Porto Inglês: Centro Interpretativo das Salinas do Maio é oportunidade para desenvolvimento turístico

PorAndre Amaral,14 dez 2019 8:38

Quem chega de barco ao Maio não pode deixar de reparar que logo ali ao pé do cais nasceu um novo edifício entre o mar e as salinas do Porto Inglês. Incluído num projecto mais alargado de redinamização e requalificação das salinas, o Centro Interpretativo das Salinas do Maio quer trazer à ilha uma outra dinâmica turística e económica.

“O Centro é um dos resultados do projecto de requalificação e redinamização turística da ilha do Maio, que decorre desde 2016 e que prevê criar condições para que o turismo seja desenvolvido numa base solidária e comunitária e ao mesmo tempo que haja uma envolvente cultural à volta do que é o património da ilha, o património cultural, tradicional. Seja o sal, seja o gesso, a cal. Tudo o que sejam produtos locais”, começa por dizer Hermínia Ribeiro, do Instituto Marquês de Valle Flor (IMVF), uma instituição portuguesa que desde 2001 tem desenvolvido vários projectos em parceria com a Câmara Municipal do Maio. 

Hermínia Ribeiro assegura que o grande objectivo deste Centro Interpretativo das Salinas do Maio é garantir que “haja uma melhoria da qualidade de vida dos que residem no Maio, mas também terem para oferecer um produto de qualidade a quem vem de fora. O projecto teve várias áreas de intervenção. Teve toda a parte de requalificação da salina e requalificação do armazém onde as senhoras trabalham o sal e esta construção do Centro Interpretativo das Salinas do Porto Inglês é o culminar de todo um trabalho ao longo destes três anos e meio”. 

Objectivos

Inaugurado no passado sábado – numa cerimónia onde participaram as embaixadoras de Portugal e da União Europeia, o Presidente da Câmara Municipal do Maio e elementos da administração do Instituto Marquês de Valle Flor – o centro pretende ter um produto cultural e de conhecimento “que valoriza a tradição e que nos explica a importância do sal ao longo dos séculos e até ao dia de hoje” e, também, “a forma como o sal agrega valor aos outros produtos, valorizando o que é este património local não só como actividade geradora de rendimento, mas também as utilizações que tem na conservação dos alimentos, que tem também e termos terapêuticos. Portanto, as várias valências que o sal tem e a importância que teve desde moeda de troca há uns séculos atrás até agora como um produto essencial e que está presente em todas as casas”, destaca Hermínia Ribeiro. 

A ideia é agora apresentar uma proposta que atraia um turismo diferenciado porque, agregados ao centro, estão também os trilhos que se podem fazer para visitar a salina e está o posto de observação de aves.

“Quer-se um turismo não só de resort e de praia, mas também cultural e de valorização ambiental”, diz aquela responsável do IMVF. Para um futuro mais ou menos próximo há igualmente a “componente mais terapêutica através dos benefícios do sal para a saúde. Essa parte ainda poderá vir a acontecer mais tarde uma vez que não está integrado nas valências para já disponíveis, mas há todo um empreendimento à volta do sal, desde a interpretação, conhecimento e cultura até ao contacto com a natureza, protecção da natureza e toda a envolvente com a flora e a fauna da ilha”. 

Foram vários os parceiros que o IMVF teve para que o projecto do Centro Interpretativo das Salinas do Maio se tornasse uma realidade. Um deles foi a Fundação Maio Biodiversidade. 

“O projecto que está a decorrer tem como parceria formal o Instituto Marquês de Valle Flor, a Câmara Municipal de Loures e a Câmara Municipal do Maio, tem como associado e também financiador, a SDTIBM e como financiadores maiores a União Europeia, a cooperação portuguesa e também uma parte do Fundo de Turismo no Centro interpretativo”, explica Hermínia Ribeiro. 

Quanto à Fundação Maio Biodiversidade, esclarece, “foi um parceiro de primeira hora na implementação das actividades. O projecto toca numa série de áreas que são áreas de intervenção da fundação seja na preservação ambiental, na preservação das tartarugas ou nas campanhas de sensibilização. Nós assinamos um protocolo (Câmara, Instituto e Fundação) para que nas áreas que são áreas de intervenção, por excelência, da fundação houvesse uma parceria na implementação dessas actividades e também uma convergência de objectivos e de intervenção para não pormos em causa o trabalho que vinha a ser feito pela fundação”.

Ao Expresso das Ilhas, Sara Ratão, bióloga marinha e coordenadora dos programas marítimos e terrestres daquela instituição explica que o trabalho daquela fundação é essencialmente ambiental. “Realizamos muitos tipos de censos, incluindo nas salinas do Porto Inglês e daí surge a nossa participação neste projecto. Em relação ao centro em si, o nosso papel foi na época em que foi construído, porque como é uma construção dentro de uma área protegida avaliamos o impacto que poderia ter nas aves. Porque aquela é uma zona de importância internacional para aves migratórias. Para além disso demos também algum apoio na parte de onde poderiam ser postas algumas setas de sinalização e também algum apoio no que respeita ao feedback de estudos de impacto ambiental”. 

