Morreu José Filomeno Monteiro, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros

PorAndré Amaral,10 dez 2025 10:06

Cabo Verde perdeu esta segunda-feira, 8 de Dezembro de 2025, uma das personalidades mais marcantes da sua diplomacia contemporânea. José Filomeno de Carvalho Dias Monteiro, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Regional e diplomata de carreira, faleceu na Cidade da Praia, aos 70 anos. O funeral realizou-se esta terça-feira no Cemitério da Várzea.

Natural da Cidade da Praia, José Filomeno Monteiro construiu uma carreira longa e diversa ao serviço do Estado. Entre 9 de Outubro de 2024 e 29 de Outubro de 2025, foi titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, assumindo igualmente as Comunidades. A sua passagem pelo Governo ficou marcada pelo reforço da diplomacia económica, pela reaproximação a parceiros estratégicos e pela atenção particular às relações com a União Europeia e com os países da região.

A carreira diplomática de José Filomeno Monteiro estendeu-se por várias décadas e por geografias fundamentais para Cabo Verde. Foi Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário junto do Reino da Bélgica, do Reino dos Países Baixos e da Hungria, bem como Representante Permanente junto da União Europeia entre 2016 e 2024. Antes disso, desempenhou funções como Cônsul-Geral em Hong Kong, entre 1993 e 2000, numa fase de profundas transformações no Pacífico e de oportunidade para a diplomacia cabo-verdiana. Serviu ainda em outros postos e missões, contribuindo de forma decisiva para o posicionamento externo do país.

Para além da diplomacia, teve uma presença relevante na vida política nacional. Foi Deputado da Nação nas legislaturas de 2001–2006 e 2011–2016, períodos durante os quais presidiu à Comissão de Relações Externas, Cooperação e Comunidades. O seu trabalho parlamentar era frequentemente destacado pela precisão técnica, pela profundidade dos debates e pela capacidade de contextualizar temas complexos da política internacional.

A morte de José Filomeno Monteiro motivou reacções sentidas. O Governo de Cabo Verde, em nota oficial, manifestou “profundo pesar pelo falecimento do ex-ministro José Filomeno de Carvalho Dias Monteiro”, destacando “a sua dedicação ao serviço público e o relevante contributo que deixou para o país”. Na mesma comunicação, o Executivo expressa “à família, aos amigos e a todos aqueles que o acompanharam ao longo da sua vida a nossa sincera solidariedade” e deixa “uma palavra de conforto e respeito pela sua memória”. A nota sublinha ainda a amplitude do percurso diplomático de Monteiro e o impacto do seu trabalho na política externa cabo-verdiana ao longo de décadas.

Também o Presidente da República, José Maria Neves, prestou uma homenagem marcada por forte emoção, considerando o antigo ministro “um senador da República, um homem grande das Ilhas”. O Chefe de Estado lembrou “um homem maiúsculo”, cuja dedicação à diplomacia, à política e ao serviço público deixa “um legado de grande valor”. Neves evocou a postura elegante de José Filomeno, a vasta cultura que o caracterizava e o domínio rigoroso dos dossiers internacionais. “Ele dominava os dossiers, tinha um conhecimento vastíssimo sobre política, economia e geoestratégia. Era sempre um prazer ouvi-lo”, afirmou.

O Presidente destacou igualmente a forma elevada com que o antigo ministro conduzia a discussão pública, sublinhando a urbanidade, o rigor e a profundidade intelectual que o distinguiam em qualquer debate. Para José Maria Neves, José Filomeno Monteiro continuará a ser uma inspiração para as novas gerações de diplomatas, governantes e quadros do Estado, pelo sentido de missão, clareza analítica e profissionalismo que marcaram todo o seu percurso.

Um homem marcado pela curiosidade

No elogio fúnebre feito no átrio principal no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Embaixador Hércules Cruz recordou um homem marcado pela curiosidade sem limites, pela entrega total à vida e pela capacidade rara de conversar e estabelecer laços imediatos. Foi lembrado um jovem que, em finais dos anos 60, já mostrava fascínio pelo mundo para além do seu bairro em Achada Santo António. Viajava em espírito através das rádios, das histórias de emigrantes e das leituras que devorava.

A mesma curiosidade transformou-o num poliglota natural. Bastava ouvir uma palavra estrangeira para começar uma bateria de perguntas. Voltava às conversas dias depois, com novas expressões, novas referências, nova vontade de aprofundar. Esse gosto pelas línguas e pelas pessoas moldaria para sempre o diplomata que viria a ser.

Hércules Cruz relembrou também o papel de José Filomeno Monteiro enquanto deputado nos mandatos entre 2001-2006 e, posteriormente entre 2011 e 2016, período em que presidiu à Comissão de Relações Externas, Cooperação e Comunidades. Foi um parlamentar respeitado, dono de uma oratória assinalável, incisiva, humorada muitas vezes, sem nunca se deixar resvalar para o campo das ofensas ou abusos.

Foi também Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro. O seu último serviço público foi no cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Regional.  No mesmo momento, foi ainda sublinhado o período passado nos Estados Unidos, onde estudou Gestão e Administração de Empresas, ampliando horizontes e aprofundando capacidades que mais tarde se tornariam fundamentais no exercício da diplomacia. José Filomeno Monteiro foi descrito como “um diplomata natural”, não apenas pela inteligência e criatividade política, mas pela afectividade com que construía amizades, alianças e espaços de influência úteis para Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1254 de 10 de Dezembro de 2025.

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Autoria:André Amaral,10 dez 2025 10:06

Editado porClaudia Sofia Mota  em  12 dez 2025 10:06

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