“Não recebemos o que merecemos, recebemos o que negociamos” - Carlos Lopes

PorJorge Montezinho,20 ago 2022 8:24

África terá de aprender a lidar com as grandes mudanças na economia global, mas não será simples, diz o ex-secretário executivo da UNECA à NewAfrican. Carlos Lopes, actualmente professor na Universidade da Cidade do Cabo e especialista em economia, política e geopolítica africanas, vê um futuro para o continente com novas falhas e novas alianças. Numa longa entrevista, o conomista fala do que está em jogo e qual deveria ser a posição do continente.

No mundo complexo que estamos a enfrentar, o economista guineense Carlos Lopes sublinha que com a guerra na Ucrânia houve a aceleração de vários fenómenos. Em particular, a dissociação, ou seja, o afastamento entre as economias ocidentais e as economias de países que estão cada vez mais associados à economia chinesa. 

“Descobri que esse tipo de tensão já estava presente antes da pandemia”, diz o professor universitário, “por exemplo com a guerra comercial que o presidente Trump tinha declarado. Estou convencido de que a guerra na Ucrânia é consequência dessa tensão muito maior e estrutural. A Rússia, cuja economia é muito dependente dos combustíveis fósseis, está a passar por uma das transições demográficas mais dramáticas do mundo, com um envelhecimento considerável da população, que também diminuirá de tamanho. Daí o apego à história e ao mundo de língua russa”. 

Segundo o economista, estas são as principais tendências e mudanças que estão a acontecer e África terá que aprender a lidar com elas e a fazer a transição, mas não será simples. “O continente enfrenta uma crise alimentar, causada tanto por dificuldades logísticas e de abastecimento como por especulação. Segundo os analistas, as quantidades de grãos actualmente disponíveis nos mercados globais estão em níveis historicamente baixos. África não deveria sofrer tanto, mas com as dificuldades causadas pela ausência dos principais produtores Rússia, Ucrânia e Bielorrússia no mercado global, a especulação está a elevar ainda mais os preços. A alimentação tornou-se uma ferramenta estratégica”, afirma Carlos Lopes. 

Como sublinha o académico, os eventos dos últimos dois anos destacaram a importância de acertar a logística. Até porque trinta por cento da produção agrícola na África é perdida devido à má logística. O continente é mesmo o único sem uma rota comercial de costa a costa e onde o interior não é abrangido pelas rotas comerciais importantes. “Isso tem que ser alterado”, diz Lopes. “Felizmente, estamos a ter investimentos significativos em portos, aeroportos e estradas. Mas é preciso fazer mais, especialmente na infra- -estrutura ferroviária”. 

Aprender com as crises 

Como reforça o economista, África tem de aprender com a actual crise alimentar. A primeira lição é consumir muito mais o que o continente produz e menos o que não produz, até porque existem muitas culturas adaptadas a África e muito mais produtivas, nutritivas e resistentes ao clima. Segundo Carlos Lopes, há poucas razões para o Egipto e o Benim importarem mais de 50% de seus grãos da Ucrânia ou da Rússia. 

Depois há a crise energética, que afecta o continente de várias maneiras. “É claro que a inflação atinge a maioria dos países africanos que são importadores combustíveis fósseis”, sublinha. “Mesmo os produtores que exportam petróleo bruto importam produtos refinados para que não fiquem imunes ao aumento do preço da energia. Mas o mais importante nesta frente é a questão do financiamento”. 

“Actualmente há um grande problema de financiamento de qualquer coisa relacionada com os combustíveis fósseis, por isso não conseguimos preencher a lacuna deixada pela Rússia de maneira significativa, devido aos últimos anos de subinvestimento. A terceira crise é macroeconómica. É causada pela falta de acesso ao mercado de capitais. As sanções foram disruptivas e estamos a ver o dólar a valorizar- se. Isso tem repercussões nas taxas de juros a que os países podem conseguir empréstimos, portanto, há muito menos espaço de manobra”, explica o economista, para quem a combinação de todos estes factores está a criar um horizonte de curto prazo particularmente problemático, pelo que se pode esperar um 2022 e 2023 muito difícil. 

A hipocrisia do G7 

O antigo secretário-executivo da UNECA tinha sido uma das vozes que antecipou que a pandemia atingiria duramente África, em grande parte por causa dos danos colaterais que causaria. Mas as outras crises globais e as repercussões das políticas que o Ocidente adoptou contra a Covid agravaram a situação. 

“O G7 certamente serve os seus membros. Mas vimos um alto nível de hipocrisia recentemente. Primeiro por causa da pandemia, na questão das vacinas, e agora à volta da questão da transição energética, onde todos mudam de ponto de vista e de posição para servir os seus interesses. No ano passado, os países diziam que eram contra o gás e agora viajam pelo mundo a gritar por ele. Um dia, dizem- -nos que devemos acabar com o carvão em África, e no seguinte estão a fechar acordos para comprar carvão do Botswana e outros países”. 

“O nível de hipocrisia é tão grande que ninguém acredita nos anúncios que são feitos. Poucos dias antes da cimeira Europa-África, surgiu a iniciativa Global Gateway. África deveria receber 150 mil milhões de euros em 5 anos, mas quando analisamos mais de perto os números, o orçamento da UE tem apenas 33 mil milhões de euros para o mesmo período e não sabemos de onde virá o resto”. 

“Os EUA”, continua Carlos Lopes, “acabam de anunciar 4,5 mil milhões de dólares para apoiar a segurança alimentar em África. Mas as pessoas precisam saber que os gastos com a guerra na Ucrânia são de cerca de 5 mil milhões de dólares por mês. Só a Ucrânia, num mês, recebe mais do que todo o continente africano. No grande esquema das coisas, este anúncio é, na verdade, apenas uma gota no oceano”. 

