Entre fumo, cheiro intenso, calor e viaturas carregadas, há quem encontre na lixeira municipal de São Vicente a única forma de garantir o sustento. É assim desde há muito. Todos os dias, homens e mulheres disputam restos de sobrevivência e objectos que ainda têm algum valor.
São 10 horas de uma manhã de Julho. Um grupo assa carne encontrada no lixo de alguém. Um homem espera por um camião que se aproxima. Corre em direcção à caixa, tentando subir com o carro ainda em movimento. Sabe que não pode distrair-se se quiser ser o primeiro a chegar. Restos de comida, metais, roupas ou coisas que ainda podem render dinheiro.
Joana tem 55 anos. É mãe de cinco filhos adultos, todos criados com o que conseguiu catar da lixeira ao longo das últimas quatro décadas. Estava grávida quando ali chegou pela primeira vez.
“Quando vim para cá, estava grávida. Fui trazida pela minha mãe, depois de chegar de Santo Antão. Acabei por ficar aqui, na lixeira. Fui levando a minha vida e continuo a navegar neste espaço sem qualquer problema”, diz.
Joana mora no Iraque, bairro paredes-meias com a lixeira. Procura ferro, cobre, alumínio, restos de comida para os porcos e qualquer objecto que possa vender. É também na lixeira que encontra, muitas vezes, os alimentos que lhe permitem sobreviver.
“Encontro batata, galinha, peixe, toucinho. Às vezes, encontro arroz e açúcar, que levo para poder sobreviver em casa. Também tento conseguir alguma sucata e comida para os meus porcos. Quanto aos metais, queimo-os e vendo-os para comprar água e tabaco para o meu cachimbo”, explica.
Ao longo de mais de quatro décadas, Joana já viu de tudo.
“Durante todo esse tempo, já encontrei pelo menos 10 bebés mortos, ainda com a placenta e tudo. As autoridades vêm, fazem as diligências e depois levam-me a casa”, detalha.
A história de Nigel não é muito diferente. Tem 42 anos, mas chegou à lixeira aos 10, também levado pela mãe. Ali regressa sempre que necessário.
“Quando não tenho trabalho, é aqui que recorro para tentar conseguir o meu pão de cada dia. Quando cá cheguei, colocavam-me deitado num sítio, enquanto catavam as suas coisas. Não é que a minha mãe trabalhasse aqui, mas, quando a situação se complicava, vinha para cá tentar conseguir alguma coisa. Tenho um filho de 20 anos. Quando era bebé, conseguia dar-lhe tudo através daqui. Quase tudo o que lhe dei veio do que consegui encontrar aqui para vender”, recorda.
“Tento recolher um pouco de tudo o que dá para sobreviver. Cato sucata para vender. Às vezes, encontramos peixe e galinha e vendemos a algumas pessoas que criam cães. Por exemplo, estou aqui e, no espaço de cinco minutos, posso conseguir cinco, 10 mil escudos, ou mais. Mas há dias em que posso conseguir pouco ou nada. Ainda assim, nunca saímos sem nada”, garante.
‘Chefinho’ tem 25 anos e está na lixeira há 10. Com o rosto tapado, tenta proteger-se da coluna de fumo que o envolve enquanto extrai cobre de um conjunto de materiais.
“O meu dia-a-dia aqui passa por procurar sucata, comida para os porcos e materiais para reciclagem, de forma geral. Tento encontrar um pouco de tudo. Graças a Deus, consigo arranjar aqui o meu pão. Não tenho nada de mal a dizer deste lugar”, afirma.
Ainda criança, começou a frequentar a lixeira à revelia dos pais. Quando o pai morreu, ficou com a mãe e dois irmãos.
“A minha mãe vinha buscar-me aqui, até com a polícia, mas eu escondia-me. Depois de o meu pai morrer, em 2007, vi a situação em que eu, a minha mãe e os meus dois irmãos ficámos. Agora, vamos lidando com a situação”, desabafa.
Mudar de vida
Apesar de se ter tornado rotina de sobrevivência, nem todos aceitam que a lixeira seja o destino. Joana, Nigel e ‘Chefinho’ aceitariam de bom grado uma alternativa, assim ela surgisse. E há quem já tenha conseguido fazê-lo.
Yakouba Bamba, natural da Costa do Marfim, vive há 22 anos em Cabo Verde. Quando chegou a São Vicente, sem perspectivas, encontrou na lixeira a sobrevivência possível. Durante quatro anos, recolheu e vendeu sucata. Hoje, é empresário e compra materiais a quem continua a viver a vida que já foi sua.
“Estive naquela vida. Quando vim novo para São Vicente, trabalhei em dois lugares, mas, quando as coisas ficaram más, fui directamente para a lixeira. Como eu conhecia os materiais e, naquela altura, os filhos de cabo-verdianos não os conheciam, apanhavam-nos e entregavam-mos. Eu recolhia-os, esmagava-os e colocava-os em sacos para vender. Depois, começaram a conhecê-los, catavam-nos e vendiam-mos. Conheço a vida lá, na lixeira. Vivi cerca de quatro anos naquele lugar. A comida, tudo vinha de lá. Hoje, tenho uma empresa de reciclagem. Os jovens vão lá catar e depois vêm vender-me os materiais”, relata.
