Cancro, vamos falar de emoções

PorSara Almeida,4 nov 2018 9:47

​Para quem é diagnosticado com cancro, a vida torna-se uma montanha russa de medos, coragem, incertezas e motivação. É uma vivência intensa, quer física, quer psicológica, quer emocionalmente, que afecta não só a paciente como toda a gente ao seu redor. Ora é sabido e reconhecido o impacto que o estado psicológico da mulher tem na sua própria luta contra a doença, mas essa questão ainda tem relativamente pouca expressão institucional quando o assunto é cancro. Outubro Rosa versa sobre prevenção e controlo, mas há também que falar de emoções.

Não há maneira fácil de dizer a alguém que tem cancro. Há que ter sensibilidade na forma como se revela o desfavorável diagnóstico. Preparar, conversar antes da revelação. Só então, dar o diagnóstico.

E só quem já recebeu a má-nova saberá o impacto de uma notícia dessas. Não há reacções padrão. Diferem, “depende da constituição psicológica de cada pessoa”, conta a oncologista Hirondina Spencer. Há quem reaja “bem”, que assuma ‘tenho este problema, vou enfrentá-lo’ ou ‘vou tratar-me, lutar até ao fim…’ Mas há também quem chore, quem desabe pelo medo. O impacto emocional, seja como for é sempre tremendo. Maior ainda quando se trata de mulheres jovens.

Nas mulheres com filhos pequenos, é para eles que vai por norma o primeiro pensamento. “Criar os filhos”. E mesmo as que não têm crianças, investiram em si, estão a começar a organizar a sua vida, têm projectos que a doença vai interromper. Então o “impacto, psicológico, social, económico, é muito grande”, para elas, para a famílias e para a sociedade, observa a médica.

É preciso apoiar no choque. E depois, conversar ainda mais com os doentes, tentando o “fortalecimento psicológico, emocional, espiritual, para que façam todo o tratamento”. É um apoio que a oncologista Hirondina Spencer sempre tem em conta. Mas o apoio do médico, pela complexidade emocional da problemática, não é, não poderá ser, suficiente.

Apoio psicológico é “essencial”

Este mês, como é tradição, várias actividades foram desenvolvidas no âmbito do Outubro Rosa, uma campanha de cariz mundial que alerta para a consciencialização sobre o cancro da mama, promovendo essencialmente a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

Mas a par com estas acções, há pois que pensar também em quem está a atravessar o drama de ter cancro e tem o seu mundo virado do avesso. Neste sentido, o apoio psicológico/emocional em todas as etapas, da descoberta às diferentes fases do tratamento (que por si só já abala qualquer pessoa) é essencial. Vários estudos mostram aliás, a necessidade de um acompanhamento psicológico continuado, dentro e fora das estruturas de saúde, e desde as primeiras consultas.

O serviço de oncologia do Hospital Agostinho Neto tem uma psicóloga que presta esse cuidado três vezes por semana. São consultas de psicologia individuais, embora pontualmente se possa envolver a família. É uma resposta. Mas ficam a descoberto outros recursos de apoio emocional como as sessões de grupo, onde se promove a troca de experiências e que são entendidas como uma prática especialmente proveitosa. Desde logo, porque pela partilha, combate-se o isolamento e o próprio estigma associado ao cancro. E porque com a partilha, a ansiedade tende a diminuir.

Em vários pontos do mundo, esse tipo de apoio emocional é prestado em larga medida por ONGs e afins. A visita aos hospitais por parte de sobreviventes de cancro é outras acitividade comum dessas ONGS. Contudo, é um “cuidado” que ainda não está sistematizado em Cabo Verde, apesar de algumas iniciativas avulsas.

Um “ponto fraco”

Hirondina Spencer recorda que há voluntários da Associação Cabo-Verdiana de Luta Contra o Cancro (ACLCC), “um grupo de quatro ou cinco mulheres”, que costumavam ir ao serviço de oncologia “ apoiar as pacientes, ou os doentes em geral, que estão na quimioterapia.”

“Actualmente, não estão a fazer essa actividade, mas pensamos que é uma boa actividade. Quanto mais apoio, na parte psicológica, melhor para os doentes. Os doentes apreciam esses gestos. Há pessoas que já tiveram a doença, que falam da sua experiência, e isso ajuda muito” a encarar a doença e o tratamento.

