Cuidados de saúde, água e ligação marítima são os principais problemas da Brava

PorAntónio Monteiro,29 jun 2019 9:46

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Estes são os três principais constrangimentos que têm impedido a Ilha Brava de dar o salto qualificativo rumo ao desenvolvimento. Os sinais são ainda ténues, mas as perspctivas são animadoras, como realça o edil bravense.

“Vê-se que agora há maior confiança dos imigrantes na Câmara Municipal da Brava e que há um engajamento maior de vários grupos de imigrantes ajudando a ilha em diversos sectores”. Entretanto, a grande aposta de Francisco Walter Tavares é a criação de uma espécie de taxa solidária, cuja ideia seria a abertura de uma conta bancária nos Estados Unidos onde cada bravense poderá contribuir com transferências periódicas e mensais num valor que teria como base o salário de uma hora de trabalho de cada imigrante. “Se entre cinco e dez mil bravenses aderirem a esta ideia, estaríamos a falar de uma arrecadação mensal de quase o valor do Fundo de Financiamento Municipal. Este valor seria para investimentos específicos em áreas sociais e em projectos estruturantes para a ilha”. Para lançar esta iniciativa Francisco Tavares estará de visita aos Estados Unidos no mês de Setembro nas três cidades com maior número de imigrantes bravenses. “Se aderirem, não tenho dúvidas que a Brava ganhará e muito com essa tal taxa solidária”, acredita.

Para começar. Como decorreram as festividades do município? Ocorreram muitos turistas?

As festividades vinham decorrendo desde o início do mês de Junho e só terminam esta quarta-feira com a realização do encontro com os imigrantes que vieram passar as festas. Houve afluência de muitos turistas, sobretudo dos nacionais da vizinha ilha do Fogo, mas também de Santiago, de São Vicente e obviamente dos imigrantes bravenses radicados nos Estados Unidos, mas também da Holanda, de Portugal e de outras paragens.

Se as festas decorressem durante todo o ano seguramente que a Brava teria outra dinâmica.

De certeza. Basta ver que nesta última semana a Cabo Verde Fast Ferry teve necessidade de reforçar as viagens de ligação Praia/Brava, mas também Brava/Fogo e agora para o regresso de todos os que nos visitaram houve dois dias em que o Fast Ferry vez duas viagens diárias Brava/Fogo/Praia para poder responder às demandas. Houve muito comércio nestes dias, os hotéis estavam lotados e não puderam responder a mais solicitações. Houve muita actividade cultural em vários espaços e mesmo nos restaurantes com as famosas tocatinas com mornas da Brava. Os negócios tiveram uma dinâmica pouco habitual na ilha e muito dinheiro circulou nesses dias.

O senhor afirmou no ano passado que a CMB irá dar maior atenção aos imigrantes bravenses nos EUA para que a ilha possa dar o salto qualificativo rumo ao desenvolvimento. Já há sinais desse salto?

Já há sinais, mas ainda muito ténues. A minha experiência diz-me que o salto efectivo e desejável terá que passar pela resolução de algumas questões essenciais. Mas os sinais são animadores: vê-se que agora há maior confiança dos imigrantes na Câmara Municipal da Brava e que há um engajamento maior de vários grupos de imigrantes ajudando a ilha em diversos sectores. Falo concretamente de grupos que se associaram para apoiar o Centro de Saúde da Brava com materiais diversos, outros na área da educação e outros demonstrando mais interesse em regressar à Brava para ver como estão as suas propriedades. Alguns inclusive já reabilitaram as suas habitações para terem uma segunda moradia aqui na ilha. Constata-se também um maior número de visitas e até de permanência após a reforma. Por enquanto são esses os sinais.

Falou que para atrair esses reformados é necessário resolver algumas questões. Quais?

São questões estruturais e já crónicas que vêm ao de cima sempre que falamos da Brava. Em primeiro lugar há que melhorar os serviços de prestação dos cuidados de saúde na Brava. As únicas melhorias que podemos avançar por enquanto é o início do funcionamento do aparelho de raio x e também de consultas de especialidade com médicos que se deslocam do Fogo. Certamente que é necessário fazer ainda mais nomeadamente mais investimentos em recursos humanos e equipamentos para que possamos transmitir aos nossos imigrantes, principalmente os reformados que estamos muito melhor em termos de cuidados de saúde e que podem confiar mais. A segunda questão tem a ver com a transmissão de confiança aos imigrantes da fiabilidade das ligações marítimas. As ligações melhoram, estão com uma frequência muito satisfatória, mas é preciso transmitir isso e demostrar que mesmo que falhe a ligação via Fast Ferry existe um plano B funcional para que quem nos visite tenha certeza absoluta de que pode entrar e sair da Brava conforme planeado e evitar os transtornos ou mesmo o risco de perder o emprego no país onde reside. A outra questão tem a ver com a produção e disponibilização da água que é um dos grandes problemas da ilha. A quantidade de água que temos neste momento satisfaz apenas 50 por cento das necessidades da população, embora o governo juntamente com a Água Brava e outras instituições já esteja a trabalhar num projecto de dessanilização que irá permitir a triplicação da quantidade de água disponível. Já deveríamos estar neste momento na fase de implementação do projecto, mas ainda está-se na procura de engenharia financeira para se dar início ao projecto.

