“Silencia-se a fome, mesmo que esteja a acontecer”

PorNuno Andrade Ferreira,30 nov 2019 8:59

O professor da Universidade de Cabo Verde, João Almeida, está em fase de conclusão da sua tese de doutoramento. A investigação incide sobre o silêncio como estratégia de comunicação política. A fome está no centro do trabalho.

De que forma é estabelecida a relação entre fome e comunicação política? 

Tratou-se de um escopo para, a partir das décadas de 50 e 60, se anunciar a independência como solução para combater a forme, com os anos 40 muito presentes na memória. A fome acompanhou Cabo Verde no seu percurso, desde os descobrimentos até agora. Ciclicamente há fome em Cabo Verde. De sete em sete anos, há um intervalo de três anos sem chuvas, como o que está acontecer neste momento. A fome serviu como testemunho para se reivindicar a independência, a autodeterminação, mas a fome não acabou, como se prova pelos relatórios que se sucedem. O que eu quis demonstrar na minha pesquisa é que, sendo a fome anunciada como testemunho, é anunciada como testemunho do passado. No presente não se anuncia, silencia-se a fome, mesmo que esteja a acontecer, por uma estratégia politica. Vende-se Cabo Verde como um caso de sucesso em África, logo, um caso de sucesso não pode pautar-se por aquilo que se conhece em África, que é a fome. Então, Cabo Verde não pode ser um país que se apresente ao mundo como lugar onde também há fome. 

Como é que se consegue esta dicotomia entre discurso e prática? 

Na verdade, é a questão da lembrança traumatizante. Ninguém quer lembrar aquilo que causa trauma. Esta não é apenas uma questão política. É uma dimensão colectiva, social e pessoal. Se conversarmos, como tenho feito, com as pessoas que passaram por programas de apoio alimentar, elas não anunciam a fome como uma questão pessoal. Falam da fome de 40, de 60, mas nunca falam da fome de 85, à qual sobreviveram graças a um programa internacional. É uma questão de memória traumatizante, que causa dor corporal, além da dor social e colectiva, além da dor política. Em Santo Antão, uma pessoa com 80 anos não usa a palavra fome no dia-a-dia, para designar a escassez alimentar por um curto período de tempo. Inventam-se palavras como “frequeza” ou “deblided”, para não se anunciar a palavra que, para a pessoa, é traumatizante. 

Esta memória, este traço cultural e até identitário é particularmente visível na ilha de Santo Antão? 

Sim, claramente. Estive a fazer a etnografia no interior do Porto Novo e nota-se claramente que as pessoas silenciam, contam uma história muito engraçada do encalhe do John, contam-te histórias aberrantes da década, mas não querem falar de 80. Aquilo “apagou-se” da memória. 

Contudo, o espectro da fome continua muito presente, até porque o país, mesmo em anos de chuva, não garante a sua soberania alimentar. De alguma forma, esta é uma ‘arma’ política? 

Nem sequer se coloca como ‘arma’ política, porque nós vendemo-nos como um caso de sucesso para o mundo. Tive o cuidado de ouvir discursos de deputados da oposição, no parlamento. Falam da questão da seca, que as pessoas estão muito mal no interior, mas não mencionam a palavra fome. A fome está sempre presente enquanto algo que nos rodeia. Entre 1740 e 1743, morreu metade da população cabo-verdiana. Há relatos históricos de canibalismo. Em Santiago, uma senhora chamada Madalena foi presa por conservar corpos humanos, salgados, para sustentar a família. É um relato histórico, há documentos. Ler o livro As Fomes, do historiador Sena Barcelos, é um soco no estômago para essa ideia de que a fome existiu em Cabo Verde enquanto obra do colonialismo e que não voltou a existir de 1975 para cá. Isso é a grande inverdade que queremos difundir para não se pensar em estratégias de combate à fome que nos circundou ao longo da história e que continua a circundar, como nos dão conta esses três anos de seca. Dez a vinte por cento da população cabo-verdiana vive num mundinho à parte. 

A fome está presente no mundo rural, mas nas periferias urbanas também se encontra o seu espectro, na luta pela sobrevivência.

Exactamente. Lembro-me de ter escrito há alguns anos sobre a questão da fome nas periferias, a partir de um episódio que presenciei, de uma senhora que naquele dia se mostrava satisfeita por ter meio quilo de arroz e duas cavalas para dar de comer aos filhos. Há milhares de pessoas que estão na periferia das cidades e que sobrevivem do muito pouco. Se comerem hoje de manhã, não comem à noite. Se comerem à noite, no outro dia não têm o que comer. É uma luta diária pela sobrevivência. Isso acontecia na década de 50, continuou a acontecer na década de 70 e estamos a viver isso agora. Ciclicamente, a fome teima em nos lembrar que existe e que a memória não deve ser esquecida.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 939 de 27 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,30 nov 2019 8:59

Editado porDulcina Mendes  em  16 dez 2019 5:19

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