Durante muito tempo, muitos destes comportamentos foram interpretados apenas como manias, birras ou fases passageiras da infância. No entanto, especialistas alertam que, quando persistentes, podem indicar dificuldades mais complexas, associadas não apenas à alimentação, mas também a alterações sensoriais, motoras, neurológicas e emocionais.
A fonoaudióloga infantil e especialista em DAP, Viviane Moura, explica que os chamados Distúrbios Alimentares Pediátricos afectam não apenas a saúde da criança, mas toda a dinâmica familiar.
“Quando a criança apresenta recusa alimentar, selectividade intensa, dificuldades mastigatórias, alterações sensoriais ou medo de comer, toda a dinâmica da casa costuma reorganizar-se em função da alimentação”, afirma.
Na prática, muitas famílias acabam por adaptar completamente a rotina para garantir que a criança consiga ingerir algum alimento. Há pais que confeccionam refeições separadas, oferecem diariamente os mesmos alimentos aceites pela criança ou evitam apresentar novos sabores e texturas para prevenir crises durante as refeições.
“Com o tempo, isso pode reduzir ainda mais as oportunidades de ampliação do repertório alimentar”, alerta a especialista.
Viviane Moura refere que a pressão exercida pelos adultos pode agravar o problema.
“Forçar a criança a comer dificulta toda a relação da criança com a alimentação, deixando de ser algo prazeroso para algo totalmente repulsivo”, explica.
Segundo a especialista, a recusa alimentar nem sempre está relacionada com teimosia. Em muitos casos, a criança sente desconforto real perante determinadas texturas, sabores, cheiros ou consistências, podendo existir também dificuldades motoras relacionadas com mastigação e deglutição.
“Quando a criança é pressionada ou obrigada a comer, o momento da refeição pode passar a ser percebido como ameaçador ou stressante”, acrescenta.
No mesmo sentido, a nutricionista Ana Paula Sanches, especialista em ciências nutricionais e metabolismo, reforça que transformar a alimentação num momento de tensão pode ter consequências negativas na relação da criança com a comida.
“Muitas vezes os pais, com medo de a criança não se alimentar, acabam por criar um momento stressante. ‘Se não comer, vai apanhar’ ou ‘tem de comer tudo’. Isso gera uma relação extremamente má com a alimentação”, aponta.
As recompensas também podem contribuir para uma percepção distorcida da alimentação.
“A recompensa acaba por parecer mais importante do que o acto de se alimentar. Isso pode distorcer a percepção da criança sobre a comida”, considera.
“Por mais que eu lhe desse comida, não ganhava peso”
Sara Oliveira conhece bem esta realidade. Os primeiros sinais de dificuldades alimentares da filha surgiram ainda no primeiro ano de vida, durante a fase de introdução alimentar, entre os seis e os oito meses.
Segundo relata, apesar de experimentar diferentes alimentos, a criança demonstrava desde cedo uma forte selectividade alimentar, aceitando apenas alguns tipos de comida e recusando outros com frequência.
Com o passar dos meses, a situação tornou-se mais preocupante. A filha não conseguia manter um ganho de peso adequado e chegou mesmo a perder peso.
“Por mais que eu lhe desse comida, não ganhava peso”, recorda. As refeições eram marcadas por resistência, choro intenso e episódios de vómito. Em algumas situações, bastava colocar o alimento na boca para a criança vomitar, conforme relata.
Sara conta que o iogurte era praticamente o único alimento aceite sem grande dificuldade. Todos os outros exigiam insistência constante, criatividade e estratégias para conseguir alimentar a filha.
“Tentei várias estratégias para contornar o problema, incluindo a introdução de alimentos mais leves e combinações entre alimentos preferidos e rejeitados”, narra.
Durante as refeições, recorria frequentemente a distrações como televisão e desenhos animados na tentativa de facilitar a ingestão alimentar.
O quadro prolongou-se até cerca dos quatro anos. Pelo meio, entre o primeiro e o segundo ano de vida, a criança desenvolveu anemia e precisou de reforço de ferro na alimentação. O baixo peso foi acompanhado também pelo aparecimento de eczemas e outros problemas de pele.
Hoje, com oito anos, a filha apresenta algumas melhorias, embora continue selectiva relativamente à comida.
“Continua a demonstrar selectividade e necessidade de incentivo constante para comer. Já não preciso de estar sempre em cima dela, mas ainda não é fácil”, refere.
Distúrbio vai além da selectividade alimentar
Segundo a nutricionista Ana Paula Sanches, o DAP é uma condição complexa que reúne diferentes dificuldades relacionadas com a alimentação infantil e pode comprometer o crescimento e desenvolvimento da criança.
Conforme explica, o DAP define-se como uma condição em que a criança não apresenta ingestão oral adequada para a idade, podendo envolver diferentes dimensões. “Pode estar associada a disfunção médica, disfunção nutricional, dificuldade de se alimentar ou algum distúrbio psicossocial”, refere.
Um dos aspectos mais frequentemente confundidos pelos pais é a diferença entre selectividade alimentar e DAP. Ana Paula Sanches esclarece que a selectividade pode fazer parte do quadro, mas não o define necessariamente.
“No caso da selectividade, a criança acaba por preferir sempre os mesmos grupos alimentares”, explica.
Já no DAP, o problema pode envolver dor, medo de engasgar, alterações sensoriais, dificuldades motoras e factores psicológicos que interferem directamente na aceitação alimentar.
A fonoaudióloga Viviane Moura afirma que nem toda a dificuldade alimentar na infância é um transtorno e que entre os 2 e 6 anos, é comum que a criança apresente períodos de seletividade, redução do apetite ou resistência a novos alimentos.

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“Isso acontece por conta de alguns fatores do desenvolvimento, como busca por autonomia, medo de experimentar novos alimentos e mudanças no ritmo de crescimento”.
