Alunos e professores relatam casos de violência e roubos na escola

A segurança nos estabelecimentos de ensino vem sendo alvo de diversos questionamentos diante do cenário actual. Conflitos entre grupos rivais, agressões físicas e caçobody, relatados pela comunidade educativa, trazem para a ordem do dia a questão da segurança nas escolas. O Expresso das Ilhas foi entender melhor a realidade de algumas escolas da capital do país.

A escola é um espaço associado ao desenvolvimento e à aprendizagem, fenómenos que demandam cuidado na sua prática. Actualmente, a nossa sociedade vem testemunhando práticas de violência entre adolescentes, estudantes envolvidos com grupos de delinquentes que acabam por eleger os estabelecimentos de ensino como palco para conflitos, abrindo assim uma brecha para o aumento da insegurança e criminalidade.

Relato dos alunos

Em conversa com o Expresso das Ilhas, alguns alunos relataram casos de violência e insegurança que enfrentam no trajecto casa/escola, nos arredores dos estabelecimentos de ensino e até mesmo dentro do recinto escolar. Duas alunas entrevistadas, na Praia, contam que já foram alvo de ameaças por parte de jovens que não pertenciam à escola que frequentam, mesmo estando no interior do estabelecimento.

“Um dia, estávamos de folga num cantinho mais ao fundo, dentro da escola. Além do muro, tem protecção de arames e um grupo de rapazes começou a perturbar-nos pedindo nossos lanches. Eu recusei e os eles disseram que iriam subir e matar-nos. Eram jovens de aparência duvidosa, sentimos medo e fugimos. Avisei de imediato o director e logo fugiram”, lembram.

Melissa e Adilsa, as alunas abordadas, relatam ainda que os assaltos acontecem com muita frequência nos arredores da escola. É normal depararem-se também com pessoas a fumar marijuana e os conflitos entre grupos de “thugs” na saída já são algo sempre esperado.

Emerson, nome fictício, conta que ao redor do liceu que frequenta há sempre jovens de grupos de delinquentes a importunar os alunos, criando provocando conflitos e, em algumas situações, assediando as alunas.

“Temos que dizer que existem alunas que namoram os rapazes que pertencem aos grupos de delinquentes e estes, no final das aulas, estão sempre à porta esperando as suas namoradas. Enquanto isso os outros alunos ficam expostos à violência, porque há vários grupos que se encontram na porta e arredores da escola. Temos ainda estudantes thugs, que estão em conflitos com outros grupos, e a quem os amigos vêm acompanhar ao sair da escola. Uma espécie de seguranças”, apontou.

As escolas

O director da Escola Polivalente Cesaltina Ramos, António Afonso Tavares, admite que situações preocupantes ocorrem também na sua escola. Já foram, por exemplo, registados casos de alunos que entram no registam com armas de fogo e armas brancas. Os alunos alegaram que as armas são para a defesa pessoal no trajecto escola/casa e não para ser usadas dentro da escola contra os colegas.

Também já “foram apanhados alunos a fumarem. Avisamos os encarregados, que por sua vez, normalizam a situação e justificam que ‘a padjinha não afecta em nada’. A Polícia da Escola Segura tem sensibilizado os nossos alunos regularmente. Um trabalho de prevenção e não temos problemas com eles. Pedimos reforço, mais polícias. A escola é reflexo da sociedade. Além de ter policiamento nas escolas seria bom haver também um patrulhamento no trajecto desses alunos. Temos vizinhanças não agradáveis, vendem bebidas alcoólicas e drogas, é bom estar sempre atento”, sublinhou.

Por sua vez, o director do Liceu Manuel Lopes e director do agrupamento 9 da Praia, Marcos Costa, apontou que os assaltos aos membros daquela comunidade educativa têm sido algo alarmante. O director mencionou casos de porte de armas brancas nas imediações da escola. Os alunos, quando confrontados com a posse de armas, alegam que as receberam de um amigo de fora da escola.

