“É possível, porque falta-nos pouco para chegarmos a 95% de pessoas com carga viral suprimida. Hoje, com medicamentos potentes que eliminam o vírus do corpo, vamos conseguir”, juntamente com uso generalizado de preservativo, entre outras formas de prevenção, disse em entrevista à Lusa.
O 01 de dezembro, data em que se assinala a luta global contra o vírus da imunodeficiência humana (VIH), já foi celebrado em tempos muito difíceis, mas na última década tudo mudou.
“Não havia esperança, havia muito medo, mas a partir de 2004 foi introduzido o primeiro tratamento antirretroviral em Cabo Verde e foi um marco histórico”, que transformou a infeção pelo HIV numa doença crónica.
Ao início “eram coquetéis, muitos comprimidos, mas hoje é só um” e, a nível social, cresceu o conhecimento, diminuiu o estigma e cresceu a inclusão que permite às pessoas terem autoestima, tratarem-se sem serem postas de parte, nota Celina Ferreira.
Cabo Verde oferece prevenção, testes e tratamento antirretroviral para o VIH/Sida em todos os centros de saúde das nove ilhas habitadas, além de dinamizar grupos comunitários.
“Quem estiver exposto ou quem estiver infetado, não tem razão para não estar sob tratamento” ou conhecer medidas de prevenção, disse.
Mas ainda há trabalho a fazer. Os últimos dados, relativos a 2018, indicam que Cabo Verde tem uma taxa de prevalência de 0,6% e uma média de 400 casos anuais, números que ainda podem ser atualizados até final do ano, caso sejam apurados os resultados do 4.º Inquérito Demográfico e de Saúde Reprodutiva (IDSR-IV), realizado entre julho e setembro, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) do arquipélago.
Ao nível dos três pilares de combate, 96% das pessoas que vivem com VIH sabem do seu diagnóstico, 81% estão em tratamento antirretroviral ativo (cerca de 3.400 pessoas) e 68% destas têm a carga viral suprimida (as Nações Unidas preconizam a estratégia 95-95-95 nos três pilares).
Celina Ferreira, refere que os 68% do terceiro pilar são um valor mais baixo que a realidade, porque tem sido afetado pela mobilidade entre ilhas e pela emigração, fazendo com que muitas pessoas deixem de ser rastreadas – apesar de já não transmitirem o vírus.
Agora, é preciso “controlar a carga viral suprimida”, ou seja, manter os doentes dentro do tratamento para, assim, deixarem de transmitir o vírus, bem como “controlar todos os aspetos ligados ao estigma” com o objetivo de chegar a uma “discriminação zero”.
“Se se fizermos isto tudo, nós vamos alcançar a meta da eliminação em 2030”, o que quer dizer que deixa de haver novos casos, haverá apenas os que estão controlados, refere.
É preciso “que cada um faça a sua parte, porque isto depende de atitudes e comportamentos”, afastar os riscos com uso de preservativo ou outros meios, por exemplo, acrescentou.
“A nível de políticas, é preciso eliminar todas as barreiras, para todas as pessoas acederem livremente” aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento em todos os centros de saúde, de todas as ilhas.
Celina Ferreira admite que “faltam alguns recursos financeiros para fazer grandes campanhas”, mas também diz que estas campanhas, por vezes, têm as suas desvantagens: Cabo Verde privilegia uma estratégia “de proximidade”, com animadores e educadores de pares” nas escolas e nas comunidades – “mas é preciso motivá-los, reciclá-los” e usar novas tecnologias, alerta.
Para já, Cabo Verde solicitou à Organização Mundial de Saúde (OMS) a certificação da eliminação da transmissão vertical (de mãe para filhos), sem casos registados nos últimos anos, sendo aguardada a visita de uma comissão de avaliação em 2026.
Celina Ferreira diz-se preocupada com grupos onde o VIH ainda tem prevalências mais altas, como “as pessoas portadoras de deficiência (2,3%), as trabalhadoras de sexo (3.9%), toxicodependentes (3.1%) e homens que fazem sexo com outros homens (9.5%)” – além da histórica vulnerabilidade biológica e socioeconómica das mulheres.
“A estratégia de Cabo Verde é trabalhar junto dessas populações, com as prevalências mais elevadas”, concluiu.
Foto: depositphotos
homepage








