“Endometriose não é frescura... é uma dor real”

PorSheilla Ribeiro,5 abr 2025 7:50

Todo o mês, a mulher vivencia o ciclo menstrual. Entretanto, para muitas, a chegada do ciclo, traz consigo uma dor forte, uma queimação intensa e um aperto sufocante. Nesses dias, até respirar parece doer. Movimentos simples tornam-se tortura, e a exaustão é constante. É assim uma rotina imposta pela endometriose, uma doença silenciosa que rouba qualidade de vida, desafia diagnósticos e muitas vezes é invisível aos olhos de quem não sente.

Todos esses sintomas foram descritos por Rizy Neves, de 30 anos, que há mais de um ano vive com dores intensas causadas pela endometriose. “Os primeiros sintomas da endometriose surgiram há um ano, o diagnóstico veio depois de uma série de exames”, relata.

Antes do diagnóstico, Rizy pensava tratar-se apenas de cólicas menstruais, embora mais intensas do que as que sentia enquanto tomava contraceptivos. “Sempre tive muitas cólicas, mas nada comparado às que comecei a sentir há um ano, que são dores bem mais intensas. E antes do diagnóstico sofria essas dores sem procurar ajuda médica para saber o que sentia, se eram somente cólicas. Até porque eu nem tinha ideia de que podia ser algo além de cólicas menstruais”, diz.

Segundo a jovem, o contraceptivo amenizou muito a dor. Mas, ao decidir parar de tomar a pílula, a dor intensificou-se de tal forma que, quando chegava a menstruação, a sua rotina ficava totalmente diferente. “A dor ainda atrapalha porque ainda não fiz nenhum tratamento”, acrescenta.

A rotina no período

Rizy Neves relata que antes do diagnóstico, no primeiro dia do período, as dores eram tão intensas que deixava de ir trabalhar. A pressão também baixava muito. “Até cheguei a desmaiar no trabalho devido às cólicas, que fizeram com que a minha pressão chegasse a 8. Eu sentia tonturas, mal-estar”, narra.

O episódio do desmaio fez com que Rizy procurasse por ajuda médica, pois despertou o alarme de que realmente algo não estava certo. “Fui para à urgência, mandaram fazer uns exames ao coração devido à pressão baixa, falei que estava com muita cólica e recomendaram que eu procurasse um ginecologista”, descreve.

Após exames mais detalhados indicados pela ginecologista, Rizy recebeu o diagnóstico de endometriose profunda e que já tinha afectado o intestino. “Disseram que o meu estado estava um pouco mais avançado, que eu teria de dar mais importância e que tinha que tentar cuidar-me”, recorda.

Uma das principais recomendações era a mudança rigorosa na alimentação. Rizy admite que considerava ter uma boa alimentação, mas o médico advertiu-a que quem sofre de endometriose tinha que ter uma dieta mais restrita.

“Sem carne vermelha, sem leite, ou seja, tinha que deixar de consumir tudo o que é inflamatório para o corpo”, aponta. Também lhe foi sugerida a colocação de um Dispositivo Intrauterino (DIU) para evitar o ciclo menstrual e, consequentemente, reduzir as dores.

“A dor é o que mais incomoda. É tanta dor que eu não estava nem conseguindo andar no primeiro dia da menstruação, queria ficar deitada o dia todo, porque é dor no corpo todo, dor nas costas, dor que impossibilita de realizar actividades que realizo no dia-a-dia”, enfatiza.

O marido, segundo conta, também sente os efeitos da dor causada pela endometriose. “Ele não apenas fica preocupado com as dores que eu sinto, mas também tem outro efeito: de stressar com tudo, ficar mais sensível do que o normal e outras coisas”, detalha.

A endometriose pode afectar a fertilidade, um facto que Rizy tem em mente. “Mas actualmente não tenho vontade de ser mãe. Quem sabe se daqui para frente isso pode mudar. Mas já vi muitas mulheres que sofrem deste mal e que conseguiram engravidar”, argumenta.

Agora, a jovem prepara-se para dar seguimento ao tratamento e melhorar a sua qualidade de vida. “Já tenho consulta marcada com uma nutricionista, vou focar em trabalhar essa parte da alimentação e dar seguimento a essa doença” garante.

Sintomas e diagnóstico

Ao Expresso das Ilhas, a Ginecologia e Obstetrícia, Nilce Santos, explica que a endometriose é uma doença inflamatória crónica que ocorre em mulheres em idade reprodutiva, uma vez que está relacionada com a menstruação.

A especialista descreve a doença como uma condição em que o tecido endométrial, que normalmente reveste o útero, cresce fora do seu local habitual, afectando órgãos como os ovários, intestino, bexiga e, em casos raros, até mesmo o pulmão. “Trata-se da presença desse tecido endométrial fora do local habitual, que seria o útero”, clarifica.

Esse crescimento anormal pode levar a inflamações, formação de aderências e até mesmo nódulos que comprometem as funções dos órgãos afectados. Embora a doença não seja fatal, as suas complicações podem ter impacto severo na saúde física e mental das mulheres.

Conforme a especialista, a dor é o sintoma mais comum da endometriose, normalmente caracterizada por cólicas menstruais intensas e progressivas. “É uma dor intensa que não melhora significativamente com medicação comum”, explana.