“No entanto, o problema deixa de ser considerado apenas uma fase e passa a ter relevância clínica quando há persistência, intensidade e impacto funcional na saúde e desenvolvimento dessa criança e grandes prejuízos nutricionais”.
Viviane Moura observa frequentemente estes comportamentos em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), embora o distúrbio não esteja limitado a este grupo.
Há crianças, exemplifica, que comem apenas comidas trituradas, outras que só comem se for tudo colocado de forma separada no prato e comem um de cada vez, outras que não aceitam nada além de bolachas e sumos industrializados de uma marca específica.
Em alguns casos, a criança não consegue mastigar correctamente determinados alimentos ou não possui força muscular suficiente para triturá-los.
“Por isso escolhe alimentos de fácil processamento ou amassamento”, explica.
Influencia do ambiente familiar
As duas especialistas concordam que o ambiente familiar desempenha um papel central na forma como a criança constrói a sua relação com a alimentação.
Rotinas caóticas, pressão constante à mesa, experiências negativas ou falta de previsibilidade podem aumentar a ansiedade alimentar e reforçar a recusa.
Ana Paula Sanches sublinha que é importante estabelecer uma rotina alimentar estruturada, com horários e ambientes adequados para as refeições.
“A criança deve reconhecer horários e locais próprios para comer”, recomenda. A nutricionista alerta ainda para o excesso de beliscos ao longo do dia, que pode comprometer o apetite no momento das refeições principais.
É preciso respeitar os sinais de fome e saciedade da criança e evitar chantagens, ameaças e imposições. “É muito importante a exposição frequente a diferentes sabores, texturas e consistências”, aconselha Viviane Moura.
Nesse sentido, Ana Paula Sanches reforça que a introdução alimentar representa uma janela de oportunidade para o desenvolvimento do paladar infantil.
“É o momento de oferecer alimentos naturais, variados e saudáveis, para que a criança desenvolva uma boa relação com a comida. Se oferecermos alimentos naturais, é isso que a criança vai aprender. Se oferecermos produtos industrializados, é isso que ela vai aprender”, sustenta.
Sinais de alerta muitas vezes ignorados
A nutricionista Ana Paula Sanches acredita que muitos casos continuam subdiagnosticados, sobretudo porque vários comportamentos são encarados como fases normais da infância.
“Acredito que existem muitos casos, mas acabam por ficar subdiagnosticados porque o conceito de DAP é recente e ainda pouco conhecido entre profissionais e famílias”, argumenta a nutricionista.
Segundo indica, uma ingestão oral prejudicada por mais de duas semanas já merece atenção.
Outros principais sinais de alerta estão na demora excessiva nas refeições, recusa persistente de alimentos, necessidade constante de distrações como televisão ou telemóveis, vómitos frequentes, engasgamentos, ansiedade alimentar e aceitação muito limitada de alimentos.
“Não é normal a criança demorar muito tempo para comer ou precisar de uma tela para se alimentar”, alerta.
Para além do contexto familiar, a escola pode desempenhar um papel importante na identificação precoce do problema. Professores e auxiliares conseguem muitas vezes perceber padrões alimentares incomuns, sobretudo em crianças que almoçam diariamente na escola.
“Quando a criança evita sistematicamente determinados alimentos, recusa a alimentação escolar ou apresenta grande ansiedade à hora da refeição, estes comportamentos podem indicar a necessidade de avaliação mais aprofundada”, refere Ana Paula Sanches.
Papel do fono e tratamento
O tratamento envolve normalmente uma equipa multidisciplinar composta por médicos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos.
A American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) determina a fonoaudiologia como uma das áreas centrais no manejo dos Distúrbios Alimentares Pediátricos, sobretudo quando existem alterações sensório-motoras ou de segurança alimentar.
Como explica a fonoaudióloga Viviane Moura, a alimentação não envolve apenas comer.
“Ela depende de um conjunto complexo de habilidades motoras, sensoriais, neurológicas, respiratórias e comportamentais que começam a se desenvolver desde o nascimento. Nesse contexto, a fonoaudiologia avalia e intervém em funções como sucção, mastigação, deglutição, respiração, coordenação oral e transição alimentar”.
Também podem ser solicitadas avaliações complementares como videolaringoscopia, otorrinolaringologia, gastroenterologia e nutrição.
“Muitas crianças conseguem desenvolver melhora significativa das habilidades alimentares, ampliar o repertório alimentar e alcançar alimentação mais funcional e segura ao longo do acompanhamento terapêutico”, explica Viviane Moura.
O tratamento é sempre individualizado e baseado em evidências, já que os distúrbios alimentares têm múltiplas causas. Na fonoaudiologia trabalham-se exercícios de coordenação oral, fortalecimento funcional, mastigação e deglutição.
Em conjunto com a terapia ocupacional, são aplicadas estratégias de dessensibilização sensorial e exposição gradual aos alimentos. A psicologia actua nas questões emocionais e comportamentais relacionadas à alimentação, enquanto médicos e nutricionistas acompanham a saúde geral e o estado nutricional da criança.
O processo, contudo, costuma ser gradual. Segundo a nutricionista Ana Paula Sanches, muitas crianças passam por etapas sucessivas até conseguirem aceitar um alimento.
“A criança vai tolerar o alimento, depois aceita-o no prato, depois toca, cheira, leva à boca, mastiga e engole”, descreve.
Nos casos associados a alterações neurológicas ou sensoriais, Viviane Moura refere que o objectivo nem sempre passa por normalizar totalmente a alimentação, mas sim promover maior funcionalidade e qualidade de vida.
“O foco é garantir maior autonomia, segurança e qualidade de vida para a criança e para a família”, conclui.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.
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