estamos a ceder-lhe os nossos mares para a pesca.

Voltando à literatura e ao seu novo livro, “O Fiel Defunto”. Vai ser apresentado estes dias, em Mindelo, Pode contar um pouco daquilo que o livro é?

É uma paródia. [Pausa] Eu esqueço-me dos meus livros depois de os escrever. Estou sempre muito entusiasmado enquanto os escrevo, depois esqueço-me deles como aqueles pais que depois de fazer os filhos os esquecem. Mas “O Fiel Defunto” conta uma história inventada. Quando digo que é o meu primeiro romance as pessoas protestam. Digo isso porque é uma história que não nasce a partir de uma história qualquer, concreta, mas a partir de uma invenção. Inventei um personagem que era um grande escritor, que publicava dois livros por ano mas, depois pára de escrever. Passados alguns anos vai publicar um livro. E no dia do lançamento um amigo dá-lhe dois tiros no peito e mata-o. A história desenrola-se a partir disto, com o Governo a tomar conta, com velório no palácio, missa na Rua de Lisboa… Depois, vai se conhecendo as pessoas que giram à volta do defunto.

É um policial?

A Ana Cordeiro [n.r. a sua editora em Cabo Verde] diz que é quase um policial.

Diz que é o seu primeiro romance… Acho que também tinha dito isto sobre “ A Morte do Ouvidor”.

Ah é? (Risos). Não…

Será que isso é um sinal de que ainda está à procura do “tal “ livro?

Ando sempre à procura do “tal” livro. E não estranho. Toda a vez que começo a escrever um livro, digo “é este”. Depois, quando começo outro: “Ah, este está bem. Este é que vai ser!”. Depois…fica igual aos outros.

Igual? Como assim? Mas de todos os que já escreveu não há algum que lhe tenha dado mais gozo?

Ah sim, isto há. Por exemplo, eu depois de publicar já não volto a ler os meus livros mas, eu já tinha escrito “Os Dois Irmãos” há algum tempo, já não me lembrava bem e agora fizeram o filme e eu pensei: “com tanta agente a perguntar-me pelo livro, deixa-me ir lá ver isso”. E fiquei muito admirado porque, li-o até ao fim e no meio de tudo o que escrevi, eu só lá encontrei uma única palavra que mudaria. Confesso que fiquei contente.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 860de 23 de Maio de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,26 mai 2018 6:59

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  26 mai 2018 14:59

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