Foi na Praia que nasceu e onde viveu a maior parte da sua vida. Mas, ainda na infância, a transferência do pai, funcionário dos Correios, para a ilha do Fogo levou-a a Cova Figueira. Aí viveu vários anos.
É desse período que guarda os primeiros contactos com o trabalho do pai, chefe de serviços, autodidata por vocação e múltiplo por natureza. “O meu pai fazia tudo: electricidade, mecânica, radiocomunicação”, recorda.
Cresceu assim, num espaço onde o quotidiano se confundia com aprendizagem, rodeada também por engenheiros que entravam e saíam da sua casa anexa aos Correios, e por uma figura paterna que lhe foi abrindo caminhos.
Daí virá, avalia, o gosto pela engenharia, embora, nesse início de vida, não a área que viria a seguir.
A sua primeira inclinação era para uma área que lhe era familiar. “Eu sempre gostei da parte da comunicação, rádio, telecomunicações”, conta.
Depois do ciclo preparatório feito em São Filipe, regressou à Praia para continuar os estudos secundários. O gosto pela engenharia acompanhou-a, mas nos últimos anos do liceu algo mudou.
Um fascínio novo começou a ganhar forma, evocando uma outra paixão antiga: “sempre gostei daquelas coisas que não se vê, o que está por baixo do solo”. Esse interesse levou-a à geologia e, posteriormente, por caminhos de oportunidade e decisão, à Engenharia Civil.
Na altura, a então União Soviética oferecia bolsas de estudo para essa área e, assim, enveredou nesse curso.
“Era mais próximo da geologia”: a geotecnia, o estudo dos solos, das fundações, dos territórios instáveis que exigem rigor e sensibilidade técnica, tudo isso a atraía.
Na Rússia encontrou um ambiente bem distinto daquele onde vivia. Em Cabo Verde, antes de ir para o curso, lembra-se de ter conhecido apenas uma mulher engenheira. E, embora várias colegas de liceu tenham seguido engenharia, civil não estava entre as preferidas. No país, e ao contrário também do que acontecia na maior parte do mundo, a presença feminina na engenharia não era excepção.
“As mulheres estavam em todas as áreas” e eram incentivadas a estar, afirma a engenheira.
Carla integrou uma turma com muitas alunas, mas entre os estudantes estrangeiros eram apenas três: ela, uma estudante da Nigéria e outra da Bolívia. “Havia muitas outras, mas noutras áreas”, salvaguarda.
Porém, insiste, a diferença de género não se sentia como obstáculo. E isso foi algo que, avançando no tempo, afirma nunca ter sentido no exercício da sua profissão.
O regresso
Quando regressou a Cabo Verde, em 1996, Carla Martins trazia consigo o diploma e uma disponibilidade imediata para trabalhar. O mercado de trabalho respondeu com a mesma rapidez: entra na Câmara Municipal da Praia pouco depois de chegar. “Comecei um mês após a minha chegada”, recorda. A integração foi rápida, sem sobressaltos e, assegura, sem qualquer limitação imposta pelo facto de ser mulher.
Mesmo nas obras - um mundo essencialmente masculino - nunca sentiu resistência.
Depois, somaram-se anos e experiência: um projecto da cooperação austríaca para capacitação dos gabinetes técnicos do interior de Santiago, a criação da sua própria empresa, a fiscalização e controlo de obras... Em nenhum destes contextos houve discriminação ou resistência.
“Nunca tive nenhuma dificuldade, nenhum problema, pelo facto de eu ser uma mulher”, reitera. “Acho que aqui em Cabo Verde não existe esse estereótipo."
Mais mulheres, mas...
Ao longo das últimas décadas, Carla tem visto o número de mulheres nas engenharias, incluindo civil, aumentar. Um efeito dominó da presença de cada vez mais exemplos femininos.
"O exercício espelha-se e as crianças interessam-se", diz. "A engenharia é uma área muito atractiva para as crianças."
Mas, apesar de haver cada vez mais mulheres em todas as áreas da engenharia, o número ainda é bastante inferior ao dos homens. É uma tendência mundial, “uma realidade que não foge à regra”, e também uma preocupação global, lembra Carla. Mas pelo menos, considera, uma frente Cabo Verde tem de positivo: a falta de preconceito e várias mulheres a abrir caminho.
