São dois anos de trabalho da VINCI aqui em Cabo Verde, que balanço é que é possível fazer até agora?
Eu acho que o balanço é muito positivo, de facto, em todas as vertentes desta concessão. Em primeiro lugar, a entrega dos investimentos, isto é sempre a parte mais desafiante, num contexto insular, com os desafios de logística que temos tido. Mas conseguimos entregar as obras exactamente como nós tínhamos prometido a tempo em cada um dos aeroportos. Portanto, o balanço na realização das obras é positivo, porque entregamos, e entregamos como nos tínhamos comprometido. O balanço é muito positivo também em termos de desenvolvimento de tráfego. As nossas equipas aqui em Cabo Verde, que trabalham todos os dias para procurarem companhias aéreas, desenvolver novas rotas, tiveram bastante sucesso. Eles fazem esse trabalho, não sozinhos, obviamente, mas com as equipas da ANA Aeroportosde Portugal e dos nossos colegas que estão em Paris, na sede, porque nós temos um relacionamento global com as companhias aéreas, o que nos dá uma credibilidade grande em relação ao desenvolvimento de negócio com cada uma destas companhias aéreas. Nós apoiamos-nos muito sobre as capacidades e o relacionamento que temos a nível do grupo com as companhias aéreas e isto traduz-se num desenvolvimento de rotas muito dinâmico, que fez com que tivéssemos um crescimento de 16% em matéria do número de passageiros e uma conectividade mais elevada. Temos novas companhias aéreas e a vinda destas novas companhias aéreas permite uma coisa que é muito boa, que é reduzir o preço dos bilhetes. E acho que todas as pessoas que viajam, sentiram essa diferença, nomeadamente nos aeroportos internacionais, porque há mais concorrência entre os operadores. Entraram a EasyJet, a Transavia, e o fruto desta concorrência entre os operadores, que é um eixo também importante a nossa estratégia de desenvolvimento fez reduzir o preço dos bilhetes e há mais pessoas a comprarem bilhetes. Portanto, serve a muitos propósitos. O propósito do desenvolvimento do turismo, naturalmente, que é um eixo muito importante a nível económico aqui no país, mas serve também, simultaneamente, o interesse das comunidades. As comunidades cabo-verdianas no estrangeiro podem regressar a casa, ver a família, pagando menos dinheiro para viajar, e também é bom para os cabo-verdianos aqui que vão para o estrangeiro.
Falava há pouco da vossa relação global com as companhias aéreas, que já se traduziu no começo dos voos da Easyjet e da Transavia. Há mais companhias aéreas interessadas em começar a voar para Cabo Verde?
Estamos em diálogo com muitas companhias aéreas. Obviamente, o trabalho consiste em encontrar potenciais mercados e trabalhar com as companhias aéreas em várias vertentes. Uma das vertentes é a partilha de risco. Avaliar como é que nós conseguimos partilhar um pequeno risco com as companhias aéreas, porque acreditamos no desenvolvimento de uma rota e no seu potencial, como é que apoiamos em termos de promoção da rota, deixar a conhecer a rota quando acontece, para de facto levar as companhias aéreas a fazerem uma aposta, que sempre é uma aposta de negócio. Uma companhia aérea é um investidor, como qualquer outro, e, portanto, vai assumir um risco, vai abrir uma rota, cada abertura de uma rota tem um risco económico. Nós temos ganho credibilidade com as companhias aéreas desde há muitos anos. Nos outros aeroportos, antes de chegarmos a Cabo Verde, fomos criando rotas com sucesso com os parceiros que nós temos hoje em Cabo Verde. É com este histórico todo de sucessos que nós tivemos com as companhias aéreas na criação de rotas, que criamos esta confiança.
É visível o aumento do número de turistas…
É verdade sente-se o impacto na economia cabo-verdiana. Aliás, esta é uma economia muito baseada no turismo. 24 ou 25% do PIB está relaciona do com as actividades turísticas. Nós fizemos um estudo de impacto económico com um consultor independente. Fizemos isto em todos os nossos aeroportos, porque de facto é bom sempre medir o peso das nossas actividades em termos de benefícios para a economia e para as pessoas criação de emprego, criação de valor para o país. Porque no final estamos a gerir um serviço público delegado e muitas vezes nos nossos contratos há uma série de obrigações. Mas a obrigação principal é que o nosso trabalho seja útil para os países onde nós trabalhamos e para os cidadãos deste país. E, portanto, estamos a medir isso para termos dados objectivos. Fizemos este trabalho em Cabo Verde e saiu um conjunto de indicadores e de elementos que falam muito do impacto. Aqui em Cabo Verde, por exemplo, para cada milhão de dólares que é gasto por turistas que vêm aqui passar algum tempo há uma criação de 120 empregos e por cada 13 turistas que vêm cá passar férias cria-se um emprego. Portanto, isto é muito importante para a economia e para as pessoas, além da conectividade que beneficia as pessoas. O impacto económico é brutal. Isto é o impacto principal do nosso trabalho. Uma coisa são as obras, é o conforto dos passageiros, é a segurança, é o desempenho ambiental destas infraestruturas, porque nós estamos num negócio de longo prazo, não é? E temos que pensar sustentabilidade. Mas as infraestruturas são apenas um meio para, de facto, concretizar aquilo que é procurado por nós e pelos nossos concedentes, que é o impacto para as pessoas, o impacto da conectividade para a economia e para a qualidade de vida das pessoas.
