Numa paragem de Terra Branca, Lígia, moradora de Bela Vista, espera pelo transporte para o centro da cidade. Diz que deixou de carregar o próprio passe e recorre cada vez mais aos táxis, devido à falta de autocarros na sua zona. “Precisamente porque não há autocarros”, relata.
Para apanhar um autocarro, precisa de caminhar até Terra Branca ou à zona da Orca, junto ao Braz de Andrade. À noite, a situação agrava-se, ficando muitas vezes dependente de um taxista que aceite ir buscá-la a casa.
O recurso ao táxi tem pesado no orçamento familiar. Para o Plateau, paga 150 escudos a partir de Terra Branca, mas 200 escudos quando parte de Bela Vista. Para reduzir os gastos, percorre parte do trajecto a pé e depois apanha um hiace para ir trabalhar. “Andar de táxi tem mexido com o meu bolso”, conta.
As dificuldades afectam também o filho, que já chegou atrasado e acumulou faltas na escola, apesar de ter o passe carregado. “A aula começa às 13h00, mas ele tem de estar na paragem meio-dia em ponto para conseguir chegar a horas”, afirma.
A estrada de acesso à Bela Vista agrava o problema. Segundo Lígia, alguns taxistas recusam fazer o percurso por recearem danos nas viaturas e, quando aceitam, chegam a aumentar o preço. “Então sempre aumentam mais 50 escudos”, denuncia.
Achada São Filipe prefere os hiaces
Em Achada São Filipe, Candice descreve uma realidade um pouco diferente. Os autocarros têm pouca procura fora do período escolar, porque os hiaces passam com frequência e acabam por ser a opção da maioria dos passageiros.
“Aqui as pessoas quase não andam de autocarro porque, no tempo em que a pessoa fica à espera, passam 10 ou 15 hiaces”, afirma. Aliás, avança, os trabalhadores, mesmo com passe, optam pelos hiaces sempre que o autocarro se atrasa.
O preço também pesa na escolha. A viagem de hiace custa 50 escudos e faz ligação directa ao Plateau, enquanto os táxis são escassos na zona.
“Os táxis não gostam muito de vir a São Filipe, alegam que não compensa e as pessoas mesmo apanham táxi mais quando se trata de uma emergência”, conta.
Durante o período escolar, o aumento do número de estudantes faz crescer a procura pelos autocarros, levando as paragens a encherem e, por vezes, os veículos a chegarem já lotados às zonas mais baixas do bairro.
É neste contexto que, conforme declara, muitos hiaces provenientes do interior acabam também por transportar passageiros dentro da cidade da Praia, suprindo parte da procura por transporte urbano.
À noite, contudo, as alternativas reduzem-se. Os hiaces deixam gradualmente de circular e encontrar um táxi torna-se difícil. “Apanhar um táxi à noite, a menos que a pessoa tenha o contacto de um taxista que possa vir buscá-la, é difícil”.
Táxis dizem não conseguir responder à procura
A procura por táxis tem aumentado na Praia, sobretudo devido ao crescimento da cidade e ao défice de autocarros, revela Adriano Monteiro, presidente da Associação dos Taxistas da Praia. As maiores pressões registam-se nas horas de ponta, entre as 07h40 e as 08h30, ao meio-dia e entre as 16h00 e as 18h00.
“A cidade está a crescer, então, é claro que a procura aumenta. Não só a cidade está a crescer, mas também temos um défice de autocarros. Não temos autocarros pontuais ou com horas identificadas e tudo isto faz com que haja mais procura pelos Táxis”, explica o presidente da Associação dos Taxistas da Praia.
A associação considera que os 750 táxis existentes na capital são insuficientes para responder à procura. Das 43 licenças recentemente atribuídas pela Câmara Municipal da Praia a profissionais com mais de 20 anos de actividade, 33 já estão em funcionamento.

