Até 1996, Cabo Verde partilhou o mesmo hino com a Guiné-Bissau. Quando os Presidentes dos dois países se encontravam num qualquer evento, ouvia-se o mesmo hino duas vezes, o que se tornava constrangedor.
Quando a comissão eventual lançou o concurso público para a escolha dos símbolos, ao contrário da bandeira e das armas, nenhum dos poemas apresentados para o hino agradou ao júri.
Nenhuma das propostas tinha dignidade para ser o hino nacional, argumentaram.
Foi necessário então lançar um novo concurso. Tentou-se vários poetas consagrados cabo-verdianos; convencê-los a participar. “A comissão eventual teria, inclusivamente, enviado cartas aos mesmos”.
“Tudo isto atrasou o processo”, recorda Amílcar Spencer Lopes, que nessa segunda fase, veria um poema seu ser o escolhido.
Havia finalmente um poema seleccionado pelo júri, mas ainda faltava a música.
O poema é então musicado por três músicos, entre os quais Adalberto Silva, que recolhe o maior número de votos, mas não os dois terços necessários. Jogos políticos estavam a ser feitos, e as atenções concentravam-se noutros objectivos.
Enquanto decorriam os concursos, começavam a surgir vozes dissidentes na cúpula do partido no poder, o MpD.
A direcção política já não era tão homogénea e começou a verificar-se uma falta de articulação que tinha reflexos a vários níveis.
Mas o curso da promulgação da Constituição não podia ser parado e para contornar essa lacuna criou-se “uma solução técnica, normativa, inteligente e eficiente”, avalia Spencer Lopes.
No artigo 8.º, que diz respeito aos símbolos, e onde são apresentadas apenas as armas e a bandeira, escreveu-se na alínea referente ao hino, que este será estabelecido por lei aprovada por maioria de dois terços dos deputados em efectividade de funções.
Criou-se, pois, um mecanismo que permitia que assim que houvesse consenso sobre a proposta, fosse possível, rapidamente, escolher o hino.
Em 1993, efectiva-se a cisão da cúpula do MpD. É criado o PCD (Partido da Convergência Democrática ) que concorre, sem sucesso, às eleições de 1996.
Nessas eleições, o MpD volta a ganhar com maioria qualificada, desta vez por uma margem maior.
“Com essa maioria reforçada há todas as condições para aprovar o hino, que aliás fora uma das bandeiras da campanha eleitoral”, pensam os dirigentes políticos do partido vencedor.
Assim, o presidente do MpD, Carlos Veiga, desafia Amílcar Spencer Lopes a escrever a letra e Adalberto Silva, a compor a música.
Aceitaram, com a condição de que o nome dos autores não fosse divulgado, enquanto o processo não estivesse completamente terminado e fosse votado ou não favoravelmente.
Spencer Lopes escreveu então um novo poema que entregou a Adalberto Silva para musicar.
Não foi muito fácil.
“Eu sou compositor, mas normalmente faço a letra e a música. Para mim é difícil musicar uma letra sobretudo se a letra é de outra pessoa, então não foi nada fácil. Mas conseguimos”, diz Silva.
Quando música e palavra se uniram, os autores contactaram Zeca Couto, que reuniu um grupo de crianças da escola Pentagrama, no espaço onde o seu grupo, os Tubarões, costumava ensaiar. O tema foi gravado em versão instrumental e com o coro infantil.
“Entregamos depois a cassete ao presidente do MpD que a levou para o parlamento”.
O PAICV havia-se oposto à nova bandeira e armas, mas em relação ao hino reconhecia agora a necessidade de mudança. Assim, também ele apresentou um projecto lei com um hino, o Cântico de amanhã.
O “Cântico da Liberdade”, de Spencer Lopes e Adalberto Silva, e o proposto pelo PAICV foram assim a plenária e o primeiro acabaria por ser escolhido.
Em 1999, com a primeira revisão da Constituição (a segunda foi feita em 2010) introduz-se já o nome do hino, assim como a sua letra e partitura.
E, em geral, há também uma certa falta de valorização dos símbolos nacionais, marcada inclusivamente pelo bipartidarismo cerrado que ainda se vive no país.
A palavra e o som
Há nos símbolos de Cabo Verde uma certa homogeneidade e sintonia em termos de conceitos. Há a ideia do mar (ou melhor, do Atlântico), das estrelas, do equilíbrio.
Em relação ao hino, o que sobressai é a palavra Liberdade que compõe o título.
“Nós tínhamos tido a independência, mas não tínhamos tido a liberdade, pois era um regime de partido único”, explica Spencer Lopes.
Liberdade era assim o principal anseio, e a base para todo o poema, assim como a principal mensagem para os cabo-verdianos.
Depois, pretende-se mostrar o respeito pelo passado, mas com os olhos no futuro. E, fundamentalmente, exaltar a dignidade humana, como valor absoluto, pois “o homem é a certeza”.
“Eu sou da escola antiga, aluno de Baltasar Lopes e outros que tinham um profundo conhecimento e sentido humanista; da tradição grega, que ensina que o homem é a medida de todas as coisas. O homem tem de estar no centro, o desenvolvimento é feito pelo homem e para o homem”, diz.
Neste poema, há também a ligação cultural e geográfica, o milagre da vida em cima destas pedras escalavradas no meio do Atlântico, e toda a riqueza da confluência.
Há ainda a ousadia de vencer despenhadeiros, o ciclo do milho e a luta de homens e mulheres teimosos que enterram a semente mesmo que à míngua de chuvas, há a luta dos homens do mar, perseverantes, entre as estrelas e o Atlântico.
“As ideias que eu tenho [sobre Cabo Verde], da sua história, aquilo que vejo na sociedade cabo-verdiana, tentei exprimir isso tudo, mas simbolicamente”, diz Amílcar Spencer Lopes.
A par com todos estes conceitos vem a rejeição da guerra, das armas, do tom e som bélico de outros hinos.
O compositor Adalberto Silva teve em conta a mensagem que está na letra, evitando que o hino fosse “algo marcial”, e tentando passar os conceitos aí expostos.
Quando Spencer Lopes lhe entregou o poema, o reconhecido autor de mornas passou várias horas a ouvir hinos de outros países, a entranhar a sonoridade deste género musical.
Centrou-se essencialmente no hino anterior, e nos hinos dos países mais próximos, para não criar um hiato musical estranho ao ouvinte.
Depois, tentou que dentro do género houvesse uma pitada de um estilo mais cabo-verdiano.
“Mas eu acho que musicalmente não consegui aquilo que eu queria”, avalia, com o sentido crítico de quem é exigente consigo mesmo.
Amílcar Spencer Lopes e Adalberto Silva fizeram o hino e legaram-no ao país. Não há direitos autorais, mas há o nome inscrito na Constituição.
“Os nossos nomes ficaram constitucionalizados. É mais uma responsabilidade” brinca Adalberto Silva, e questiona: “Porque é que o nome dos autores dos outros símbolos não aparece e os autores do hino aparecem?”
“Às vezes nem me lembro que sou o co-autor. O hino é propriedade da nação cabo-verdiana. Mas quando foi aprovado senti-me orgulhoso”, diz Adalberto Silva. Um orgulho partilhado por Spencer Lopes.
homepage