Falando de obras agora, começaram no aeroporto do Sal, onde já inauguraram a primeira fase das obras, depois na Boa Vista e agora aqui na praia. No que é que consistem essas obras e para onde é que elas vão continuar?
Sempre começámos [as obras] em matéria de segurança. Portanto as coisas que era necessário melhorar, corrigir. Nós trabalhamos em primeiro lugar sobre estas matérias, a qualidade das pistas, dos sis temas de iluminação. Depois também queríamos começar dando um impacto visível para os passageiros em termos de qualidade de serviço dos aeroportos e também a parte ambiental que é muito importante. A parte de segurança, a parte ambiental foram os dois primeiros elementos, os mais importantes, e alguns trabalhos que nós fizemos nos terminais, não são detalhes. No terminal do Sal, no terminal da Praia, no terminal do Fogo, nota-se uma diferença brutal na matéria de qualidade de serviço. É apenas um início. O que as pessoas talvez vêem menos é toda a parte da segurança e a parte ambiental. Nós construímos já centrais fotovoltaicas para produzir a nossa própria energia. Em alguns aeroportos, como Boa Vista e Praia, existem baterias que fazem com que consigamos alcançar 100% do consumo com energias renováveis. Não há recurso a combustível fóssil, é tudo produzido em casa para ser consumido em casa. Portanto, esta sustentabilidade para nós é muito importante. Para alcançar as metas definidas em termos de ambiente pelo Estado de Cabo Verde, mas também porque nós temos na VINCI as nossas metas próprias, os nossos próprios compromissos. Temos um conjunto de objectivos em matéria de biodiversidade, em matéria de redução de lixo, de resíduos, em termos de consumo de água, que é um tema muito importante nas geografias onde de facto a matéria de disponibilidade de água é importante. É o caso aqui, em Cabo Verde, como também é, por exemplo, em Faro, em Portugal, onde há uma disponibilidade de água mais reduzida. Por outro lado, nós estamos a apontar para a neutralidade carbónica de todos os nossos aeroportos da rede da VINCI, e estaremos em mais de 70 aeroportos no mundo, daqui até 2050.
Nos aeroportos onde já fizeram inaugurações foi criada uma coisa que não havia até agora que é a questão das freeshops à chegada. Não é muito comum ter isso nos aeroportos.
Isto é um elemento fundamental da experiência dos passageiros. Os passageiros gostam quando têm tempo nos terminais, à espera dos seus aviões, de passar o tempo a ver a oferta comercial, a poder comprar, coisa para levar. Isto foi demonstrado, nós fizemos inquéritos aos passageiros em vários aeroportos da nossa rede, isto é uma coisa constante. As pessoas querem ter uma oferta comercial de qualidade e todos nós, na realidade, gostamos de comprar alguma coisa, uma lembrança, uma coisa para oferecer, enfim. Achamos importante nós trazermos esta oferta para os aeroportos cabo-verdianos e achamos importante, efectivamente, que esta oferta comercial esteja bem desenvolvida e com bons produtos e num cenário agradável para comprar. Portanto, fizemos uma parceria com uma em presa que se chama Flemingo e desenvolvemos estas lojas duty free nos aeroportos cabo-verdianos e está a funcionar muito bem.
Mas essas são lojas duty free à partida. Agora, a minha questão era no sentido de haver essas lojas para quem chega.
À chegada, sim. Quando é possível fazer este tipo de lojas isto permite também ao prestador, o parceiro comercial, equilibrar as contas. Vendas à chegada também é uma possibilidade. É muito bom. O próximo passo, nós estamos a trabalhar com este objectivo também com o governo de Cabo Verde, é ver se pode haver uma possibilidade de permitir estas compras às pessoas das ilhas, às pessoas que não estão a viajar, para que elas possam aproveitar também, numa lógica de duty paid, naturalmente, da oferta comercial dos nossos aeroportos, que na realidade têm produtos que não se encontram em sítio nenhum nas ilhas.
E qual é o plano para o aeroporto da Praia?