A Ordem
A Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde (OECV) é outro fio condutor da vida profissional de Carla. Quando regressou da Rússia, a Ordem estava a separar-se da Associação de Arquitectos e Engenheiros para se constituir de forma autónoma. Carla Martins participou nas reuniões da comissão instaladora desde o início. É membro fundadora. Fez parte da mesa da Assembleia da Região, candidatou-se à direcção da região de Santiago em 2014, e foi acumulando experiência e capital de confiança dentro da instituição. Agora, considerou chegado o momento e avançou com a candidatura a bastonária.
Venceu as eleições mais concorridas de sempre (com três listas, sendo que as anteriores tiveram sempre lista única) e tornou-se a primeira mulher à frente da OECV, com uma lista que tem várias mulheres em lugares de destaque, como a engenheira agrónoma Elsa Simões, na função de presidente da Comissão Científica e Cultural, e a engenheira electrotécnica Lívia Semedo, como presidente da Mesa da Assembleia Geral.
Mas, mesmo assim, recusa que o foco esteja no género. “Não houve nenhuma motivação de género”, sublinha. Não por se negar a importância da representatividade, mas porque as escolhas são acima de tudo a afirmação das trajectórias construídas por cada membro da equipa.
"Acredito que a escolha foi pela meritocracia", reivindica Carla Martins. A 31 de Março toma posse.
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À frente da Ordem, Carla Martins tem um programa e uma urgência: fazer cumprir a lei. Muitos engenheiros exercem sem carteira profissional, o Estado contrata sem exigir inscrição, e a profissão e o rigor do seu exercício ressentem-se. Nesta segunda parte, a bastonária fala dos desafios concretos da engenharia em Cabo Verde e do que quer mudar nos próximos três anos.
O programa que apresentou às eleições tem cinco eixos principais: valorização profissional, diplomacia, dinâmica geracional e voluntariado, modernização e comunicação, engenharia de futuro e sustentabilidade. Como foi a campanha?
O nosso programa foi claro e desenvolvemos uma estratégia muito forte nas redes sociais, que nos permitiu compensar a desvantagem de termos entrado mais tarde na campanha. Começámos efectivamente a trabalhar em Janeiro, depois da Assembleia Geral de Dezembro. Eu sentia que tinha uma boa aceitação na Ordem, tinha essa percepção. A principal desvantagem era, como disse, ter entrado mais tarde do que os outros. Ainda assim, conseguimos mobilizar [os membros da OECV] e sair vencedores no dia das eleições.
A partir de dia 31 vão pôr mãos à obra. Quais são as prioridades concretas para os primeiros 100 dias?
Há sempre essa preocupação dos primeiros 100 dias, de gestão de graça. Vamos iniciar, desde logo, a divulgação da nossa visão. Achamos que isto é importante. É um primeiro contacto com o que estamos a propor e sobre o que queremos trabalhar. A visão que temos é que a Ordem deve ser muito forte, inequívoca e ter impacto. Estamos a propor que a Ordem se afirme como um parceiro do Estado no desenvolvimento do país. Para isso é também preciso rigor no cumprimento estatutário. Pelo Estatuto são-nos conferidas algumas competências, que o Estado nos delega, e queremos fazer uma espécie de afirmação para a sociedade e governos centrais e locais da nossa intenção e visão para a OECV.
Disse que querem ser parceiros no desenvolvimento do país. Como garantir a centralidade da OECV nesse processo?
A Ordem tem de estar preparada para assumir esse papel. Para isso, temos de nos organizar e modernizar os instrumentos que temos – incluindo a parte da comunicação e da visibilidade - para atender a sociedade. Além disso, trabalhar a parte das competências que os engenheiros devem adquirir, sobretudo ao nível da inovação e das novas tecnologias, bem como garantir transparência na gestão. Assim, estaremos mais aptos a cumprir o papel que é esperado da Ordem, e que estamos a querer desenvolver para podermos assumir na plenitude o desenvolvimento do país.
Como podem ajudar? Emitindo pareceres e afins, por exemplo?