“Para resolver esta situação neste momento é dar mais licenças. Porque com mais licenças há como combater os serviços clandestinos. Há na cidade da Praia mais de mil clandestinos a funcionar e é porque há espaço, há falta de táxis”.
A paralisação dos autocarros na semana passada aumentou o volume de trabalho dos taxistas, mas também expôs a insuficiência da frota para absorver a procura adicional.
“Foi um constrangimento para os clientes e o número de táxis não é suficiente, portanto, as pessoas recorreram a outros serviços para chegarem às suas casas. Por isso, se tivermos mais números de táxis, a resposta pode ser melhor”, considera.
Bairros com menor cobertura
A dificuldade em encontrar táxis não é igual em toda a capital. Adriano Monteiro aponta como exemplo os bairros Alto da Glória e Jerusalém, onde a distância relativamente às zonas de maior circulação pode tornar pouco rentável a deslocação de um táxi sem garantia de encontrar passageiros.
“O que um táxi vai fazer naquele lugar se alguém não o levar? Se for para ir procurar um cliente é difícil encontrar um. Uma hora ou outra pode aparecer um cliente, mas é difícil”, explica.
As condições das estradas e a segurança dos motoristas e das viaturas constituem outros factores apontados pela associação. Segundo Adriano Monteiro, os assaltos têm levado vários profissionais a abandonar o serviço nocturno, enquanto algumas vias em más condições também desencorajam a entrada em determinados bairros.
“À noite há menos táxis hoje em dia devido aos assaltos. Agora, com esse sistema do Táxi Seguro, acredito que ao atingirmos mais números de táxis, porque neste momento apenas 100 Táxis estão equipados com o aparelho, haverá mais viaturas a fazer frete à noite”, perspectiva.
Segundo enumera, as tarifas são outro dos problemas apontados pelos taxistas. Sem um mecanismo oficial que determine o valor das viagens, Adriano Monteiro considera que os preços podem variar entre condutores e defende a utilização de um taxímetro.
“Se eu achar que uma corrida custa 150, o outro pode achar que é 170. Temos de ter uma ferramenta legal que dê um preço justo. Neste caso, pode ser um taxímetro”, defende.
Como exemplo da desactualização que considera existir, Adriano Monteiro compara o preço de uma viagem entre o Plateau e Achada Santo António com o custo dos combustíveis de há duas décadas.
“Se eu apanhar alguém no Plateau para Achada Santo António cobro 150 escudos, um preço que é aplicado há mais de 20 anos. Quando um litro de combustível custava 60 escudos e hoje um litro de combustível custa 159 escudos. É claro que o preço não devia ser o mesmo. Nós é que perdemos”, argumenta.
Além do combustível, indica despesas com a manutenção e pneus. Afirma que os taxistas precisam de percorrer mais quilómetros para obter rendimentos semelhantes aos de anos anteriores, num cenário que descreve como uma disputa constante por passageiros.
“Por exemplo, há cinco anos, 180 quilómetros ou 200 fazíamos um dia de trabalho, hoje em dia não. É preciso andar 300 ou mais quilómetros para que possamos ter o mesmo valor que conseguíamos antes. O que quer dizer que agora temos de andar mais”, compara.
A falta de vias alternativas é outro constrangimento, conforme relata o presidente da associação.
“Se formos ver, às vezes na Praia, num momento acontecem três ou quatro acidentes ao mesmo tempo. Um na Avenida Estrada Nova, outro na Avenida Cidade de Lisboa, outro na Terra Branca e se calhar temos dois polícias de trânsito para fazer a ocorrência desses acidentes. Imagina o tempo que leva para remover essas viaturas da estrada. São constrangimentos e mais constrangimentos por todos os lados”.
SolAtlântico sem disponibilidade para entrevista
Contactada para esclarecer as dificuldades apontadas pelos utentes, a SolAtlântico, única empresa de transporte colectivo urbano na Praia, informou que não seria possível conceder uma entrevista neste momento, devido à ausência do administrador, que se encontra de férias.