O plano? O plano é o desenvolvimento. Nós temos feito bastantes obras de melhoria no aeroporto da Praia. Uma parte, como disse, foi a parte ambiental e o fotovoltaico. Mas também na parte do lado ar, da pista. Nós vamos, no futuro, trabalhar para aumentar a capacidade do aeroporto e continuar o trabalho na parte ambiental, mas desta vez na separação de hidrocarbonetos. Vamos continuar a melhorar o terminal para a experiência dos passageiros. No final, é acompanhar o desenvolvimento por agora, mais numa lógica de capacidade e sempre numa lógica de qualidade de serviço, de cada um dos terminais, a longo prazo, e de forma consistente com o desenvolvimento do tráfego. Portanto, aquilo é uma espécie de círculo virtuoso, onde desenvolvemos rotas e cria mos tráfego. O tráfego obriga a aumentar a capacidade do aeroporto e este aumento de capacidade também permite crescimento futuro.
Eu sei que os gestores às vezes não gostam muito de falar de números, mas quais são as vossas expectativas relativamente à facturação com os aeroportos de Cabo Verde?
Bom, não tenho os números de cor na cabeça, mas a ideia é equilibrar as nossas contas. Nós estamos com um mecanismo contractual através do qual pagamos, partilhamos as receitas com o Estado. Há uma parte das nossas receitas que vai aumentar ao longo dos anos, que é, de facto, partilhada com o Estado e que é sempre relacionado com a evolução do tráfego. A nossa ambição é aumentar o volume de tráfego em cada uma das ilhas.
O número de turistas do período pré-COVID já foi ultrapassado. Quais são as perspectivas de crescimento para o número de passageiros nos aeroportos nacionais?
Nós estamos com perspectivas boas. Os números pré--COVID já foram amplamente ultrapassados. Estamos 24% acima dos valores que nós tínhamos em 2019 pré-Covid. Portanto, estamos bastante acima e os primeiros números, os primeiros indicadores de desenvolvimento de rotas que nós temos são bastante positivos. Nós estamos a ver bastante potencial aqui em Cabo Verde. Agora é concretizar este potencial. Mas projecções de tráfego é algo que é muito difícil de fazer. Mas nós vamos estar aqui por muitos anos. Estaremos aqui ainda por 37 anos, pelo menos, e o que nós podemos dizer é que vamos fazer tudo aquilo que pudermos para aumentar o tráfego e a conectividade do território da forma mais rápida e mais forte possível.
As obras têm sido, essencialmente, nos aeroportos internacionais, também já aconteceram no Fogo. E em relação a Maio, São Nicolau, como é que a situação está? Quais são as perspectivas?
Há investimentos para cada ilha. Nós temos o mesmo carinho por todas as ilhas, todos os territórios, e em particular os territórios insulares, os arquipélagos. Todos os territórios merecem a mesma atenção, o mesmo cuidado. Eu estive lá na inauguração das obras que nós fizemos na Ilha do Fogo e eu gostei de poder trazer à população do Fogo um aeroporto modernizado. Mas o mesmo vai acontecer com todas as ilhas. Não há um carinho maior para uma ilha e menor para outra. A ideia, efectivamente, é darmos um upgrade a todos os aeroportos e para as populações de cada ilha.
Mas já há um calendário para começar?
Sim, há obras em cada aeroporto. A fase 1B tem um conjunto de investimentos para cada um destes aeroportos. Obviamente que está sequenciado, mas vai haver investimentos em cada ilha.
A maioria do tráfego internacional faz-se para Lisboa. A VINCI tem interesse e planos para atrair companhias aéreas de outros países para alargar esta oferta a partir de Cabo Verde?
Sim, claro, claro. Como disse, há bastante potencial. Há potencial, obviamente, para a Europa que é um mercado natural para Cabo Verde. Há coisas para desenvolver em cada uma das ilhas, não apenas em Sal ou Boa Vista, não é? Mas em São Vicente e também na Praia. Há potencial no facto de serem ilhas, porque não há só um tipo de turismo, não é? Não há só um turismo de resort, onde as pessoas ficam e não se movimentam. Há outros tipos de turismo mais itinerante. As pessoas gostam de visitar outras ilhas, e isto é a beleza também do arquipélago. Vão para uma ilha, depois vão para outra, e as ilhas são todas diferentes. É isso que é incrível. A gente podia pensar que todas as ilhas são iguais, mas não é o caso. Eu não conheço um arquipélago onde cada ilha tem a sua cultura, a sua paisagem, as suas especificidades, e para uma pessoa que gosta de conhecer, gosta de viajar, é fantástico fazer um itinerário nas ilhas do arquipélago. O tráfego entre ilhas tem muito potencial de crescimento também e há eixos que se antevêem do desenvolvimento para a África e também para o Brasil. Nós estamos a trabalhar no desenvolvimento de potenciais rotas para o Brasil.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1266 de 04 de Março de 2026.
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