Água em Cabo Verde, do tratamento ao consumo

O Expresso das Ilhas foi conhecer como funciona o sector hídrico em Cabo Verde, como é feito o controlo da qualidade de água fornecida à população e como funciona o tratamento das águas residuais, desde a recolha até à distribuição.

O Dia Mundial da Monitorização da Água é uma data celebrada a 18 de Setembro, com o intuito de sensibilizar, consciencializar e envolver na protecção de recursos hídricos em todo o mundo. Em Cabo Verde, segundo os dados definitivos do quinto Recenseamento Geral da População e Habitação (RGPH-2021) do Instituto Nacional de Estatística (INE), 75% dos cabo-verdianos têm acesso a água potável segura.

Qualidade da água

Em conversa com a supervisora do Laboratório de Qualidade de Água da Empresa Pública Intermunicipal de distribuição de água, Águas de Santiago (AdS), Paula Veiga, explicou ao Expresso das Ilhas que o controlo da qualidade de água é feito em diversas etapas. Começa pela higienização e desinfecção de reservatórios, instalação dos sistemas de cloragem (S.C.A), reposição dos desinfectantes até à amostragem ou análises do líquido.

“Uma água é considerada de boa qualidade para o consumo quando é salubre e limpa, isto é, quando não contém microrganismos patogénicos, nem contaminantes em níveis capazes de afectar negativamente a saúde dos consumidores. Para que a água seja salubre e limpa é preciso um rigoroso controlo de qualidade desde que é captada na natureza, para ser tratada e distribuída como água de consumo humano”, elucidou.

No que se refere às reservas e chafarizes, as análises são feitas periodicamente a cada 3 meses. A sua higienização é realizada uma vez por ano ou sempre que houver necessidade, referiu a supervisora da AdS.

Segundo o decreto regulamentar Nº 05/2017, nos chafarizes e casas particulares as análises são feitas uma vez por mês, ou sempre que houver necessidade. Nas dessalinizadoras é feita a análise uma vez por mês, ou sempre que houver necessidade. Nos furos (captação), a análise é realizada uma vez por ano, ou sempre que houver necessidade.

Feedback da população

Maria Helena Sousa, dona de casa residente há mais de 30 anos na Cidade da Praia, conta que antigamente ocorriam algumas alterações na qualidade da água da rede pública, mas garante que a água fornecida hoje em dia é de boa qualidade e pode ser consumida tranquilamente pela população.

“A água fornecida antigamente tinha uma cor mais amarelada e também o cheiro remetia a produtos de limpeza como a lixívia. Hoje a água fornecida tem uma cor transparente e nenhum odor, dá confiança de que pode ser consumida tanto para confeccionar alimentos como para beber”, atestou.

Por sua vez, Geisa Semedo confessa que não usa água da rede para consumo, mas acrescenta que não tem nenhum receio em usá-la nas tarefas de casa, nem mesmo para cozinhar. A jovem conta com um filtro de água para melhorar a qualidade, mas sublinha que são meras precauções para garantir uma vida mais saudável.

“Em casa eu tenho um filtro de água que melhora a sua qualidade. Por sermos só duas pessoas residentes na casa, uso água engarrafada para beber e água do filtro para cozinhar. Confesso que nem sempre é assim, quando tenho necessidade recorro à água da rede sem nenhuma restrição. O cuidado é simplesmente por questão da saúde, o meu marido faz hemodiálise, então o cuidado é para auxiliar no seu tratamento mas, do resto, uso água da rede para tudo.”

Águas residuais

A responsável pela área de Saneamento no Município da Praia, Maria Alice Leal, explica que no que se refere às águas residuais, a recolha é feita através da rede de esgotos, ou seja, através de ligações domiciliares.

Segundo esta responsável, o tratamento das águas residuais fica a cargo das Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) que têm capacidade para receber 8 mil m³ diários. A ETAR foi construída em 1997 para o tratamento primário das águas residuais, mas em 2007 foi remodelada para tratamento secundário e terciário, mais o tratamento das lamas.

Maria Alice Leal indica que na ETAR trabalham com quatro processos de tratamento.

O tratamento preliminar, que serve para filtrar os resíduos mais grosseiros, flutuantes e sedimentáveis, através da gradagem (utilização de grades); a desaneração que tem como objectivo remover as areias e o desengorduramento, que remove as gorduras das águas residuais.

No tratamento primário por decantação remove-se as lamas e as gorduras, um processo físico de sedimentação de partículas, mas, por vezes adicionam-se químicos para ajudar na floculação, ou seja, para os sedimentos se tornarem maiores e serem mais facilmente decantados. O tratamento secundário já é um processo biológico, realizado por bactérias (aeróbias – com oxigénio e anaeróbias – sem oxigénio), que degradam os compostos orgânicos resultantes do processo anterior.

“Na ETAR do Palmarejo o processo é por lamas activadas e temos uma experiência piloto por MBR (Membranas) que tem capacidade para tratar 50 m³ por dia. Pode ser feita através de lamas activadas (biomassa suspensa) ou através de lagunagem (sistemas aquáticos por biomassa suspensa). São tratado, em média, 2.800 a 3.000 m³ por dia”, acrescentou.

Para assegurar a qualidade das águas residuais, há um outro tratamento que é o arejamento, que permite remover alguns poluentes (como ferro, manganês e dióxido de carbono) e repor os níveis de oxigénio na água residual antes de a libertar para o meio receptor. O Tratamento Terciário, sendo o tratamento de desinfecção e controlo de nutrientes, para eliminar bactérias e vírus.

“A adição de cloro é a mais comum, também por ser menos dispendiosa, mas a remoção de vírus não é completamente eficaz. Existem actualmente outros processos mais avançados de ozonação, ultravioletas, filtração por areias e membranas. Apenas é utilizada 50 m³ da experiência piloto, o resto vai para o mar através de um emissário”.

Vantagens de tratamento das águas residuais

Maria Alice Leal indicou que a primeira vantagem em tratar as águas residuais em Cabo Verde é na saúde pública. Reduz a proliferação de moscas e mosquitos e, consequentemente, as doenças a elas associadas, como diarreias, paludismo, dengue.

Também pode ser uma vantagem no uso na agricultura, na irrigação dos espaços verdes, na construção civil e outros. Mas, “a reutilização das águas residuais tratada é ainda uma prática incipiente em Cabo Verde. O volume das águas residuais tratadas é obviamente baixo face às necessidades de água estimadas para rega. O aumento da disponibilidade de água nas redes de abastecimento e melhorias das condições de recolha e tratamento das águas residuais são, no entanto, os pressupostos necessários para se poder aumentar o nível de reutilização de água em Cabo Verde contribuindo assim para a redução da pobreza, melhoria da qualidade de vida das pessoas aumentando a disponibilidade da água dessalinizada e na reutilização de água”, defende.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1085 de 14 de Setembro de 2022.

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Autoria:Edisângela Tavares (Estagiária),18 set 2022 8:22

Editado porFretson Rocha  em  19 set 2022 14:35

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