A dor pode manifestar-se também durante a evacuação, a relação sexual ou ao urinar. Outros sintomas incluem infertilidade, diarreia ou obstipação durante o período menstrual, fadiga, inchaço abdominal e distúrbios gastrointestinais.

“Muitas vezes, a mulher apresenta queixas digestivas e só após uma investigação detalhada descobre que tem endometriose”, exemplifica.

O diagnóstico pode ser tardio, pois nem todas as mulheres apresentam sintomas graves ou específicos.

Nilce Santos observa que o diagnóstico definitivo é feito por meio de exames como ecografia transvaginal, ressonância magnética e, em casos mais complexos, por laparoscopia, um procedimento cirúrgico minimamente invasivo que permite visualizar directamente os focos da doença.

Tratamento em Cabo Verde

Segundo a especialista, o tratamento para a endometriose pode incluir medicação, mudança no estilo de vida, e, em casos mais graves, cirurgia.

Ou seja, o tratamento é multidisciplinar e pode incluir desde o bloqueio hormonal, até mudanças alimentares e fisioterapia para o alívio da dor, conforme Nilce Santos.

O custo do tratamento depende do que for proposto pelo médico e das queixas das pacientes.

Medicamentos como contraceptivos orais, implantes hormonais e dispositivos intrauterinos são utilizados para suprimir a menstruação e reduzir os sintomas.

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“Se for utilizar uma pílula ou fazer um bloqueio menstrual, isso pode ser como uma opção, mas tem opções também que se pode fazer, que é acessível e que a mulher pode usar continuamente”, diz.

“A o DIU não é disponibilizado no público, tem que ser comparticipado, mas ao se pesar a vantagem e a duração desse tratamento acaba sendo válido. Claro, não é algo que também é disponível e acessível a todos. Isso realmente pode ser uma dificuldade, mas temos disponíveis no país”, prossegue.

O custo do tratamento contínuo representa um grande desafio. Nilce Santos diz que muitos medicamentos utilizados para controlar a endometriose não estão disponíveis no sistema público de saúde, forçando as pacientes a recorrerem à compra no sector privado, onde os preços podem ser proibitivos.

Mais, os tratamentos mais avançados podem ser caros e inacessíveis para muitas mulheres em Cabo Verde.

“A oferta da laparoscopia ainda é limitada”, lamenta.

Embora haja avanços na Praia, noutras regiões do país o acesso a esse procedimento ainda é escasso, o que obriga muitas mulheres a buscarem tratamento no exterior, conforme diz.

“A laparoscopia não é feita com facilidade, por exemplo, aqui em São Vicente ainda não fazemos na área ginecológica, mas na Praia já foi feito. Depois parou-se e retomou-se novamente, então não é algo ainda que esteja ainda bem instituído. Mas isso também porque precisa de uma mão-de-obra mais especializada”, explica.

Impacto da endometriose na qualidade de vida

A endometriose não afecta apenas a saúde física, mas também tem um impacto na vida emocional, social e profissional das mulheres. A dor crónica pode levar à ausência frequente no trabalho ou nos estudos, o que prejudica a produtividade e a estabilidade financeira, conforme detalha Nilce Santos.

Muitas mulheres relatam dificuldades nos relacionamentos devido à dor durante as relações sexuais (dispareunia) e à frustração causada pela infertilidade.

“A endometriose pode comprometer a autoestima e até levar à depressão”, aponta a especialista.

A falta de compreensão por parte da sociedade também é um factor agravante. Como a doença não é visível, muitas mulheres são rotuladas como exageradas ou fracas, o que dificulta a busca por apoio. “Muitas mulheres acreditam que cólicas menstruais intensas são normais e não buscam ajuda. A endometriose não é frescura, é uma dor real, bem real e é muito difícil”, reforça.

Desafios

Recentemente, Portugal promulgou um regime de falta justificada para mulheres com endometriose, reconhecendo o impacto incapacitante da doença.

Em relação a Cabo Verde, Nilce Santos acredita que é necessário dar mais atenção à doença e aos seus efeitos, já que nem sequer existe dados sobre a sua incidência. “É algo que deve merecer uma atenção especial”, diz.

Embora uma medida semelhante possa ainda demorar a ser implementada em Cabo Verde, a especialista considera essencial aumentar a consciencialização sobre a endometriose e melhorar o acesso ao diagnóstico e tratamento.

“É preciso que haja mais programas de sensibilização para que as mulheres conheçam os sintomas e saibam quando devem procurar ajuda médica”, defende.

A descontinuidade no tratamento também é um problema frequente, especialmente devido ao custo dos medicamentos e à dificuldade de acesso a tratamentos especializados. “Se forem tratamentos mais específicos, pelo custo temos uma certa descontinuidade”, revela a especialista.

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Segundo a OMS, a endometriose afecta aproximadamente 10% (190 milhões) das mulheres e meninas em idade reprodutiva em todo o mundo. Actualmente, não existe uma cura conhecida para a endometriose, e o tratamento geralmente é voltado para o controlo dos sintomas. O acesso ao diagnóstico precoce e a um tratamento eficaz é essencial, mas é limitado em muitos contextos, especialmente em países de baixa e média renda, conforme a organização. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1218 de 2 de Abril de 2025.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,5 abr 2025 7:50

Editado porSara Almeida  em  5 abr 2025 21:20

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