Estamos prontos e disponíveis para criar parcerias. Esse é, aliás, um dos pilares que propusemos: a parceria com as entidades, os stakeholders, a Associação dos Empreiteiros, entre outros. A Ordem é chamada a pronunciar-se sobre vários diplomas legais e fá-lo de forma voluntária e gratuita. O que estamos a propor é que as actividades passem a ser enquadradas por acordos e protocolos em que nos seja atribuído um orçamento para as desenvolver. A Ordem é uma associação, funciona na base do voluntariado; os recursos financeiros são as quotas, de mil escudos por mês, e a maioria dos membros não paga. Aliás, esta é também uma situação que temos de resolver com o início da nossa gestão: regularizar a questão dos pagamentos.
Quantos engenheiros estão neste momento inscritos na Ordem?
Para as eleições, tínhamos 1.400 e tal inscritos. Mas, com a situação regularizada - inscritos e com quotas em dia - eram cerca de 600. Não sabemos ao certo quantos engenheiros existem em Cabo Verde. Agora temos uma relação mais próxima com as universidades, o que ajuda, mas muitos formam-se no exterior, pedem a equivalência no Ministério da Educação e nunca vêm inscrever-se na Ordem. Como não vêm inscrever-se, nunca sabemos o número real. Há também os que já estão aposentados. É um interesse da Ordem e meu, pessoal, tentar apurar esse número real, saber onde estão os engenheiros e quem está em situação irregular.
A Ordem abrange muitas áreas de engenharia, mas a grande maioria dos inscritos são engenheiros civis. Porquê? Pela necessidade de registo na OECV para realização de projectos e obras?
É uma tendência mundial: todas as ordens dos engenheiros têm mais engenheiros civis. Mas, noutros países, os engenheiros, para exercerem a profissão, têm de ter o certificado profissional. Aliás, em Cabo Verde acontece o mesmo do ponto de vista legal. O Estatuto prevê essa exigência, mas, na prática, ela nem sempre é cumprida. A maioria dos engenheiros das instituições públicas, e também empresas privadas, não está inscrita na Ordem, incluindo os engenheiros civis, que são a área mais visível e onde há mais controlo. Quando se contrata na administração pública não é exigido! E nós perguntamos porque não é. Se olharmos para os grandes empregadores da engenharia, como empresas de comunicação, outras indústrias e ministérios, encontramos muitos engenheiros, de várias áreas, a exercer sem certificação. Ora, o nosso Estatuto é claro: o exercício da engenharia obriga à inscrição na Ordem e a ter a situação regularizada, com quotas em dia. Há também quem se identifique como engenheiro, mas diz que não está a exercer engenharia. Existem muitas dúvidas sobre o que constitui, de facto, o acto de engenharia, e isso precisa de ser clarificado e esmiuçado. Já começa a haver alguma mudança, com maior sensibilidade para esta questão e com engenheiros em posições que vão contribuindo para essa consciencialização. Mas não há obrigação [na prática]. A partir do momento em que passar a ser obrigatório, a questão deixa de se colocar. E é isso que queremos agora, iniciando o nosso exercício: trabalhar essa parceria com as entidades que contratam os engenheiros e sensibilizá-las para nos ajudarem a fazer valer o Estatuto e a legalidade. Por isso, os primeiros 100 dias são importantes para afirmarmos a nossa visão para a Ordem e reforçarmos a legalidade do exercício da profissão que é dada pelo Estatuto.
É uma Ordem complexa. Abrangendo tantas áreas, não seria mais lógico dividir em várias ordens?
Não. Dentro da Ordem temos os colégios, onde as especialidades se agrupam por afinidade e complementaridade. São cinco e todas as especialidades integram esses colégios. Ter uma Ordem por cada especialidade seria muito mais complexo, até para a gestão. E sobretudo agora que, com as novas tecnologias, há uma tendência para surgirem constantemente novas ciências e novas engenharias. Acho que este modelo permite controlar e organizar melhor a estrutura. Penso que é um formato tranquilo. A dificuldade não está na diversidade das engenharias, mas no facto de muitos engenheiros não estarem em situação legal, a exercer sem a certificação profissional emitida pela Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde.
