5 de Maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa. As escolas portuguesas e a língua que (também) é nossa

PorSara Almeida,5 mai 2022 8:14

O currículo não é de cá. A cultura difundida, mesmo que de mãos dadas com a nacional, é de lá. Mas a língua que se promove, não sendo a língua materna, é de Cabo Verde. As escolas de ensino Português têm sido um importante veículo de valorização desta que é também a nossa língua, e assumem abertamente a missão de a defender e com ela fomentar laços afectivos. Numa altura em que cerca de 350 milhões de falantes celebram o dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de Maio, fomos então conhecer essas escolas, presentes na Praia e no Mindelo, e olhamos o domínio da LP pelos alunos cabo-verdianos que aí vão estudar.

Para o Estado português são um veículo diplomático e de cooperação lusófona e, acima de tudo, um meio de difusão e valorização da cultura e língua portuguesas.

Para os pais cabo-verdianos, e outros, são escolas com boas infra-estruturas e curricula apreciados, e também como um ensino que vai dotar os seus educandos de um bom domínio de uma ferramenta importante: a língua portuguesa.

Há, neste momento, três escolas de ensino português em Cabo Verde, uma do Estado português, duas privadas:

EPCV- CELP

A Escola Portuguesa de Cabo Verde – Centro de Ensino e da Língua Portuguesa (EPCV-CELP) é uma das seis escolas pertencentes ao Estado Português e criadas através assinatura de protocolos de cooperação com os países (e regiões, no caso de Macau) que as acolhem.

Também a professora da EPCV Luísa Gonçalves fala no papel de aprofundamento “das relações de amizade e cooperação no domínio da educação”, por trás da criação desta escola. E claro, do papel na promoção da LP, “como um factor de integração e de ligação a uma comunidade maior”. “O português é a 6.ª língua mais falada em todo o mundo”, recorda.

Assim, a escola assume “como missão de maior relevância a abertura de caminhos que facilitem a aprendizagem da LP, de modo a que se transforme em mais um elo que nos aproxime e nos enriqueça.”

A ECPV-CELP nasceu no meio de muita expectativa, iniciou actividades a 14 de Novembro de 2016, e foi crescendo faseadamente, em termos de níveis de ensino disponíveis e infra-estruturas.

Hoje é inegável a grande adesão por parte dos cabo-verdianos a este “projecto de divulgação da língua e da cultura portuguesas” e os números confirmam a afirmação da escola no panorama educativo do país. Neste momento, a escola tem cerca de 900 alunos, do pré-escolar ao 10.º ano. Desses, acima de 90% são cabo-verdianos.

Proficiência

Mas como está o domínio da LP por parte destes alunos? O nível de proficiência linguística “é bastante razoável, principalmente se o compararmos com a realidade de outras escolas portuguesas no estrangeiro”, avalia a professora de Português.

Um nível a que “não são alheios factores como, por exemplo, a forte ligação e a proximidade geográfica e cultural entre Cabo Verde e Portugal, bem como uma maior exposição dos nossos alunos a situações de comunicação em português, quer em contexto escolar, quer através dos media, quer em contexto familiar”.

Na verdade, continua, “muitos encarregados de educação investem na promoção da língua portuguesa, usando-a, em alternância com o crioulo, para comunicar com os seus educandos”.

O facto de a LP não ser a língua materna não parece ter, então, ser algo demais. Contudo, é de salvaguardar que grande parte dos alunos entrou na EPCV logo no início do seu percurso escolar, muitos deles na educação pré-escolar.

“A adaptação ficou bastante facilitada e, neste momento, parece-me legítimo considerar que os nossos alunos são o exemplo de um caso bem-sucedido de bilinguismo, usando alternadamente o crioulo e o português”, considera Luísa Gonçalves.

2 línguas

Mas há resistência à LP? Em Maio de 2019 a EPCV foi anfitriã do I Encontro de Escolas Portuguesas no Estrangeiro. Um dos temas debatidos prendeu-se com a implementação da LP em Cabo Verde, e várias convidadas cabo-verdianas ligadas à literatura e à linguística “confirmaram a convicção de que as dificuldades” nessa implementação se devem mais a uma questão de “alguma insegurança e algum receio de errar ao falar e ao escrever”, do que a “razões ligadas a um passado colonialista ou de qualquer outro âmbito que pudessem estar na origem de uma qualquer resistência ao seu uso”.

Aliás, não se pretende que a LP seja encarada “como uma língua concorrente e com mais prestígio que o crioulo”, mas sim, deseja-se “que ambas as línguas se tornem complementares”.

