Segundo José Benvindo Lopes, assim como a tendência mundial e a tendência africana, as principais causas de morte por doença oncológica, em Cabo Verde, incluem o cancro da próstata, da mama, do colo do útero, do fígado e do cancro colorrectal.
De acordo com o presidente da ACLCC, quando se observa apenas a população masculina, o cancro da próstata assume clara predominância. Já entre as mulheres, o peso recai sobretudo sobre o cancro da mama e o do colo do útero.
Embora existam referências internacionais que apontam o cancro da pele como um dos mais frequentes mundialmente, José Benvindo Lopes esclarece que essa realidade não se reflecte de forma significativa em Cabo Verde.
“A nível mundial, o cancro da pele é o mais prevalente, mas em Cabo Verde os dados mostram que, entre as mulheres, o cancro da mama ocupa o primeiro lugar, seguido do cancro do colo do útero”, afirma.
Apesar da existência de dados estatísticos e de relatórios, o responsável alerta para a necessidade de estudos mais aprofundados que permitam uma leitura rigorosa da prevalência da doença por ilhas e concelhos.
“Nós, enquanto associação, temos uma noção baseada no trabalho de campo que realizamos, sobretudo através das campanhas de rastreio, mas não podemos afirmar, com rigor científico, que uma ilha tem maior prevalência do que outra sem um estudo específico”, advertiu.
Diagnóstico tardio e falta de especialistas
Uma das maiores preocupações da ACLCC prende-se com o facto de a maioria dos casos de cancro continuar a ser diagnosticada numa fase avançada da doença, muitas vezes por atrasos na procura de cuidados médicos.
“Quando analisamos os dados, grande parte dos nossos casos são diagnosticados tardiamente, numa fase já avançada”, lamenta José Benvindo Lopes. Entretanto, reconhece que se registaram melhorias.
“Com a introdução de programas de sensibilização e com o trabalho desenvolvido por várias entidades, a população ficou um pouco mais sensibilizada e notamos uma melhoria na procura e nos diagnósticos mais precoces. Mas, ainda assim, o diagnóstico tardio continua a prevalecer”, acrescentou.
Entre as razões apontadas para esta realidade estão factores culturais, sociais e estruturais. Um dos aspectos mais destacados é a resistência, sobretudo entre os homens, em procurar cuidados de saúde de forma regular.
“Nota-se ainda uma certa resistência, principalmente no sexo masculino, para procurar saber do seu estado de saúde, o que leva a atrasos significativos no diagnóstico, especialmente no cancro da próstata”, referiu.
A condição arquipelágica do país surge como outro entrave importante. A dispersão geográfica das ilhas, aliada ao défice de recursos humanos especializados, dificulta o acesso equitativo aos cuidados oncológicos.
“Somos um país arquipelágico, com um défice de médicos especialistas, e há ilhas onde não existe uma presença assídua desses profissionais”, explicou.
Como exemplo, citou a Ilha Brava, bem como outras localidades onde a resposta especializada é limitada ou inexistente.
A nível nacional, acrescentou, Cabo Verde ainda não dispõe de especialistas em determinadas áreas fundamentais para o diagnóstico e tratamento do cancro, o que obriga muitos doentes a deslocações internas ou mesmo à evacuação para o estrangeiro.
“Temos dois factores principais: a sensibilização ainda insuficiente e as dificuldades de acesso, que continuam a dificultar o diagnóstico atempado”, resumiu.
Prevenção, estilos de vida e factores de risco
Para além das questões relacionadas com o diagnóstico e o acesso aos cuidados, a ACLCC chama a atenção para os factores de risco associados aos hábitos e estilos de vida da população.
Conforme José Benvindo Lopes, comportamentos como o consumo nocivo de álcool, o tabagismo, a alimentação pouco saudável e o sedentarismo estão fortemente ligados ao aparecimento de vários tipos de cancro.
“O consumo excessivo de bebidas alcoólicas está na base do aparecimento de cancros, assim como o tabagismo. A alimentação não saudável e a inactividade física também contribuem significativamente”, alertou.
Além desses, existem ainda factores genéticos e históricos familiares que aumentam o risco de desenvolvimento da doença.
Embora reconheça que já existe alguma regulação relativamente ao álcool e ao tabaco, o presidente da associação defende uma vigilância mais eficaz e políticas públicas mais robustas que promovam estilos de vida saudáveis.
“Temos de trabalhar esses factores de risco de forma consistente, porque muitos deles estão profundamente enraizados na nossa sociedade”, frisou.
Neste contexto, a sensibilização da população surge como um pilar essencial da prevenção. Para José Benvindo Lopes, é fundamental que as pessoas conheçam os diferentes tipos de cancro, saibam identificar os primeiros sinais de alerta e compreendam a importância de procurar ajuda médica atempadamente.
“O primeiro passo no combate ao cancro é ter uma população consciente, informada sobre os sinais e sobre como agir”, defendeu.
Limitações no diagnóstico
Outro ponto crítico destacado pela ACLCC diz respeito às limitações existentes no país em termos de meios de diagnóstico e tratamento. Apesar de alguns avanços, Cabo Verde continua a não dispor de todos os exames complementares necessários para um diagnóstico preciso e para a definição de tratamentos mais direccionados.