“A maior ocorrência é referente a arma branca. Já tivemos casos de agressão a alunos da escola, mas não dentro da escola, e também brigas entre grupos rivais, a que por vezes os nossos alunos pertencem nos respectivos bairros. Tem havido desentendimento entre jovens de diferentes bairros e escolhem a escola para palco dos confrontos, com agressão física”, lamentou.

“Estamos a reflectir sobre a questão da insegurança e a escola adoptou uma medida provisória. A rua da nossa escola é algo que nos causa muita preocupação, pois é uma via pública que não temos como controlar. Temos um projecto para requalificação e vedação da escola, com ideia de que a escola funcione no regime semifechado. A ideia é, pois, vedar, mudar a ponte ao lado para uma outra rua e criar condições para que os alunos estarem em maior segurança no período das aulas, porque a escola fica no cruzamento de vários bairros, tudo pode vir a desembocar aqui”, adiantou.

Também Marcos Costa sublinha que o comportamento dos alunos espelha a realidade dos bairros e, muitas vezes, a realidade familiar e é necessário que cada agente educativo cumpra o seu papel. Entretanto, a escola está em colaboração com as esquadras policiais no âmbito do Projecto Escola Segura e sempre que o policiamento é solicitado, estas respondem prontamente.

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“Na rua da escola, se as pessoas passarem desatentas, são alvo de assaltos. Temos relatos de alunos que se queixam de assaltos principalmente no trajecto casa-escola. Temos alunos de vários bairros, os alunos de Ponta d’água ao descer, passam por Vila Nova e Safende e sempre são alvos dos delinquentes. Também os alunos do outro lado - como Eugénio e Lima e Achadinha - são alvos frequentes dos delinquentes. É uma questão muito complicada. Nós queremos assegurar que pelo menos dentro da escola os alunos estarão seguros”, destacou.

Por seu turno, o director do Liceu Domingos Ramos, José Augusto Fernandes, considera que, no geral, a escola é um espaço seguro, mas, diz na mesma linha dos outros directores, a escola é o reflexo daquilo que acontece na sociedade e na comunidade. Este responsável admite que, esporadicamente, ocorrem casos de violência, sem que porém se configure uma situação “gritante”.

O Liceu, acrescenta, trabalha com os encarregados de educação, sensibilizando-os em relação aos seus educandos. Promove também encontros com os alunos na escola através dos directores de turma e, através do gabinete de orientação profissional, realiza acções de sensibilização dos alunos. São ainda realizadas diversas palestras com especialistas da área para tentar sensibilizar os alunos dos males que afectam a nossa sociedade.

“Estamos a sinalizar os alunos com comportamento de risco, levando-os para visitas ao espaço Orlando Pantera e trouxemos especialistas da área para fazer sensibilização. De uma forma geral a escola faz o seu papel no sentido da sensibilização. Agora, a escola sozinha não pode e não consegue combater [todos os problemas], pois a escola tem um papel importante, mas também a família, como uma célula da sociedade, tem um papel complementar. Aliás, não só a família, mas todos os agentes da sociedade, como a vizinhança. Hoje vemos, por exemplo, que há nuitos problemas que surgem na sociedade porque existe intolerância”, analisou.

José Augusto Fernandes informou ainda que a escola está em estreita colaboração com as autoridades e estas desenvolvem acções de sensibilização e intervêm prontamente quando necessário.

“Nós agradecemos bastante o papel da Polícia Nacional. O Estado é um parceiro que sempre solicitamos. O nosso espaço tem muita afluência de alunos e nós estamos a assistir a visitas periódicas de agentes de segurança o que nos dá satisfação. Às vezes fazendo uma abordagem pedagógica [há resultados]. Qualquer situação [anómala] eles trazem os alunos, temos situações de alunos menores que são trazidos para a direcção da escola e contactamos os encarregados de educação. Nós achamos que a polícia faz um trabalho muito dialogante e pedagógico em relação à própria problemática de segurança na nossa escola. São parceiros muito importantes para a escola”, acrescentou.