Quando é deve arrancar definitivamente?

Já devia ter arrancado. Pela necessidade e também pela urgência. De acordo com a conversa que tive com o sr. ministro da Agricultura e de acordo com a priorização que o sr. Primeiro-ministro atribui a esta solução, estou optimista que ainda em 2019 irá arrancar.

O ano passado avançou com a ideia daquilo que chamou de taxa solidária da imigração como forma de engajar a comunidade bravense nos Estados Unidos. Em que consiste e já está a ser aplicada?

Ainda não. No ano passado visitei os Estados Unidos a convite de uma associação de bravenses para participar num encontro para angariação de fundos para apoiar o Centro de Saúde da Brava. Na altura falei muito por alto desta ideia, mas agora no mês de Setembro estarei de novo nos Estados Unidos onde irei ter três reuniões em três cidades com maior número de bravenses para lançar esta iniciativa. A ideia seria através da abertura de uma conta bancária nos Estados Unidos num dos bancos que têm acordos com instituições bancárias de Cabo Verde onde cada bravense poderia contribuir com transferências periódicas e mensais no valor que teria como base o salário de uma hora de trabalho de cada imigrante. Se entre cinco e dez mil bravenses aderirem a esta ideia, estaríamos a falar de uma arrecadação mensal de quase o valor do Fundo de Financiamento Municipal. Este valor seria para investimentos específicos em áreas sociais e em projectos estruturantes para a ilha. A prestação de contas seria feita online através de fotografias inseridas nas redes socais ou mesmo num site que se pode criar na Câmara Municipal. Funcionando esta ideia a Câmara teria garantido todo o financiamento necessário para o apoio às famílias, à saúde, reabilitação das habitações, financiamento do ensino pós-secundário para famílias com menos recursos. Havendo uma forte adesão a esta ideia, poderíamos inclusive adquirir um barco para fazer a ligação Brava/Fogo/Fogo/Brava. Seria um barco com capacidade de até 50 passageiros e com condições para transporte de doentes. Este barco funcionaria como táxi marítimo e faria todas as viagens possíveis e necessárias diariamente, trazendo então a tal segurança dos visitantes em relação à entrada e saída da Brava. Num primeiro momento a ligação seria deficitária, mas até criar mercado esse fundo poderia então cobrir o défice gerado pelas ligações. É esta ideia que vou lançar aos nossos imigrantes nos Estados Unidos. Se aderirem, não tenho dúvidas que a Ilha Brava ganhará e muito com essa tal taxa solidária.

Está falar em que montante?

Entre cinco mil a seis mil contos mensais.

Como avalia pessoalmente a sua gestão camarário desde que assumiu a liderança da CMB, primeiro interinamente, em Outubro de 2017, e depois definitivamente em Janeiro de 2018?

Outubro de 2017 foi muito interessante, porque foi o período em que se preparou o orçamento e o plano de actividades para o ano seguinte. Já a partir de 2018 trabalhei com um plano de actividades e orçamento elaborados comigo à frente da equipa camarária. De todas as formas, eu e o ex-presidente Orlando Balla estamos na Câmara Municipal desde o seu primeiro mandato. Temos uma relação muito estreita, tanto assim que as plataformas eleitorais, os planos de actividades e os orçamentos sempre foram elaborados por nós dois. Portanto, estou apenas dando seguimento ao plano pré-definido há muitos anos, mas agora com mais recursos que no tempo do presidente Balla. Temos agora mais dinheiro vindo dos diversos fundos do governo e houve também o descongelamento do Fundo de Financiamento Municipal. Então, tenho podido implementar a um ritmo maior aquilo que eu e o presidente Balla já tínhamos idealizado para o mandato. A satisfação que sinto nas diversas localidades e nas pessoas faz-me crer que o meu desempenho é francamente positivo e que, mesmo nas localidades onde a Câmara Municipal não chegou com obras públicas, ela está presente com a reabilitação de habitações e apoios socias diversos, sendo que também nestas localidades a população já ganhou esperança por estar a ver que as coisas estão acontecendo um pouco por toda a ilha.

Daqui a sensivelmente um ano teremos eleições autárquicas. Já tem uma decisão tomada?

Já pensei nisso, mas ainda não está definido se serei candidato à Câmara Municipal da Brava. É o presidente do partido e o partido já decidiu que irá apoiar todos os presidentes em exercício desde que uma sondagem avalie muito positivamente o autarca em funções. Da minha parte pessoal, já manifestei a minha disponibilidade em candidatar-me. Mas na política as coisas podem mudar de um momento para outro. Neste momento, a esta distância, eu diria que sim, eu gostaria de ser candidato para mais um mandato. Estou certo de que se as eleições fossem hoje, seria eleito com mais de 65 por cento dos votos.

O seu colega António Aleixo afirmou a este jornal que o presidente de Câmara é sempre um potencial candidato. Subscreve?

Subscrevo inteiramente, aliás, foi o que o partido decidiu e é o que tenho ouvido nas conversas com os meus colegas autarcas [do MpD], onde todos se pré-disponibilizaram a ser candidatos.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 917 de 26 de Junho de 2019. 

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Autoria:António Monteiro,29 jun 2019 9:46

Editado porAntónio Monteiro  em  1 jul 2019 7:16

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