Embora essas visitas, de acordo com a oncologista, tenham cessado neste momento, a presidente da ACLCC, Cornélia Pereira garante que esse apoio é uma “preocupação” da Associação.

Conforme explica, desde a criação da ACLCC, em 2007, que se tem apostado essencialmente na “prevenção, socialização e educação para” o cancro. A essa vertente, junta-se um conjunto de rasteios que a Associação tem vindo a realizar “em estreita ligação com as delegacias de saúde. E há um outro pilar, uma “preocupação desde a fundação da Associação com Henrique Vera-Cruz” e que é, precisamente, “a assistência aos doentes e aos familiares dos doentes oncológicos”. Contudo, essa vertente que ainda é “um ponto fraco”, reconhece Cornélia Pereira.

No sentido de dinamizar essa assistência está já contemplada, no âmbito do Novembro Azul, uma acção de formação para o grupo de amigos e voluntários da Associação, capacitando sobre como abordar os doentes oncológicos e as famílias. Essa formação vai ser dada por uma psicóloga clínica e também uma assistente social, adianta a presidente. Assim, no próximo ano, e até 2020, “que é o período do mandato desta direcção que tomou posse a 9 de Setembro de 2017” a assistência será incrementada, até porque se trata de uma área que “é extremamente essencial”, estando inclusive, plasmada no próprio plano estratégico recentemente apresentado.

Entretanto, Cornélia Pereira recorda outras actividades que foram realizadas no âmbito de levar doentes e a sociedade em geral a encarar o cancro sem tabu e com foco na importância da auto-estima. A responsável destaca a conversa aberta com Marine Antunes, autora do livro “Cancro com humor” a quem foi diagnosticado um cancro quando tinha 13 anos. O evento, que decorreu no passado mês de Março no cinema da Praia, foi ainda marcado pela participação e partilha de testemunhos de vários doentes e familiares. Também em São Vicente houve uma actividade com essa autora portuguesa, num encontro com jovens em Ribeira da Craquinha. Neste mês Rosa, relembra ainda, a Associação fez uma visita ao centro oncológico [do hospital da Praia], levando “uma palavra de conforto aos doentes”.

Estar “bem” faz a diferença

“A parte psicológica, num doente, é muito importante para aderir aos tratamentos. Uma pessoa que está psicologicamente bem tem mais motivação de fazer o tratamento até ao fim, para colaborar com as diferentes modalidades de tratamento. Ajuda até na questão imunológica e tudo mais”, aponta Hirondina Spencer.

Sendo, pois, pragmáticos, a estabilidade emocional não é apenas um mecanismo para evitar que o doente sofra (o que por si só seria válido). É algo que tem, reconhecidamente efeitos na própria saúde, e na probabilidade de sucesso do tratamento.

O stress, por exemplo, baixa como referiu a médica, as defesas naturais do organismo, predispondo a paciente a certas complicações. Há estudos que vão mais além e apontam-no como um factor que “facilita” o aparecimento de anomalias celulares como o cancro, embora outros estudos refutem esta posição. Atendo ao que já é consensual em medicina, a atitude da mulher no combate ao cancro da mama (e outros) é, pois, central, no tratamento. E essa atitude está em larga medida ancorada à estabilidade emocional e psicológica que consegue ter.

Assim, o acompanhamento psicológico e a criação de uma rede de suporte emocional para os doentes deveria, defendem vários estudos, fazer parte integrante do próprio processo de cura, a par dos outros tratamentos, com a quimioterapia. Isto, pelo impacto que têm na forma como a doença é combatida.

Metáteses emocionais

O peso da vivência de um cancro é imenso, demasiado grande para suportar sozinha. E, aqui, se a parte do apoio profissional ou voluntário, a nível psicológico e emocional é importante, o suporte familiar e amigos é indispensável.

De um modo geral, pela experiência diária da oncologista Hirondina Spencer, “os doentes, actualmente, têm um forte apoio das famílias”. Mães, pais e filhos, destacam-se nesta assistência. Mas também irmãos. E mesmo os maridos hoje já têm outra postura, mais de “cuidador”.

