“O Papa diz que as nossas acções, o modo como tratamos a natureza e o modo como nós vivemos têm as suas consequências”

PorAntónio Monteiro,7 fev 2021 7:55

No mês de Outubro de 2020 o Papa Francisco, por ocasião do oitavo ano do seu Pontificado, publicava uma nova encíclica intitulada Fratelli Tutti sobre a fraternidade e a amizade social. Em entrevista ao Expresso das Ilhas o Padre João Augusto Martins comenta o núcleo central desta Carta Encíclica e o seu significado para cristãos e não cristãos.

Qual é o tema central da Carta Encíclica do Papa Francisco?

O tema central vem logo no título, ‘Fratelli Tutti”, porque a Carta Encíclica do Papa é sobre a fraternidade e a amizade social. Ao longo de toda a carta ele faz a explicação do que é a fraternidade. Logo no início ele explica por que nós somos todos irmãos. Depois ele explica a amizade social que é um sentimento, mas também um projecto e uma decisão para que todos os irmãos construam essa fraternidade. Portanto, a amizade é um sentimento, uma operação e uma acção que vai levar à construção da fraternidade. É esse o objectivo da Encíclica: fazer com que todos se empenhem a construir a fraternidade a partir da amizade social.

O Papa propõe na sua Carta Encíclica uma nova doutrina social porque o fosso entre ricos e pobres tornou-se preocupante?

Não o Papa não propõe uma nova doutrina. Ele propõe a doutrina de sempre. Ele cita muito os padres dos primeiros séculos da Igreja, nomeadamente São João Crisóstomo. Este padre é muito claro quando diz que aquilo que nós guardamos para nós como nosso bem em casa e não nos deixa falta e há outro que precisa disso… ele diz que aqueles bens não são nossos, são deles. Nós estamos a roubar se nós não dermos. O Papa vai na sua Carta ao que de mais genuíno há no cristianismo que é ajudar o próximo. Ele cita o capítulo 10º do Evangelho de São Lucas que é a Parábola do Bom Samaritano que no fundo é uma pessoa de quem não se espera nada e encontra um homem caído à beira da estrada. Passa um sacerdote, não lhe perta assistência, vai-se embora, passa um levita que também não lhe presta assistência e vai-se embora e passa um samaritano de quem não se espera nada e cuida desse homem. Portanto, esse samaritano é que deve ser o modelo para todos nós. O Papa vai beber no evangelho a parábola de cuidar do outro.

A leitura que o Papa faz da Parábola do Bom Samaritano põe a nu as desigualdades socais e entre as nações no mundo moderno.

É uma parábola muito tocante, porque aquele que supostamente não era para fazer o bem, faz. Ele se torna próximo, porque ele se torna verdadeiramente um irmão. Portanto, ele é um irmão, e não um sócio. O Papa distingue isso na sua carta. Portanto, um sócio é aquele que é dos nossos e faz as coisas que estão programadas, enquanto que o irmão é aquele que fundo do seu coração consegue responder a um imprevisto para socorrer a um irmão. Portanto, ele é o verdadeiro próximo, não é um sócio. No fundo, o Papa pergunta quem somos nós. Se somos os caídos à beira da estrada, nós queremos que alguém nos ajude. Se somos aqueles que passamos indiferentes, não ligamos e passamos à frente, nós precisamos de mudar, pois aquele que está caído à beira da estrada é nosso irmão. Se somos aquele que atacou o homem e o fez cair, nós estamos a construir um mundo de violência e um mundo de desordem. E o Fratelli Tutti é para dizer-nos que todos nós no mundo, estejamos em qualquer uma dessas posições, devemos compreender que nós somos todos irmãos. Primeiro, quem tem o poder das armas para fazer alguma coisa, que não as use para atacar um irmão e deixá-lo à beira da estrada. Se ele tem alguma força, tem que ser alguma força para construir a paz, não para manipular a fraqueza do irmão. Se nós temos a nossa religião e as nossas convicções e elas marginalizam o outro, nós precisamos de mudar essas convicções, porque não podemos viver num mundo onde nós existimos todos e nós não ligamos o outro. E há aquele samaritano que é a estrela da parábola que é o homem que carrega aquele que está caído e presta-lhe assistência. Portanto a Parábola do Bom Samaritano é o centro religioso da Carta Encíclica do Papa. Ele começa com uma referência geral, mas vai depois para a Sagrada Escritura e diz-nos que a pessoa que está caído no caminho é o nosso irmão e que nós somos todos irmãos.