Falou de uma maior relação com as universidades. Tem sentido um aumento de interesse nas engenharias?
Sim, tem aumentado, pelo menos a nível das universidades nacionais. Na Uni-CV, com a reestruturação e o novo campus, houve uma dinâmica diferente. A UniPiaget está com algumas dificuldades, mas surgiram outras universidades no mercado, todas com engenharias. Acredito que a procura tem crescido.
Que retrato faz do ser engenheiro em Cabo Verde hoje? É uma profissão reconhecida e valorizada?
Ser engenheiro em Cabo Verde é desafio e oportunidade ao mesmo tempo. Temos a vantagem de ser um país pequeno, onde o número de formados em engenharia não é tão elevado quanto o de outros países, onde a competição é mais renhida. Mas em Cabo Verde há desafios próprios da nossa realidade: somos um pequeno estado insular, com escassez generalizada de recursos naturais e financeiros, dependência massiva de importações, incluindo materiais de construção. Ter a capacidade de ver esses desafios, ter criatividade de engenheirar, ter competências para ajustarmo-nos às necessidades que temos, é que torna [o exercício da profissão de engenheiro] desafiante. Falando dos materiais, por exemplo, temos de começar a desenvolver tecnologias e materiais próprios, locais, para nos libertarmos um pouco dessa dependência da importação. Há, claro, áreas que não conseguiremos contornar, mas há outras onde, trabalhando com eficiência, poderemos encontrar soluções.
Também é um país com muito pouca indústria...
Exactamente. Um outro problema está, exactamente, a nível das indústrias. Os países que apostam na indústria acabam por conseguir algum alívio, porque há geração de emprego, desenvolvimento de tecnologias aplicadas e até criação de especialidades, com formação de engenheiros. Temos de avançar para uma maior especialização para preenchermos algumas áreas do mercado, ainda dependentes de técnicos internacionais, equilibrando a presença de técnicos estrangeiros com técnicos nacionais. Até para atender à questão da empregabilidade. Tudo isto acaba por ser o desafio que temos de trabalhar e equacionar.
Mas é uma profissão valorizada?
A valorização do engenheiro é uma preocupação. Há muitas reclamações por parte dos nossos membros de que o engenheiro não é valorizado. E nós, de facto, temos alguma dificuldade em mudar isso. Porquê? Porque, quando não há rigor no exercício da profissão, isso acaba por ter consequências no próprio acto. Quando não há rigor no exercício, quando se exerce sem certificado da Ordem, sem inscrição, cria-se espaço para o exercício ilegal, o exercício irregular, e isso desvaloriza a profissão. Todos esses aspectos estão ligados. Se conseguirmos organizar o sistema, termos todos os stakeholders a trabalhar com a Ordem, a resposta à sociedade e ao país será muito melhor.
Ainda nem começou, mas ao fim dos seus três anos de mandato, se pudesse escolher uma grande marca que gostaria de deixar na Ordem, qual seria?
Só uma coisa é difícil... Mas se for só uma, seria, realmente, conseguir resolver essa questão da legalidade do exercício dos actos de engenharia. Se conseguirmos isso, automaticamente muitas outras coisas irão organizar-se. Acho que seria essa a grande aposta.
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Funções da OECV
Pelo estatuto (2008), a Ordem tem como papel:
- representar os engenheiros
- regular o acesso e o exercício da profissão
- garantir regras éticas e deontológicas
- defender o interesse público (qualidade, segurança, etc.)
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As eleições
As eleições para a Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde realizaram-se no sábado, 21 de Fevereiro de 2025. Estavam inscritos 607 eleitores e o processo decorreu de forma presencial nas ilhas de Santiago, São Vicente e Sal, e também por via electrónica. As três listas foram encabeçadas pelo engenheiro Manuel Moreira Fernandes (lista A), pela engenheira Carla Martins (lista B) e pelo engenheiro Saturnino Ferreira (lista C).
A candidatura da lista A, entretanto, ameaçou impugnar os resultados, alegando irregularidades no processo, nomeadamente na votação electrónica. Alguns eleitores não terão recebido o link para votar e houve dificuldades técnicas de acesso.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1269 de 25 de Março de 2026.
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