“A prova de que estamos a alcançar esse objectivo é a situação de bilinguismo atrás referida”, acrescenta.

Nesta escola, o Regulamento Interno contempla a LP como língua de comunicação em todo o espaço escolar, da sala de aula ao recreio, mas o uso do crioulo nunca foi proibido neste último, ou seja, nas situações mais informais. Apenas é incentivado o uso da LP e o próprio facto de haver também alunos portugueses e de outras nacionalidades, constitui um factor motivador para que esta seja usada.

“Os nossos alunos depressa interiorizam que, na Escola Portuguesa, a língua de comunicação é o português”, diz.

Imersão

Luísa Gonçalves lembra que a “aprendizagem de uma língua fica bastante facilitada quanto maior for a exposição e a imersão dos alunos nessa mesma língua: ela aprende-se ouvindo, falando, lendo e escrevendo”.

Nessa linha, uma forte aposta da EPCV são actividades, quer curriculares quer extracurriculares que potenciem a exposição à LP. Actividades como o Ateliê de Língua Portuguesa, para as turmas do 1º ciclo, no qual, “através de actividades lúdicas, se tem progressivamente conquistado, principalmente do ponto de vista afectivo, as crianças para a adesão ao uso desta língua como instrumento de comunicação no espaço escolar”.

A leitura recreativa também é importante e promovida desde o pré-escolar, onde desde cedo os alunos são incentivados a ir à Biblioteca escolar, com o projecto Mochila Vai e Vem. Um outro projecto destacado, é o projecto Ler nas Nuvens, através do qual são disponibilizados livros em formato digital, tendo em conta a escassez da oferta de livros infanto-juvenis em Cabo Verde.

Até ao momento, e tendo em conta que a escola ainda é recente, o investimento tem sido essencialmente na consolidação interna da Escola, “de modo a definirmos de forma realista o rumo que nos norteará”, conta a professora.

Porém, há o desejo de, em breve, “desenvolver um trabalho de articulação e de cooperação com diferentes instituições de ensino cabo-verdianas e outras, no sentido de, através da partilha de saberes e de boas práticas, contribuirmos para uma maior qualidade do panorama educativo de Cabo Verde e para a promoção da língua portuguesa”. Ou seja, a escola deverá abrir-se mais ao resto de Cabo Verde.

Uma promoção que tem sido positiva na escola. Basta ver que para os alunos que a frequentam já é uma língua para comunicarem de “forma espontânea” entre si…

“Actualmente, já se tornou também, para eles, uma língua de afectos”, congratula-se.

Escolas privadas

Colégio Português

Na Praia, há ainda o Colégio Português que foi a “primeira instituição oficial de ensino português no estrangeiro a funcionar em Cabo Verde” e assim, também a primeira a realizar exames nacionais portugueses. Abriu portas no ano lectivo de 2013/14 e tem neste momento 220 alunos, do pré-escolar ao 12º ano. É uma escola inteiramente privada, funcionando apenas “com o apoio e cooperação fundacional”, como explica a sua DirectoraPedagógica, Mafalda Guerra.

Quanto à questão da proficiência na língua portuguesa, a professora reconhece que quando os alunos chegam ao Colégio, “particularmente os alunos cabo-verdianos” mostram algumas dificuldades, mas desdramatiza. Com trabalho e “com o dia-a-dia escolar falado em português, rapidamente evoluem e dominam a língua”.

A adaptação a esta língua, que para esses alunos não é materna, é feita, pois, de forma célere, dadas as idades e capacidades. Mas o mais o importante, frisa, é que “é que não a ‘proíbam’ nem a ‘matem’”.

“O uso de uma língua é uma vantagem, uma riqueza, um património para quem a usa. ‘A língua é propriedade de quem a fala’... é uma ponte. Uma língua não pode fazer parte de uma ‘estratégia’ política”, destaca.

Sendo Cabo Verde um país lusófono, a directora pedagógica considera a discussão sobre o domínio da LP pertinente e adverte: “importante mesmo é não deixarmos ninguém para trás”. Mafalda Guerra defende que, assim, que todos deveríamos ter as mesmas ferramentas, e lembra que a Língua é uma “importante ferramenta”. Assim sendo, “porque não a incentivar”, questiona, exortando à reflexão.

Entretanto, da parte do colégio, este continuará o seu papel na promoção da língua, ou seja, desenvolvendo, da melhor forma possível o seu “projecto educativo com LP”, garante.

