Em declarações ao Expresso das Ilhas, Pedro Delgado, da Drogaria Pincel, na Cidade da Praia, lembra que, antes da entrada das empresas privadas no mercado, os hospitais em Cabo Verde enfrentavam dificuldades frequentes no acesso ao oxigénio medicinal.
“Foi precisamente para responder a essa necessidade que decidimos investir na criação da nossa unidade de produção”, afirma.
Segundo o responsável, desde então as empresas do sector trabalharam para garantir o fornecimento regular aos hospitais do país. “Ao longo destes anos conseguimos, em conjunto com outras empresas do sector, estabilizar o abastecimento e eliminar as situações de escassez que anteriormente se verificavam”, refere.
A pandemia da COVID-19 foi, segundo Pedro Delgado, um dos períodos mais exigentes, obrigando as empresas a um esforço contínuo para assegurar o abastecimento de oxigénio.
“Ao contrário de outros países, em Cabo Verde houve mortes, sim, mas não por falta de oxigénio”.
Com a entrada em funcionamento da central de produção de oxigénio do Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), um dos maiores consumidores do país, o empresário admite preocupações já que poderá ter impacto directo na actividade das empresas que actualmente operam neste sector.
“A redução da procura por parte dos hospitais pode colocar em causa a sustentabilidade das empresas. Estranhamos muito ver um Governo que defende a privatização (…) e, neste caso específico, decide afastar o privado”, afirma.
Conforme defende, o Executivo deveria apoiar e fortalecer as empresas existentes no sector.
Soluções equilibradas
Por sua vez, o director-geral da Sodigás, em São Vicente, Manuel Évora, reforçou que a empresa investiu nos últimos 37 anos para assegurar a entrega contínua de oxigénio nos hospitais, mesmo durante a pandemia e que a produção própria do HUAN representa um risco de redução da actividade.
“O que pode afectar famílias e profissionais que serviram o sistema de saúde e comprometendo anos de trabalho e investimentos” ressaltou.
O diretor-geral salientou ainda que qualquer investimento que fortaleça a saúde é positivo, mas mostrou-se preocupado com a forma como o processo foi conduzido.
“Fomos informados tarde sobre a central e temos dúvidas se os interesses dos utentes estão salvaguardados”.
Manuel Évora assegurou que a Sodigás garante níveis de 99,9%, superiores aos mínimos exigidos pela farmacopéia europeia e legislação cabo-verdiana.
“Caso o hospital venha a depender apenas desta central, a nossa capacidade de resposta futura será limitada e investimentos em segurança e tecnologia foram feitos ao longo de décadas”.
Sobre alegadas poupanças de custos, Manuel Évora disse estranhar o valor divulgado, embora desconheça o orçamento do hospital para oxigénio medicinal. Uma garrafa, explicou, custa entre cinco e seis mil escudos, dependendo do fornecedor, e os hospitais dependem do fornecimento fiável da empresa para garantir tratamentos diários.
“Queremos soluções equilibradas que protejam o sistema de saúde e a economia, garantindo que empresas que investiram na saúde não desistam simplesmente. É fundamental encontrar formas de conciliar a nova central com o fornecimento privado, para não desincentivar futuros investimentos no sector”.
Custos superiores aos actuais
Por seu turno, a empresa Mega Saúde Ltda, também sediada na Praia, denunciou, em conferência de imprensa, que a nova central de produção de oxigénio inaugurada no HUAN, utiliza uma tecnologia que produz gás com cerca de 93% de pureza, abaixo do intervalo de 99% a 100% exigido pela legislação cabo-verdiana para oxigénio medicinal destinado à inalação hospitalar.

Segundo o responsável técnico, Miguel Lopes, cerca de 95% do mercado está ligado ao sector da saúde, o que poderá reduzir drasticamente o espaço para operadores privados. “Certamente vai fechar o mercado, porque 95% do mercado de oxigénio é destinado à saúde. Tirando os 95%, ficam os 5% e as empresas poderão não resistir a uma perda dessa dimensão”, disse.
Ao contrário do que disse o ministro das Finanças no dia da inauguração que a infraestrutura permitiria uma poupança anual superior a 120 mil contos, Miguel Lopes apontou que tal não seria possível uma vez que a produção é feita pelo Adsorção por Oscilação de Pressão (PSA).
Neste sentido, apontou que as privadas que actualmente produzem oxigénio medicinal no país têm conseguido reduzir os custos de produção ao longo dos últimos anos, sobretudo após mudanças tecnológicas implementadas no sector.
“Nós, antes da transição tecnológica, pagávamos cerca de 700 mil escudos por mês para produzir oxigénio. 50% do custo de produção era electricidade. Baixámos o custo da electricidade, que era 50%, para cerca de 5 a 6%. E é por isso que conseguimos reduzir o preço do oxigénio, que até 2016 era de 6 mil escudos, passando depois para 5 mil escudos”, explicou.
Miguel Lopes referiu ainda que as três empresas de produção de oxigénio no país não custaram 10% do valor investido na central de produção de oxigénio do HUAN e que só a Mega Saúde tem muito mais capacidade de produção, por ter a capacidade para produzir 500 garrafas por dia e encher nove garrafas a cada 24 minutos.
“Qualquer equipamento, seja ele uma central de oxigénio, um carro ou uma casa, tem de prever amortização. Tente amortizar 770 mil contos com duas mil garrafas por ano. Só o custo da amortização é mais caro do que a garrafa de oxigénio que vendemos hoje”.
“Alguém informou o Governo que vai poupar 120 mil contos. 120 mil contos, metade dele vai ser em salário para manter o equipamento a funcionar. Antes, pelo contrário, vai perder cerca de 20 mil contos por ano, que é o que as três empresas pagam de imposto”, argumentou.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1267 de 11 de Março de 2026.
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