Segundo o Papa, é justamente essa irmandade que a pandemia da Covid-19 nos veio mostrar.

Sim, o Papa faz uma referência à Covid-19 para dizer que, de facto, todos nós estamos no mesmo barco e que a Covid veio revelar isso e que nós precisamos estar todos unidos para combater esta pandemia e sair disso. Mas ele não diz que a Covid é um castigo de Deus, que é uma desgraça que veio, porque Deus quer castigar-nos, mas ele diz que as nossas acções, o modo como tratamos a natureza e o modo como nós vivemos no mundo têm as suas consequências. Por isso, nós devemos aprender alguma coisa nesta situação de crise em que nos encontramos, sobretudo para sairmos mais humanos e mais irmãos. Então é preciso que nós continuemos a sonhar com um mundo mais justo, mas o Papa diz que este sonho não é irrealista e que nós podemos, de facto, construir um mundo de irmãos.

Voltando à parábola biblica. Quem é em Cabo Verde o Bom Samaritano e o nosso próximo?

O nosso próximo não aquele do qual nos aproximamos para fazer um bem. Portanto, não é alguém de fora de quem me aproximo para fazer o bem. O Evangelho mostra que o próximo não é o outro que está lá a precisar da minha ajuda. Sou eu que me faço próximo dos outros. Eu é que sou o próximo. Não é o necessitado que é o próximo. Eu é que me faço próximo para ajudar aquele que está necessitado. É a pergunta de Jesus, pois no fim ele perguntou ‘quem é o próximo desse homem’? Senão o próximo fica sempre como o inferior: é o coitado que está ali que eu tenho que ir ajudar. Não, Jesus fez o contrário. Ele perguntou ‘quem é que se fez próximo daquele homem’? Ou seja, eu considero-o tão digno e tanto irmão que eu me faço o próximo dele. Você me pergunta ‘quem é o meu próximo’? Errado, eu devo perguntar ‘de quem é que me faço próximo’? Portanto, nós todos devemos fazermo-nos próximos uns dos outros para que possamos construir um mundo mais harmonioso.

Em termos concretos quem é o nosso próximo em Cabo Verde?

Se me está a falar das pessoas que vivem em situações de maior vulnerabilidade, aqui em Cabo Verde estão bem identificados. Nós somos um país pobre. Algumas pessoas vivem em condições razoáveis e não temos muitos ricos. Mas se me diz que aqueles que vêm de outros países para aqui para trabalhar como imigrantes precisam dos nossos cuidados, perfeitamente. Precisam, sim senhor. Precisam de encontrar trabalho, precisam de encontrar tecto e precisam de encontrar um acolhimento de irmão. Há três tt de que o Papa fala na sua encíclica: nós temos que ter terra; é preciso que tenhamos tecto e é preciso que tenhamos trabalho. Portanto, terra, tecto e trabalho. Tecto, falta muito aqui em Cabo Verde; trabalho, falta muito aqui em Cabo Verde. São essas situações de que cada um e quem tem responsabilidades políticas e não só, porque o próximo não é apenas aquele que está no meu país: é aquele que está num outro país também. Portanto, uma pessoa que tenha condições de ajudar uma pessoa em situação de carência num outro país, deveria fazê-lo, segundo o Santo Padre. Nós olhamos para as fragilidades dos nossos vulneráveis eternamente: os desempregados; os que vêm de longe para vir trabalhar.. o Papa fala muito das pessoas idosas que começam a ter certa expressão em algumas cidades de Cabo Verde, como a Cidade da Praia. Portanto, nós temos que cuidar dos idosos, nós temos que cuidar das crianças. O nosso estilo de vida não nos permite cuidar das nossas crianças a todo o tempo e eu delego para jardins, porque é preciso ir ao trabalho e ter muitos salários para sustentar a casa. Portanto, temos sociedades em crise porque os modelos de desenvolvimento não são humanos. É isso que o Papa critica e propõe outros modelos.

A carta encíclica acaba por ultrapassar o âmbito das convicções cristãs do próprio Papa para ser um convite ao diálogo “com todas as pessoas de boa vontade”.