Projecto Escola Segura

O chefe da esquadra da Polícia Nacional, actualmente comandante adjunto da esquadra de Achada Santo António, Fernando Pina, advoga que o Projecto Escola Segura é muito importante e tem dado contributos significativos na segurança das escolas.

“Actualmente deparamo-nos com algumas ocorrências nas escolas, em relação a armas de fogo, armas brancas e drogas. Não podemos generalizar, mas temos escolas que têm gerado alguma preocupação. Enquanto autoridade, atribuímos atenção redobrada a estas escolas, identificadas com certos comportamentos de risco. Mas é importante esclarecer que só a polícia, em si, não consegue dar vazão a todas as ocorrências referente as escolas”, observa.

Este responsável aponta entre os objectos apreendidos nas escolas, armas de fogo, armas brancas, lancetas, X-atos e outros e também drogas, nomeadamente marijuana.

“Temos várias apreensões feitas. Temos alunos que já foram apresentados ao Ministério Público por posse de arma na escola. Lamentamos as situações em que não somos solicitados a intervir. Há escolas que pregam a política de segurança, mas, ao fim ao cabo, acabam sempre por solicitar os serviços da polícia. Prova disso, recentemente recebemos um leque de armas na esquadra, como armas brancas, x-atos e lancetas, provenientes das escolas. Porém, muitas vezes, escola efectua a apreensão mas não dá conhecimento as autoridades na altura da ocorrência, o que dificulta o nosso trabalho de identificarmos os respectivos alunos e desenvolver um trabalho de sensibilização ou uma outra abordagem para combater este comportamento de risco”, ressaltou.

Em relação aos professores, o Fernando Pina refere relatos de professores que apresentam queixa contra alunos que os ameaçam com armas de fogo, armas brancas e entre outras, sendo que estas ameaças já ocorreram dentro e fora da sala. Por vezes, inclusive, os professores ficam à mercê destes alunos, com medo de represálias. São alunos, de acordo com o Comandante da polícia, que fora do recinto escolar têm comportamentos à margem da lei e que acabam por levar estes comportamentos para a sala de aula.

Este representante da autoridade destaca que as escolas são diariamente vigiadas pela polícia e existem viaturas destacadas para as mesmas.

“Temos que pontuar que hoje temos estudantes que cometem delitos fora da escola, mas que como são alunos, os rivais acabam por os procurar na escola porque sabem que estão ali. Temos alunos dentro da escola que são rivais, ou de grupos rivais, temos alunos que os rivais são de fora da escola mais que os procuram aí. Isto faz com que no horário da saída ocorram caçobody, agressões e diversos tipos de conflitos”, relata.

Fernando Pina conta ainda que os alunos reportam assaltos e agressões, mas, pontualmente, quando a polícia pede informações se, recusam a colaborar. Entre as acções do Projecto Escola Segura está a realização de palestras a fim de sensibilizar os alunos sobre o que deve e não deve ser levado para a escola.

“Muitas vezes por falta de revista, porque as escolas não têm estado a revistar os alunos - o porquê foge o nosso conhecimento – entram armas e acabam por acontecer conflitos. Algumas escolas já manifestaram interesse em ter uma colaboração mais estreita com a polícia, a fim de realizar palestras nas salas de aula e fazer revistas na sala, incluindo às mochilas dos estudantes. Isso ainda não aconteceu devido a outros assuntos pendentes, mas é um projecto que está em andamento. Queremos uma escola segura para toda a comunidade educativa”, assegurou.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1101 de 4 de Janeiro de 2023. 

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Autoria:Edisângela Tavares (Estagiária),8 jan 2023 7:58

Editado porDulcina Mendes  em  8 jun 2023 23:28

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