Acreditar, uma solução contra a violência

PorSara Almeida,11 dez 2021 8:14

O Projecto Believe arrancou em 2018. Depois parou. Voltou “em força” há cerca de meio ano e desde então trabalha com mais de 200 crianças da zona de Fundo Cobom/Tira-Chapéu promovendo uma cultura de não violência e toda uma mudança de mentalidade através do Desporto (boxe) e da Arte. Em conversa com o Expresso das Ilhas, Walter Barros, o criador de Believe, fala-nos do projecto e do percurso que levou à sua criação.

Começa cedo. Muito cedo. A exposição a valores, acontecimentos e experiências violentas e “negativas”. Desde pequenos, “vivenciam aquele ciclo. E para além da violência, é música de baixa qualidade, é trabalho de baixa qualidade, é tudo de baixa qualidade”.

O que acontece em vários bairros e zonas da Praia, passa-se também em Fundo Cobom e condiciona toda a vida da comunidade.

Aconteceu no passado, repercutiu-se. Continua a acontecer e continuará, se o ciclo não for quebrado. Ainda não foi. Ainda é a realidade do bairro.

Embora com picos de violência, o cenário estatístico mostra uma aparente melhoria de há uns 10 anos para cá. Walter Barros refuta qualquer calmaria. “Houve foi camuflagem, porque as pessoas já não falam. Agora, se uma pessoa leva um caçubodi na comunidade, não se vai queixar, porque sabe que não se faz justiça, que não vai recuperar os seus bens”, conta.

Ademais, qualquer pacificação entre grupo de thugs (como a que aconteceu em 2012) apenas se sustenta por um curto período de tempo. “É temporário porque não há nada que combata isso. Quando os jovens não têm trabalho, não têm nada para fazer, bebem de noite, consomem muita droga, é uma questão de pouco tempo até começar tudo de novo. E se não é pensado nada para combater isso directamente, ou se é só pensado em pôr mais polícia, não funciona”.

Ainda não há muito tempo, foi assassinado em Tira-Chapéu um jovem, por outos jovens. É mais um caso entre muitos de que Walter se lembra. “Isto torna-se uma sociedade doente porque a morte passa a ser ‘normal’. Todas as crianças vêem as mortes, com os seus próprios olhos, idosos vêem as mortes, adultos vêem as mortes, toda a gente olha a morte e deixa de ser novidade. Dentro da comunidade já temos a sensação de que é normal”.

Walter

Foi neste ambiente que há 27 anos nasceu Walter Barros, que temos vindo a citar. É assim desde há muito tempo, e continua. “Essas coisas podem explodir. Não sei aonde podemos parar”.

Walter destacou-se no seu percurso, e não entrou no ciclo. Terá, em grande parte, sido salvo pelo desporto. Aos 12 anos, por iniciativa do pai começou a praticar boxe.

“O meu pai acreditava que eu era muito agressivo e pensava que, se não me colocasse a praticar boxe, eu iria escolher o mesmo caminho que outras crianças e jovens”. Caminho de droga e tiros.

Sempre fugiu desses problemas. E tinha talento para o boxe. Começou a praticar e não mais parou.

A carreira de pugilista começou a ser trilhada com sucesso. Foi campeão regional e nacional de boxe na época 2014/2015, melhor do ano na gala dessa época, ficou em segundo lugar num campeonato internacional em Angola. Viajou para os Camarões para tentar a qualificação para os Jogos Olímpicos…

Cadeia

Estava em ascensão no desporto. E, depois, tudo terminou. Foi em 2017, numa altura em que se preparava para viajar para Portugal, de onde seguiria para Inglaterra “para jogar boxe profissional”. Mas o envolvimento com uma menor, de 15 anos, mudou o rumo da sua vida. A mãe da menina apresentou queixa, Walter foi preso e passou 5 meses na cadeia (central da Praia).

Ao conhecimento da violência na comunidade, juntou-se então o da violência na prisão. Hoje não tem dúvidas de que a cadeia é uma verdadeira escola do crime e promotora do mesmo. Não só os detidos aprendem a ser mais elaborados nos seus crimes, como vão ganhando “estatuto” e começam mesmo a “mentalizar-se de que são criminosos”. Saem da cadeia, sem oportunidades, nem outras mentalidades. Acabam por regressar, já se sabe. O ciclo perpetua-se.