Perfeitamente, até porque ele teria, se quisesse, uma fonte do Evangelho para referir logo no início, mas ele não faz essa citação da bíblia do capítulo 23, de São Mateus, no versículo oitavo em que se diz ‘vocês são todos irmãos’. Se calhar, de propósito, ele não faz essa referência e prefere citar as exortações de São Francisco de Assis aos seus irmãos para serem realmente irmãos e a tratá-los através da conversa e da acção como tal, estando presentes ou estando ausentes. O Papa diz que se inspirou em São Francisco de Assis para escrever a carta encíclica, mas que foi especialmente estimulado pelo encontro que teve havia um ano com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, durante a sua visita aos Emiratos Árabes Unidos. No fim do documento ele acrescenta que na sua reflexão sobre a fraternidade universal sentiu-se igualmente motivado por outros irmãos que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi e muitos outros. De facto, a encíclica ultrapassa as fronteiras de um diálogo interno com os cristãos para abraçar o mundo, nesse empenho de fraternidade universal.

A encíclica do Papa propõe uma espécie de novo pacto social. Em que se baseia?

Sim, porque nós enquanto sociedade vivemos num contrato social. É um pacto social que se baseia no facto de nós sermos irmãos, porque a fraternidade foi também o mote da revolução francesa. O Papa, antes de chegar a Deus, de onde vem toda a paternidade, ele diz que devemos estar unidos, porque nós pertencemos à mesma Terra, nós temos a mesma carne. No fundo, os nossos sonhos de felicidade são os mesmos. Portanto, devemos partir disso para construirmos o bem comum e que todo o pacto social, se for verdadeiramente social, porque se é social é para todos. O social é muito importante, porque o social existe antes de qualquer egoísmo. É isto que nos faz verdadeiramente irmãos. Como disse anteriormente, no fundo temos os mesmos sonhos, somos homens, e vivemos no mesmo mundo. Portanto, isto deve ser a base de todos os pactos.

As reflexões do Papa sobre a fraternidade e a amizade social são também validadas para Cabo Verde?

Com certeza, porque nós vivemos no mesmo mundo, ainda que na periferia deste mundo. O Papa Francisco tem muita atenção às periferias. Portanto, nós estamos no coração dessa reflexão, porque quando ele vai fundamentar e sobretudo dar as linhas concretas de como é que deve actuar para se construir a fraternidade universal, ele diz ‘nessa construção alguns estão caídos, outros estão a ajudar, alguns são salteadores. Portanto, eu acho que nós aqui em Cabo Verde somos um pouco dos caídos à beira da estrada que os outros procuram ajudar. Portanto, esta é também uma ajuda do Papa para nós, mas nós também somos actores. Não podemos ser apenas pessoas passivas. Nós colaboramos com todos, no nosso país e internacionalmente para a construção dessa comunidade que é global, mas que não conta apenas com o centro; conta também connosco que estamos na periferia. Por isso, esta encíclica é para nós, porque põe-nos no coração do mundo e de todos os irmãos para os quais não apenas estendemos as mãos, mas também damos o nosso contributo para a construção dessa humanidade.

No capítulo ‘As sombras de um Mundo fechado’, o Papa fala do bairrismo, como uma regressão social que também existe entre nós.

Sim, o Papa Francisco fala de um fechamento no local, fala do nacionalismo, fala também do populismo que são palavras muito na moda hoje, devido ao envolvimento de uma certa direita que quer excluir os outros, mas ele depois resgata a base dessas palavras que em princípio são boas, mas que depois são passiveis de serem manipuladas. Por exemplo, a palavra povo é muito importante no pensamento do Papa Francisco. Portanto, o populismo é um desvio daquilo que seria a democracia, portanto o contrário daquilo que as pessoas mais querem. Mas depois nós manipulamos isso, dando biscoitos ao povo para que fiquem nossos instrumentos. Ele, de facto, quer que sejamos abertos, que estejamos ligados a todos, mas a partir dos nossos verdadeiros valores, que são valores universais, porque se qualquer um se fecha, ele morre. Nós estamos aqui na Cidade da Praia, cada ilha é uma ilha, cada ilha tem as suas potencialidades e portanto devemos estar voltados uns para os outros e caminhar como um país com os seus verdadeiros valores e tradições.

Cabo Verde é um país maioritariamente católico, mas temos muito cinismo social. O facto de os crentes irem à igreja todos os domingos, torna-os pessoas melhores?