“Cabo Verde em geral está mais sensibilizado com essa problemática e tem mudado o apoio”. Esse apoio, que permite, acima de tudo, criar um ambiente favorável para que a paciente possa enfrentar a doença com maior segurança e determinação. Aliás, muitas mulheres apontam a família como fonte de força, motivação maior, para se engajarem no tratamento.

Mas falando da família é preciso relembrar que também eles se deparam com desafios. O cancro afecta muito mais do que a doente. Tem metáteses emocionais em toda a família, e ela própria, principalmente o círculo mais próximo, também tem medos, ansiedades e necessita de apoio. São várias as mudanças e adaptações por que passam, rotinas que se alteram, situações novas e incertezas. Na verdade, como se costuma dizer, o cancro não é doença de uma só pessoa, é da família inteira. Das famílias, e portanto, da sociedade.


Outubro Rosa

O mês de Outubro é dedicado, internacionalmente, à consciencialização sobre o cancro da mama. Em Cabo Verde, o Outubro Rosa foi marcado por várias actividades sendo que o ponto alto ocorreu no passado domingo, numa marcha simultânea em praticamente todos os municípios de Cabo Verde, e à qual responderam a nível nacional cerca de 2000 pessoas. A marcha foi organizada pela Associação Cabo-Verdiana de Luta Contra o Cancro em parceria com diversas instituições públicas e da sociedade civil e teve como lema “Cancro da Mama está nas tuas mãos. Olha-te ao Espelho” (slogan aliás para toda a campanha deste ano).

Pretendeu-se acima de tudo “passar a mensagem de que o auto-exame é importante, e que detectando um nódulo ou caroço a pessoa deve dirigir-se às estruturas de saúde”, o mais depressa possível, explica a presidente da Associação, Cornélia Pereira.

Como recorda esta responsável, as probabilidades de cura do cancro de mama, quando detectado a tempo, é de 90 a 95%.

É contudo de referir que a apalpação, o auto-exame, embora seja de suma importância não é um rasteio. Daí a necessidade de procurar de imediato uma estrutura de saúde, bem como de realizar o rasteio periódico aconselhável para todas as mulheres, em especial a partir dos 40 anos.

O cancro que mais mata não é o da mama

Apesar de todo o mesmo “merchadising” e destaque dado ao cancro da mama, que é o que afecta mais mulheres, este não é o que mais cabo-verdianas mata. Esse lugar cabe ao cancro do útero. Para se ter uma ideia, em 2015 (estatística mais recente que conseguimos encontrar), 29 mulheres morreram devido a cancro do colo uterino. O cancro de mama surge em terceiro lugar, como causa da morte de 13 mulheres, sendo precedido pelo cancro de estômago (16 mulheres).

O cancro mais mortal no feminino, não tem pois a mesma projecção pública que é dada ao cancro da mama (e que vai na linha da campanha internacional Outubro Rosa). Tanto Cornélia Pereira como a oncologista Hirondina Spencer refutam que este esteja esquecido, salientando que é sempre referido nas campanhas “rosa”.

Contudo, ambas reconhecem que é necessário falar mais, dar mais visibilidade à problemática do cancro do colo.

“É verdade que se destaca é o mês rosa, mas eu associo o mês rosa aos dois”, justifica Cornélia Pereira revelando ainda que a própria ACLCC já tentou, junto dos parceiros, encontrar um que apoie o cancro do colo uterino, que tem como cor simbólica o lilás. “É uma preocupação. Não vamos descurar o cancro uterino”. Aliás, “não há nenhum rasteio feito por nós - e fazemos à volta de mil e tal exames por ano - que não tenha o colo uterino”, diz.

“Falamos também do cancro do colo do útero,mas precisamos falar mais”, avalia também Hirondina Spencer, adiantando que a prioridade será a implementação do Programa Nacional de Rasteio do cancro do colo do útero, que já está na calha há vários anos.

Entretanto, sabe-se que pelo menos 70% dos casos de cancro do colo uterino podem ser totalmente evitados. É que ao contrário dos outros, para este há vacina.

A Vacina contra o vírus do papiloma humano - HPV é já parte dos planos nacionais de vacinação de vários países, e há muito que se fala na sua introdução no Plano cabo-verdiano. Tal também ainda não aconteceu.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 883 de 31 de Outubro de 2018.

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Autoria:Sara Almeida,4 nov 2018 9:47

Editado porAntónio Monteiro  em  6 nov 2018 8:32

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