O encontro decorrerá na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) e conta ainda com actividades na Cidade Velha, em Ribeira Grande de Santiago, devido ao simbolismo histórico e patrimonial daquele município.
Ao apresentar a iniciativa, numa conferência de imprensa, o Chefe de Estado considerou que o país vive um momento raro da sua história, em que a memória e o futuro se encontram, e defendeu que a crioulidade deve ser entendida como uma proposta de humanidade, uma proposta de convivência pacífica, uma proposta de um futuro melhor.
Segundo José Maria Neves, o encontro nasce nesse cruzamento entre história, identidade e visão, recordando que o Atlântico foi, ao longo dos séculos, um espaço de dor, de ruptura e de deslocação, mas igualmente um espaço de criação, onde povos, culturas, línguas e saberes se encontraram, resistiram e reinventaram-se.
O Presidente da República explicou que o evento será estruturado em torno de três eixos: um diálogo de alto nível, uma componente cultural e uma feira internacional da crioulidade dedicada ao intercâmbio entre países, territórios e comunidades atlânticas.
“Cabo Verde assume, com plena consciência histórica, a ambição de se afirmar como centro do diálogo atlântico. Não por acaso, mas porque a nossa identidade foi construída nesse cruzamento”, afirmou.
José Maria Neves sustentou ainda que a iniciativa pretende ir além de uma simples conferência internacional, funcionando como um espaço de pensamento, um espaço de criação e, sobretudo, um espaço de compromisso, do qual deverá resultar a Declaração da Praia e a criação de um fórum permanente da crioulidade atlântica.
Durante a intervenção, o Chefe de Estado frisou que o encontro não é apenas sobre Cabo Verde, nem sequer apenas sobre o Atlântico, mas sobre o mundo que se quer construir, assente na capacidade de transformar diversidade em força, memória em futuro e identidade em ponte.
A tartaruga foi escolhida como símbolo do encontro por representar, nas palavras do Presidente, um mundo sem limites e sem fronteiras, capaz de ligar silenciosamente as margens do mundo, tal como a crioulidade.
“Estamos a abrir caminhos, a dizer que há outras possibilidades, há um outro humanismo”, declarou.
José Maria Neves associou também a crioulidade à juventude cabo-verdiana, que classificou como irreverente, cheia de ambição e com uma “enorme” capacidade de criar.
Ainda na conferência de apresentação, José Maria Neves voltou a defender a oficialização plena da língua cabo-verdiana, com a expectativa de que, em 2036, por ocasião das comemorações do centenário da Revista Claridade, o crioulo já esteja oficializado em paridade com a língua portuguesa.
Escravatura, miscigenação cultural, património, governação e língua
Ao Expresso das Ilhas, a presidente da Comissão Científica do evento, Augusta Teixeira, explicou que o programa reúne três grupos de intervenientes, nomeadamente instituições oficiais, académicos e artistas.
Entre os participantes estarão representantes da UNESCO, Nações Unidas, Organização Internacional da Francofonia, universidades nacionais e estrangeiras, além de ministros, antigos governantes e presidentes da República.
A docente universitária avançou ainda que o encontro pretende promover a reflexão, a partilha de investigação e a própria participação artística nas diferentes expressões culturais que têm lugar em Cabo Verde.
“Desta vez nós temos todos os actores no mesmo evento. A iniciativa permitirá juntar perspectivas académicas, políticas e artísticas sobre a crioulidade atlântica”, afirmou.
A responsável indicou ainda que o evento abordará temas ligados à escravatura, miscigenação cultural, património, governação, relações internacionais e língua, defendendo uma abordagem orientada para o diálogo e a reconciliação histórica.
“Nós queremos é a paz. A crioulidade deve ser encarada como um espaço de construção de consensos e não de aprofundamento de divisões históricas”, declarou.
A Declaração da Praia, a ser apresentada no último dia do encontro, deverá sintetizar as conclusões dos debates e apontar caminhos para futuras cooperações internacionais.
Augusta Teixeira admitiu a intenção de transformar o encontro num evento regular e salientou o impacto internacional que poderá ter para Cabo Verde.
“A própria visibilidade de Cabo Verde, de um país pequenininho, em termos de extensão, ser capaz de organizar um encontro com esta envergadura”, frisou.
Para Augusta Teixeira, o encontro representa um marco para Cabo Verde, mas também um marco para o mundo, numa altura em que o cenário internacional é marcado por tensões e divisões.
Nesse sentido, defendeu que o arquipélago possui legitimidade simbólica para acolher esta discussão devido à sua história de miscigenação e ao papel da Cidade Velha enquanto espaço histórico de encontro entre povos.
“É possível nós nos entendermos como seres humanos e ver o que é que temos de bom de um lado e do outro”, frisou.
A Comissão Científica do I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica é formada por Augusta Teixeira, presidente, Nardi Sousa, Pedro Matos, António Correia e Silva, Gabriel Fernandes, Charles Akibodé e Mário Lúcio Sousa.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.
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