A Igreja é um espaço próprio para a liturgia, porque quando se vai à Igreja, vai-se para rezar. Mas a oração a Deus torna as pessoas melhores. Todos os dias há famílias que se reúnem, que se amam, que trabalham e que constroem. Portanto, o discurso que estamos muito mal e que vamos de mal a pior e que somos insustentáveis como pessoas, não pode ser verdade, porque senão estávamos todos mortos. Mas se me diz que não é na Igreja que se faz a caridade, a vida do cristão é em casa, a vida das pessoas é na empresa. As pessoas têm a missão de viver a Igreja, lá no seu trabalho, portanto no seu dia-a-dia em que se encontram com os outros é que manifestam que amam alguém, que amam a Jesus. Mas se me diz que nós devemos fazer mais, com certeza. Portanto, a Igreja deve fazer mais, os políticos enquanto tal, devem fazer mais. Todos devem fazer mais, mas o que o Papa procura na sua carta é um ponto que una a todos, para além da Igreja. Portanto,

a Carta Enciclica Fratelli Tutti ultrapassa um pouco a Igreja, porque põe o foco naquilo que ele diz. Ou seja, se ele assina um documento sobre a comunidade humana, a fraternidade e a paz com um Imã é porque ele quer realizar o que ele mesmo diz na sua carta: ele quer a unidade para além da divisão. Portanto, a humanidade nos une. Ao invés de estarmos a discutir se és muçulmano, se és budista, se és católico, ou se és de outra religião, ele diz ‘nós todos queremos a paz, nós todos queremos o bem, nós todos queremos o desenvolvimento. Portanto vamos para isso’. Agora, no momento certo, para um diálogo verdadeiro, vamos partir das nossas verdades, porque nós não devemos ignorar ninguém. Não devemos fazer de conta, porque o cinismo é um fazer de conta. O cinismo é dizer que tudo está bem e dizer que respeito, mas no fundo não respeito nada. O cinismo é contra a verdade. Enquanto que a procura da unidade é partir já da verdade daquilo que nós queremos, mas depois nós vamos aprofundar as bases para ver qual é a verdade, entre aspas, de cada qual e se essas verdades podem ser conjugáveis, e se nós podemos, de facto, coexistir. Há rupturas importantes que o Papa não quer salientar, porque ele depois fala das ameaças, da manipulação da religião. No fundo, se formos ver por que é que isso acontece, constatamos que, se calhar, algumas religiões se propõem à manipulação ou então porque desde os seus fundadores são religiões que vão por um certo caminho da violência e da destruição do outro. Mas o Papa não quer falar disso na sua carta. Portanto, ele procura a unidade, para além da divisão.

Em Cabo Verde temos políticos que sabem que o cabo-verdiano é cristão, maioritariamente católico, então fazem-se ver nas missas para iludir o povo. É o cinismo político no seu melhor.

Sim, houve uma altura em que a coisa era diferente. O político que se manifestasse que era cristão, já ficava mal como político. Tinha praticamente que esconder a sua dimensão religiosa. Portanto, ele é religioso, vai à Igreja, não se benze e evita ir mesmo. Portanto, num clima de maior liberdade os políticos podem manifestar a sua fé. Podemos ver desse lado. Depois, os políticos que vão à Igreja não são obrigatoriamente cínicos. Há políticos verdadeiramente religiosos. Por exemplo, se formos ver pelo mundo fora nós temos agora o segundo presidente católico dos Estados Unidos quer é Joe Biden. O primeiro foi John F. Kennedy e agora é o Biden. O Guterres ia à missa todos os dias, o Marcelo Rebelo de Sousa quando vem à Praia pergunta a que horas se celebra a missa para ele poder ir. Neste momento, em Cabo Verde, temos políticos que não podemos dizer que vão à Igreja só para catar votos. Por exemplo, o presidente da CMP pertence a um grupo de Casais da Nossa Senhora, o presidente da Câmara de São Domingos pertence também ao mesmo movimento. Temos alguns cristãos que são deputados. Portanto, o que devem fazer é serem consequentes nas suas acções. Agora, se me diz que em qualquer espaço de manifestação em que as pessoas se reúnem servem para qualquer um ir-se apresentar para ser mais amado e ser votado, isso também é verdade.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1001 de 3 de Fevereiro de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,7 fev 2021 7:55

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  8 fev 2021 7:07

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