Entretanto, de acordo com as informações disponíveis no site da empresa, a SolAtlântico opera 17 linhas que ligam diferentes zonas da cidade ao Plateau.
Transportes condicionam rendimento e produtividade dos trabalhadores
As dificuldades nos transportes colectivos de passageiros têm impacto directo na actividade económica uma vez que afectam a produtividade dos trabalhadores e reduz o rendimento disponível das famílias, sobretudo as de menores rendimentos, considera o economista Aldino Sousa.
Segundo o economista, os atrasos frequentes, o cansaço e as situações de stress provocadas pelos problemas de mobilidade acabam por repercutir-se no desempenho profissional.
A situação agrava-se quando os passageiros são obrigados a recorrer a alternativas mais caras para chegar ao trabalho. “As dificuldades nos transportes colectivos de passageiros afectam todos os agentes económicos. Afecta a produtividade do trabalho decorrente de atrasos frequentes, cansaço e exposição dos utilizadores a situações stressantes, influenciando o tempo, permanência e rendimento no trabalho”.
Além disso, acrescenta este economista ouvido pelo Expresso das Ilhas, “afecta os utilizadores ao nível do rendimento por muitas vezes terem de recorrer a alternativas de transportes menos económicas para chegar a tempo ao seu posto de trabalho. Pode imaginar-se um trabalhador que aufere salário mínimo e com passe mensal já adquirido, mas, é frequentemente obrigado a pagar um transporte alternativo, com custo mais elevado, para chegar ao trabalho. Ora isto afecta directamente o seu rendimento disponível”, diz.
Aldino Sousa salienta que os transportes públicos são essenciais para o acesso ao emprego, aos serviços públicos, ao comércio e ao ensino, pelo que as falhas na sua prestação têm efeitos económicos mais amplos.
“Penso, que as famílias de baixo rendimento e os trabalhadores informais tendem a ser os mais afectados em consequência de dificuldades de mobilidade. Quanto mais falhas houver na frequência, fiabilidade e rapidez dos transportes colectivos maiores são perdas económicas nas suas actividades e no fim de contas no rendimento disponível. É o custo da ineficiência.”
O peso dos transportes torna-se particularmente significativo para quem aufere o salário mínimo. Com o Passe Geral actualmente fixado em 3.100 escudos, o economista calcula que um trabalhador seja obrigado a abdicar de parte significativa do seu rendimento mensal só para pagar transporte.

“Um trabalhador que aufere salário mínimo tem que despender mensalmente cerca de 18% do seu rendimento com transporte e, muitas vezes é obrigado a pagar um transporte alternativo, agravando ainda mais o seu minguado orçamento mensal”.
A dependência de uma única empresa de transporte colectivo constitui, igualmente, um risco para a economia da capital, na perspectiva de Aldino Sousa. “O mercado depender de uma única empresa de transportes colectivos de passageiros incorpora riscos diversos: Desde logo o risco de continuidade. Havendo problemas de ordem operacional quer por falhas do sistema, quer por situações de greves, por exemplo, a grande massa trabalhadora e estudantil da capital fica em apuros”.
No sector dos táxis, o economista chama a atenção para a existência de centenas de viaturas que operam sem licença.
A actividade clandestina representa ainda perdas para o Estado, nomeadamente através da evasão fiscal e da ausência de contribuições para o INPS.
“O custo da clandestinidade decorre sobretudo em evasão fiscal, perda de receitas para o Estado e ausência de contribuições para o INPS. Este último, além de privar o sistema de Segurança social de receitas, em caso de necessidade de prestações por motivos de acidente será o Estado a arcar com os custos agravando os custos com a saúde pública e sinistralidade”.
Para o economista, a mobilidade urbana deve merecer maior atenção das políticas públicas, através de melhor planeamento e regulação.
“Espera-se, melhor planeamento, regulação com o objectivo de uma maior frequência, maior fiabilidade e maior rapidez nas ligações com menor custo possível para os utilizadores”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.
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