Yakouba também é presidente da Associação Abraço Unido, no Iraque. Reconhece a importância da lixeira para a subsistência de muitas famílias.
“A lixeira é uma mina, mas tem de haver organização. Não pode continuar assim, porque está muito abandonada. Quando vim para aqui, havia uma cerca, uma entrada e uma saída. Depois, os jovens foram cortando os arames e vendendo-os e a lixeira ficou sem vedação. A Câmara tentou fazer uma cerca, mas, se estivesse melhor organizada, seria melhor. Em primeiro lugar, seria bom se pudessem mudar a lixeira de lugar, porque a população já se aproximou muito da zona e isso traz muitos problemas, por exemplo, por causa do fumo”, defende.
Caminhos
O psicólogo William Lemos conhece de perto a realidade da lixeira de São Vicente. Nos últimos sete anos, tem trabalhado em projectos sociais junto daqueles que, de uma forma ou de outra, são empurrados para o espaço de estigma.
“Dificilmente alguém vai ali como primeira opção. São pais e mães de família. Inclusive, às vezes, encontram-se crianças, normalmente acompanhadas por algum irmão ou mesmo pela mãe. São pessoas que já não sabem onde procurar auxílio. Costumam recorrer à amizade de alguém que já trabalha lá. Muitas vivem em casas de lata. Algumas vão lá porque perceberam realmente uma oportunidade de negócio. Existe uma oportunidade de negócio na lixeira, só que não é explorada como deveria”, declara.

“Eu costumava dizer-lhes o seguinte: ‘Não é por trabalharem com o lixo que a vossa vida precisa de ser um lixo. Não é por trabalharem com o lixo que o vosso coração precisa de estar sujo.’ Podem trabalhar, porque este é um trabalho digno como qualquer outro. No entanto, precisam de cuidar de si, proteger-se e estabelecer horários. Muitos deles não saem de lá. Passam o dia e dormem naquele espaço. É um ciclo vicioso que acaba por se tornar uma prisão”, reforça.
O psicólogo defende um Estado mais presente, com instituições públicas mais envolvidas, para quebrar ciclos de pobreza.
“Para tirar alguém da lixeira, primeiro, é preciso dar-lhe oportunidades de educação, habitação digna e trabalho. Não é simples. Talvez modificar o ambiente da lixeira, criando uma organização, projectos de reciclagem, de reutilização e de tratamento adequado. Só que isso envolve muitas entidades e parece que ainda não foi uma prioridade”, lamenta.
A assistente social Eli Brito concorda. Refere falhas nos sistemas social, económico e habitacional e aponta para uma realidade que exige políticas sociais e projectos locais.
“Há necessidade de uma intervenção multidimensional. É preciso analisar a componente biológica, social e psíquica. Para isso, há necessidade de intervenção. Estamos a falar de São Vicente, pelo que é necessário articular, ou reforçar a articulação, entre os programas que a Câmara já desenvolve, as estruturas de saúde, nomeadamente a Delegacia de Saúde, os centros de saúde e os hospitais, as organizações da sociedade civil e as ONG”, observa.
“Esta situação ultrapassa o fornecimento pontual de um cabaz básico. Exige uma resposta mais estruturante e um reforço do acompanhamento destas pessoas, para que se sintam seres humanos capazes de sair da lixeira ou de evitar que as próximas gerações venham a frequentar este ambiente”, advoga.
Próxima etapa
Desde o início do ano, decorre, no local da lixeira, a empreitada de construção de um aterro controlado. Numa área de 7,9 hectares, os resíduos serão compactados, depositados e cobertos. O projecto é financiado pelo Fundo do Ambiente e gerido pela Agência Nacional de Água e Saneamento.
A medida, acredita o director de Ambiente da Câmara Municipal de São Vicente, João Barros, deverá reduzir os maus cheiros, os incêndios, a proliferação de insectos e animais e a dispersão do lixo pelo vento.
“As obras começaram em Março, com a construção dos muros de vedação em betão, mas, devido a alguns constrangimentos, só deverão ficar concluídas em Outubro. Um dos muros já está terminado e está prevista a construção de mais dois. A lixeira vai ter iluminação, uma área de gestão e escritórios logo à entrada. Haverá também controlo de entrada de viaturas e pesagem”, aponta.
O responsável garante que o projecto não deixa de fora quem vive da lixeira, aproveitando-se a mão-de-obra ali existente.
“Porque os catadores já fazem a separação do lixo. Vocês estiveram na lixeira e viram que já ganham o seu pão com a separação de plásticos, ferro, metais, entre outros materiais. São pessoas que estão lá, que sabem muita coisa, e não podíamos deixá-las de fora”, remata.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.
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