A passagem pela prisão vincou isso, mas durante os quase seis meses que Walter aí passou algo de positivo também aconteceu.

“Comecei a trabalhar com os outros presos no boxe e vi como o boxe é um elo de mudança de mentalidade, porque quando estás a combater consegues descarregar toda a raiva, frustração da sociedade…” Canalizar energias, transformar o negativo em positivo.

Começou a desenhar-se a ideia do projecto Believe…

Entretanto, saiu, condenado a pagar uma indemnização de 300 contos. Saiu sem nada. A carreira estava arruinada, a namorada da época deixara-o. Teve de recomeçar.

“Consegui trabalhar na restauração, depois comecei a dar aulas [de boxe], arranjei mulher, tive duas filhas, criei a minha própria família”, conta.

Hoje é treinador, à margem dos seus projectos solidários, na Base Fight Club, clube “onde cidadãos comuns aprendem a modalidade, a praticar a autodefesa, ter mais garra no trabalho, ter mais motivação, ter mais saúde”.

Believe

Todo este percurso de vida levou, pois, ao Projecto Believe, que surgiu em 2018, após a saída de Walter Barros da prisão, mas rapidamente parou.

“Acabei por não dar continuidade porque eu não acreditei em mim mesmo”, conta Walter. Receou o que as pessoas e o sistema pudessem pensar. Achou que não tinha capacidades para fazer o projecto avançar. Precisava de arranjar sustento.

Depois do interregno, há cerca de meio ano, deixou as dúvidas de lado e relançou o projecto em força.

“Já estamos com seis meses a trabalhar o Believe de forma intensiva, com realização de várias actividades, e a fazer muitas outras coisas.”

No total, neste momento, o projecto conta com 10 membro e trabalha com mais de 200 crianças na zona.

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No campo desportivo de Tira-Chapéu reúnem crianças de todas as idades (a mais nova tem um ano) que treinam boxe, 3 vezes por semana. Mas nem só do desporto, em que à actividade física se alia, umbilicalmente, mensagem positivas de auto-confiança e não violência, vive Believe.

Há ainda uma forte, dir-se-ia mesmo essencial, aposta na Arte através da qual se tenta incutir os mesmos valores e posturas. Jovens e crianças visitam a oficina do Believe, e são também incentivados a expressar artisticamente, mormente através da pintura.

E várias outras actividades mais pontuais são também realizadas, geralmente aos fins-de-semana, com o intuito integrado de abrir “horizontes”. Assim, “pegam” nas crianças e tiram-nas do bairro, levando-as a lugares que não conhecem ou que não costumam frequentar. Às vezes lugares tão pertos como o recinto da Assembleia Nacional.

Como conseguem, com tantas crianças? “Boa vontade”.

Libertar a mente

“Mostramos que eles têm de ter ambição desde muito cedo, tudo isso é abordado fora das aulas”, explica Walter.

Para o criador do Believe, a mudança de mentalidade passa pois também por conhecer outras coisas. Seja tipos de música que não estão habituados a ouvir (como morna), seja estórias, seja outros lugares e ambientes… libertar das ‘amarras’ dos lugares e comunidades.

Como explica Walter, “os thugs estão presos, de forma mental, e as suas zonas são as que eles consideram ser ‘seguras.’ É la que eles cometem a violência, magoando as pessoas da pior maneira possível. Mas quando você os encontra em outras zonas, como por exemplo no Plateau, considera que são adolescentes indefesos, porque aí eles não sabem o que fazer…”

Esse ‘abrir horizontes’ é, pois, base importante dos objectivos do projecto. É importante que as crianças vejam esses outros lugares, onde muitas vezes até se sentem constrangidos pelo ambiente “copo leti”, promovendo a auto-estima e libertando-as de estigmas (muitas vezes auto-infligidos).

Reinserção

O projecto Believe tem, além da vertente preventiva, também uma vertente de reinserção social muito forte. Inclusive, alguns dos seus membros são ex-presidiários.

Sobre a questão da reinserção, a comunidade de Fundo do Cobom/Tira-Chapéu assiste ao mesmo que se passa no resto do país: o presidiário sai, é discriminado e, portanto, acaba por juntar-se a outras pessoas que também cometem crimes. Até porque “o ciclo de amizades tem a tendência de repetir …”

É a natureza humana. “Todos, quando saem da prisão querem ser bem-recebidos, ter dinheiro para no mínimo comer e vestir bem. Quando, ao sair, não se deparam com nada disso, começam a roubar”.