EPM

No Barlavento, há apenas uma escola de ensino Português: a Escola Portuguesa de Mindelo (E.P.M.). Esta instituição de ensino particular e cooperativo foi criada a 26 de Abril de 2016 e inaugurada a 9 de Dezembro do mesmo ano.

O objectivo: “afirmar e difundir a língua, a história e a cultura de Portugal e de Cabo Verde, proporcionando à comunidade residente no Mindelo um ensino com os curricula e programas portugueses que são complementados com os conteúdos relativos à história e cultura cabo-verdianas, de forma a permitir a comunicabilidade entre os dois sistemas de ensino e o reforço dos laços culturais entre os dois países”, explica o director pedagógico, Filipe Soares.

A escola tem neste momento 222 alunos, de 12 nacionalidades, distribuídos entre o pré-escolar e o 1.º e 2º ciclos do ensino básico. Está prevista a abertura do 7.º ano de escolaridade no próximo ano lectivo e ainda este ano será iniciada a construção de novas instalações.

O aumento de alunos tem sido exponencial, diz o director, e a crescente procura, bem “como o plano de actividades apresentado e dinamizado pela sua comunidade educativa”, são prova da grande aceitação e interesse da sociedade, em particular a nível local, pelo projecto educativo e curricular da EPM”.

Quanto à questão do domínio da língua Portuguesa, o director pedagógico salienta que a Escola “procura promover de forma equitativa a integração dos alunos”, independentemente da sua língua, cultura, origem e idade.

Assim, quando chega à EPM um aluno cabo-verdiano, ou de outra nacionalidade, que não tenha o português como língua materna ou de escolarização é, primeiramente, “analisado o seu perfil sociolinguístico para aferir o seu conhecimento da LP”.

Depois, e em função dessa análise, “o aluno é posicionado num nível de proficiência linguística e trabalhada a oferta curricular mais adequada para o mesmo, sempre em articulação com a família.”

Quando se justifica, “de forma a reforçar a aprendizagem da língua portuguesa e o seu desenvolvimento enquanto língua de escolarização, poderão os alunos frequentar a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM), em substituição da disciplina de Português ou beneficiar de aulas de apoio de PLNM”.

Mas como realça, até ao momento, os alunos cabo-verdianos presentes na EPM não demostraram “qualquer necessidade de posicionamento em grupo de nível de PLNM”.

Entretanto, detalha, o método escolhido pela EPM para a aprendizagem da leitura e escrita, com vista “a desenvolver da melhor forma o conhecimento da língua portuguesa no contexto em que se insere”, é o método das 28 palavras (M28P) em detrimento do tradicional método analítico sintético. Este método, explica o professor, parte “de situações concretas e reais para os alunos, onde as palavras estão sempre relacionadas com imagens motivando a descodificação e compreensão de representações gráficas e auditivas”. Assim, o acto da ler e de escrever é promovido como uma actividade cognitiva.

O M28P é também, recorde-se, o adoptado pelo Ministério da Educação de Cabo Verde, na escola pública.

De volta à EPM, de uma forma geral, o M28P “tem tido sucesso na rápida adaptação dos alunos que não têm o português como língua materna mas que já apresentam no seu perfil linguístico, mesmo que relativo, familiaridade com a língua portuguesa”, avalia Filipe Soares.

Entretanto, e a par com as disciplinas “tradicionais”, a escola proporciona sempre actividades “que potenciem a imersão linguística”. Exemplos disso são os projectos extra-escolares “Expressões com Arte”, a “Promoção da língua portuguesa pelas novas tecnologias” e a “Actividade Física como veículo promotor da língua portuguesa e de uma vida saudável", ilustra.

Como seria de esperar, entre os alunos que não têm LP como língua materna, o processo de integração escolar é mais complexo.

“As dificuldades na compreensão e expressão escrita bem como as dificuldades na compreensão do oral são evidências que podem influenciar o bem-estar destes alunos em contexto escolar e social”, aponta.

Ainda sobre essa integração, é de referir que os alunos que frequentam a EPM desde a educação pré-escolar são, como também seria expectável, “os que têm tido maior facilidade na sua adaptação à nova realidade linguística”.

“Por outro lado, os alunos que iniciam a sua integração nos ciclos lectivos seguintes demonstram maiores constrangimentos de assegurar o seu sucesso escolar, pessoal e social.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1066 de 04 de Maio de 2022.

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Autoria:Sara Almeida,5 mai 2022 8:14

Editado porAndre Amaral  em  5 mai 2022 16:34

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