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Importância do centro para o Maio 

A esperança é que o centro venha a ter um papel importante na dinamização turística e económica da ilha. “Na maior parte das ilhas, que eu saiba, não existe um centro interpretativo. Por isso, haver um aqui é bastante importante, principalmente pelas oportunidades que poderá dar para a parte de conversas abertas que poderá dar não só com as escolas e as comunidades locais, mas também com turistas”, aponta Sara Ratão que vê na localização do centro outra vantagem. “Como é um ponto logo ali na entrada da ilha, ao pé do cais, penso que dá uma boa imagem do Maio, sendo um mais um ponto de interesse para a ilha”. 

Por estar situado à entrada das salinas o Centro Interpretativo pode igualmente ter um papel educativo importante. “Desenvolvemos com a Câmara e o Instituto Valle Flor alguns painéis informativos sobre que tipos de aves podem ser observadas. Dentro de outro projecto, mas também em colaboração com a Câmara, vamos desenvolver um outro painel de identificação de aves para estar dentro do observatório das salinas e estamos a pensar fazer um folheto com informação básica e para que as pessoas possam fazer um check list das aves observadas”, acrescenta Sara Ratão. 

Muitos projectos com resultados positivos 

O IMVF trabalha no Maio desde 2001. 

“Começamos uma parceria com a Câmara Municipal do Maio e também com os seus habitantes, em termos de colaboração, nesse ano, em termos de identificação das necessidades e colaboração no desenvolvimento do plano de desenvolvimento do plano municipal de luta contra a pobreza”, explica Hermínia Ribeiro que garante que depois de identificadas “as diversas carências e necessidades que havia, mas também as oportunidades que tínhamos para trabalhar, o Maio é uma das ilhas que nos tem dado maior retorno para o investimento que é feito”. 

O trabalho do IMVF tem sido desenvolvido em estreita parceria com a autarquia “na preparação das candidaturas, na identificação da necessidades e possibilidades de trabalho” seguem-se, depois, as candidaturas e “diversos financiadores que têm aprovado esses projectos”.

“Temos projectos desde 2003 até agora a funcionar, o último vai terminar em 2020, e tem havido um bom retorno têm havido resultados concretos que impactam na vida das pessoas e que nos têm permitido continuar esta intervenção. Qualquer investimento na ilha tem tido um retorno e consequências visíveis. Há resposta e nós conseguimos ter confiança dos parceiros com que trabalhamos porque sabemos que os resultados vão aparecer e daí termos continuado ao longo do tempo a trabalhar com o Maio”, aponta Hermínia Ribeiro que vê no Maio “uma ilha que tem muitas carências, tem uma dificuldade grande de transporte, de acessibilidades, que tem dificultado um maior desenvolvimento que se pretendia mais rápido tanto ao nível do turismo como em termos económicos para as famílias, mas tem todos esse potencial que nos leva a crer que vale a pena continuar a parceria e ajudar a conseguir novos financiamentos”.

Impedir queda no marasmo 

Agora que o centro está inaugurado, é importante impedir que caia no esquecimento. “Isso pode sempre acontecer, é verdade. Penso que o que é importante neste tipo de projectos, e é uma das coisas que já reparei que por vezes falha, é a parte da divulgação. É preciso ter uma boa estratégia de comunicação e de divulgação que atinja principalmente um público que tenha interesse neste tipo de centros, sejam turistas ou escolas”, defende Sara Ratão.

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“Já aprendi muito com o Maio, já sofri muito com o Maio”

Hermínia Ribeiro tem trabalhado com e no Maio desde que o IMVF iniciou o primeiro projecto naquela ilha. 

“Pessoalmente, porque tenho acompanhado o trabalho no Maio desde o início já são 18 anos a vir ao Maio, é um trabalho de vida”, reconhece em entrevista ao Expresso das Ilhas. 

“Já aprendi muito com o Maio, já sofri muito com o Maio, mas são bastante gratificantes os resultados que vamos tendo. Principalmente pela apropriação pelas instituições locais, por parte das pessoas, das associações. É um trabalho muito gratificante ver toda a forma como vamos trabalhando em rede, como cada projecto se constrói em cima do outro, desde o envolvimento das associações no Orçamento Participativo. O Maio é o único município do país que ainda tem um Orçamento Participativo a funcionar por vontade das populações, das associações, da própria Câmara e da Assembleia Municipal. Portanto, há uma série de resultados, de projectos que têm corrido muito bem aqui no Maio e que muitas vezes não se conhece”, conclui. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 941 de 11 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Andre Amaral,14 dez 2019 8:38

Editado porDulcina Mendes  em  15 dez 2019 12:41

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