Por outro lado, falta também, no entender de Walter Barros, preparação para a saída. Um exemplo que conta é o de uma empresa que recebeu 19 ex-presidiários. Apenas três ficaram a trabalhar.

“O resto não conseguiu reinserir-se na sociedade, porque para eles não houve uma consciencialização profunda feita antes de sair da prisão”.

Faltaria, pois, trabalhar mentalidade e prestar o apoio necessário.

No Believe toda a gente é bem-vinda. E pretende-se ajudar a essa reinserção na sociedade, a encontrar oportunidades, e a “sentir um ambiente melhor”.

Falta à Associação poder monetário para poder sustentar quem sai da cadeia. Um objectivo seria requalificar, por um certo preço, praças e afins, ou seja, espaços públicos, colocando esses jovens a fazer o trabalho.

“Temos uma oficina que é capaz de consertar bancos, mas não nos foi dada a oportunidade”, conta Walter, garantindo que o Believe já falou com entidades competentes, já apresentou o projecto, já publicitou, já reclamou, enfim, já “tentou de tudo”, para avançar, mas sem sucesso.

Um projecto na calha, que já foi apresentado e aguarda agora luz verde, é a criação de um clube de boxe no Centro Orlando Pantera (onde estão os presos menores de 16 anos).

Os contactos e o próprio trabalho com as crianças já foi iniciado e a receptividade boa. Esta seria uma boa oportunidade para as crianças que estão presas poderem praticar um desporto de que certamente “vão gostar”.

Reconhecimento, mas…

Já muito foi feito pelo Believe neste meio ano, e novas ideias não faltam. Mas, na verdade, não tem havido apoios nem para as actividades, nem sequer para as estruturas necessárias ao seu funcionamento.

Neste momento, essas actividades artísticas (e artesanais) realizadas pelas crianças e pelos membros, são feitas num pequeno espaço que têm alugado. E no passado sábado foi inaugurada a Instituição de Desporto Walter Barros, um pequeno espaço onde se pretende colocar internet e criar outras condições para receber algumas crianças, evitando que fiquem na rua.

A falta de apoio, no entanto, não será por falta de divulgação. Hoje o projecto Believe é conhecido. Foi notícia na RCV, na TCV, na Inforpress, da DW, na RTP-África, entre outros. Terá antes a ver, entre outros factores, com toda uma cultura de subserviência a linhas de projecto que não se enquadram nos objectivos essenciais (nem são moldados na comunidade), bem como ao facto de muitos “donativos” na verdade não fazer uma diferença estrutural.

“Todas as associações sabem que não há um apoio de verdade. Por exemplo, prefiro não receber apoio de uma instituição que doa dois pares de luvas e considera isso como apoio. Eu sou um pouco radical, porque acredito nas mudanças”, sublinha Walter.

Mas há motivos de regozijo para o projecto Believe.

“Agora está a dar frutos. Quadros que as crianças e jovens pintaram na comunidade já se encontram na Alemanha e vão ser expostos em Berlim”, refere. É uma grande vitória.

O foco, aliás, do trabalho artístico feito no Believe é internacional, uma vez que em Cabo Verde esse não é valorizado. Da experiência que a associação tem, quando as pessoas sabem que as obras foram pintadas por crianças, acham que não valem o dinheiro pedido. Assim, através do contacto com uma cabo-verdiana, Ilcy Tavares, que há 23 anos vive na Alemanha, conseguiram essa “internacionalização”.

Outro feito é a parceria entre o Believe e a Base Fight Club, onde Walter é treinador e que também “promove luta e eventos com jovens”.

“A empresa vem ao encontro do projecto”. E os jovens podem competir aí, “para poder apresentar a modalidade dentro e fora de país”.

“As pessoas dizem que arrancamos com muito fúria, que temos que acalmar e esperar, mas nós mostramos a nossa capacidade”. E o projecto, acredita, continuará a dar bons frutos.

Com Neidy Pereira (estagiária) 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1045 de 8 de Dezembro de 2021.

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Autoria:Sara Almeida,11 dez 2021 8:14

Editado porAntónio Monteiro  em  13 dez 2021 12:28

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