A solução, segundo o economista, é os africanos desenvolverem as suas próprias construções políticas e definirem o que querem. Como é o exemplo da Área de Comércio Continental Africana [AfCFTA]. Um continente com força e dimensão será fundamental para negociar melhor a nível global e a partir de uma posição de força num mundo cada vez mais turbulento. 

“Temos um papel fundamental a desempenhar nas soluções de amanhã. Se o Ocidente estiver interessado em hidrogénio verde e minerais estratégicos, não o poderão fazer sem o envolvimento de África. E nós? Voltaremos a depender de matérias-primas não refinadas? Ou aproveitaremos a crise para nos posicionarmos melhor e agregarmos valor a estas novas formas de uso dos recursos naturais? Estas questões irão pesar muito na capacidade de negociação da AfCFTA. Eu tenho um ditado: não recebemos o que merecemos; recebemos o que negociamos”, diz Carlos Lopes. 

Enfrentar as negociações 

A importância de saber negociar é reiterada mais à frente pelo professor universitário. Juntamente com críticas aos líderes africanos que cedem facilmente às pressões que sofrem em troca de um lugar na mesa principal. “Parecem mais interessados nas fotos do que em defender nossos interesses”. 

E aponta como exemplo as negociações sobre o clima. Os países africanos são os mais próximos do objectivo zero e a transição justa deveria beneficiar os países que estão mais perto de atingir as metas. “Temos uma espécie de crédito de carbono porque os outros países – que são industrializados – poluem e exploram a natureza. Esses países têm uma dívida de carbono e nós temos um crédito de carbono”. 

Para o economista, saber negociar reflete-se depois nos detalhes. Durante a discussão sobre o novo imposto que será introduzido na União Europeia, para penalizar a intensidade carbónica de certas importações para o espaço europeu, os países africanos pagarão os custos se não negociarem para evitar este imposto que os penaliza. 

“O que está em cima da mesa, e já foi aprovado no Parlamento Europeu, não interessa a África”, diz Carlos Lopes. “A UE diz-nos que vai tributar os produtos que exportamos para os seus mercados, mas pretende dar-nos ajuda para compensar as dificuldades que temos com a transição energética. Isso está a colocar-nos, mais uma vez, numa situação de dependência quando era possível negociar de forma diferente”. 

Reorganizar as prioridades e moldar a estratégia do continente não é fácil, principalmente numa altura em que está a ser pressionado por todos os lados. Por exemplo, para tomar uma posição sobre a questão ucraniana. Como refere o antigo secretário-executivo da UNECA, a maioria dos países africanos não está interessada em tomar uma posição, porque estão familiarizados com a lógica da Guerra Fria e não querem entrar em um jogo onde têm que tomar uma posição. 

“Cada vez que isso acontece, perdemos um conjunto de parceiros e ficamos ainda mais dependentes do parceiro que escolhemos apoiar. E não consigo imaginar um país africano a querer depender da Rússia ou da China. Também não consigo ver os países africanos a quererem depender apenas da boa vontade dos países ocidentais”. 

O futuro do continente

Apesar de algumas visões mais paradas, Carlos Lopes considera que muitos países são já capazes de compreender África como um futuro parceiro importante em termos de comércio, de ser um grande mercado consumidor de 2 mil milhões de pessoas e o continente onde estará metade da juventude do mundo no final do século. 

Para o economista, os países africanos devem parar de tentar ser cópias da democracia ocidental. Ou seja, ter constituições, eleições, parecerem-se como os países ocidentais, sem realmente lidar com o que é a essência da democracia: A capacidade de respeitar a diversidade. 

“É o principal problema em África”, sublinha o académico. “Quem chega ao poder toma conta de tudo. Apropria-se dos meios económicos, do espaço político, estripa o espaço da diversidade cultural e étnica.

Esta é uma das principais causas dos nossos problemas. Um país como a Etiópia, que se industrializava em grande velocidade com transformações e reformas substanciais, está hoje completamente atolado por problemas de etnia. É isso que está a prejudicar nosso crescimento”. 

O economista refere que o continente tem meios para escolher uma trajetória de desenvolvimento diferente. Por um lado, diz, as pessoas já não aceitam facilmente o estado de coisas que lhes é dado, o que está a provocar o que chama de reajuste do espaço político, manifestações que podem ser vistas como o início de uma espécie de questionamento dos modelos que vêm sendo adoptados até hoje. 

“Essas coisas levam tempo e não se muda o modelo da noite para o dia. Mesmo nos países ocidentais, foram necessárias guerras e longos processos de construção institucional. Vejo também que o monopólio da verdade desapareceu. Já não é possível dizer que este ou aquele país é um ponto de referência. Nos países que costumavam servir como pontos de referência para o Ocidente, vimos pessoas sinistras a chegarem ao poder ou à beira do poder”. 

Por fim, Carlos Lopes deixa a receita para que os países africanos não piorem a situação em que se encontram. “No curto prazo, precisamos de nos concentrar em três coisas. Em primeiro lugar, nas negociações sobre a questão da dívida. Também devemos olhar para a maneira como as actuais instituições internacionais estão estruturadas, porque vimos que não estavam à altura da tarefa de lidar com as últimas crises. Por último, os africanos não devem aceitar uma nova onda de medidas derivadas da pandemia. 

A crise está a piorar, por isso precisamos de questionar os instrumentos. E eu penso que essa discussão já começou”, concluiu.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1081 de 17 de Agosto de 2022.

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Autoria:Jorge Montezinho,20 ago 2022 8:24

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  1 dez 2022 23:28

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