“Temos limitações reais no acesso a meios de diagnóstico, sobretudo exames de imagem, e também no tratamento”, explicou José Benvindo Lopes. Como exemplo, referiu que o país ainda não dispõe de radioterapia.
“Não temos radioterapia em Cabo Verde, o que nos obriga a evacuar doentes para Portugal ou para outros países, seja para complementar o diagnóstico ou para realizar tratamentos que não existem cá”, afirmou.
Esta realidade, explicou, tem um impacto profundo na vida dos doentes e das suas famílias, uma vez que implica deslocações prolongadas, afastamento do núcleo familiar, interrupção da vida profissional e custos adicionais.
“O ideal seria termos todas essas condições no país para dar o melhor tratamento possível aos nossos doentes oncológicos”, sublinhou.
O responsável defende ainda o investimento em tecnologias como a ressonância magnética, incluindo a ressonância multiparamétrica, que permitiria uma avaliação mais detalhada de determinados tipos de cancro e reduziria a necessidade de evacuações.
“Trazer esses meios para os hospitais centrais iria melhorar significativamente o tratamento e diminuir a saída de doentes para o estrangeiro”, considerou.
Para além das dificuldades clínicas, o cancro acarreta um forte impacto emocional e social. Receber o diagnóstico, segundo José Benvindo Lopes, constitui um choque profundo para o doente e para a família.
“O simples acto de receber o diagnóstico já cria ansiedade, medo e afecta toda a estrutura familiar”, referiu.
A situação torna-se ainda mais complexa para os doentes provenientes de outras ilhas, obrigados a deslocar-se à Praia ou, em muitos casos, para o estrangeiro.
“Esses doentes têm de deixar a sua casa, o seu trabalho e a sua vida por um período longo, porque o tratamento do cancro é, muitas vezes, prolongado”, explicou.

No que diz respeito ao apoio psicológico, o presidente da ACLCC reconhece que existe uma abordagem multidisciplinar no sistema de saúde, com a presença de psicólogos, nutricionistas e outros profissionais, mas admite que ainda há margem para melhorias.
“Há apoio psicológico, tanto a nível hospitalar como através da associação, mas não posso afirmar que seja suficiente. É uma área que pode e deve ser reforçada”, considerou.
O papel da ACLCC no apoio aos doentes
A Associação Cabo-verdiana de Luta contra o Cancro tem desempenhado um papel activo no apoio aos doentes oncológicos, procurando identificar dificuldades e encaminhá-las para as entidades competentes.
“O nosso papel é recolher os problemas e levá-los a quem tem poder de decisão, para ver se conseguimos mitigar essas dificuldades”, explicou José Benvindo Lopes.
Além disso, a associação mobiliza recursos junto de empresas e instituições para apoiar os doentes, nomeadamente aqueles que se encontram alojados em pensões durante os tratamentos.
“Oferecemos, por exemplo, água engarrafada, porque muitos desses doentes, que fazem parte do cadastro social, nem sempre têm acesso regular a este bem essencial”, referiu.
Em datas comemorativas, a ACLCC promove ainda momentos de convívio, como almoços, com o objectivo de proporcionar algum conforto emocional e um ambiente de acolhimento aos doentes.
“São pequenas acções, mas que fazem a diferença na vida de quem está a enfrentar uma doença tão dura”, salientou.
Desafios
Apesar do trabalho desenvolvido, a ACLCC enfrenta vários desafios, sendo a sustentabilidade um dos principais.
“Não falo apenas de sustentabilidade financeira, mas é evidente que todas as nossas actividades exigem recursos”, afirma José Benvindo Lopes. Nesse sentido, apontou custos com exames, deslocações, estadias e materiais utilizados nos rastreios.
Outro desafio passa pela captação de voluntários e sócios, uma vez que grande parte do trabalho da associação assenta no voluntariado.
“Não é fácil conciliar a vida profissional com uma responsabilidade deste tipo, mas é um desafio que temos de enfrentar”, diz.
A gestão e o tratamento dos dados recolhidos ao longo das campanhas de rastreio constituem igualmente uma prioridade. Segundo o presidente da ACLCC, esses dados podem influenciar decisões políticas e servir de base para pesquisas científicas.
“Temos dados excelentes que precisam de ser trabalhados com rigor, para mostrar qual é, de facto, a nossa realidade e apoiar a tomada de decisões”, defendeu.
Ainda nas suas declarações, José Benvindo Lopes reconheceu que o país fez avanços importantes, como a introdução da vacina contra o HPV, que poderá, a médio e longo prazo, reduzir os casos de cancro do colo do útero.
Para o presidente da ACLCC, o combate ao cancro deve ser encarado como uma missão colectiva, que envolve o Estado, a sociedade civil e toda a comunidade. “As associações complementam as políticas públicas, chegam onde muitas vezes o Estado não consegue chegar. É preciso vê-las como uma mão estendida e apoiá-las de forma contínua”, concluiu.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.
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