Subida do preço dos combustíveis aumenta pressão sobre transportes e famílias

PorEdisângela Tavares,13 set 2026 14:55

O aumento dos preços dos combustíveis em Setembro voltou a colocar pressão sobre profissionais do transporte e sobre famílias que já enfrentam dificuldades para acompanhar a subida do custo de vida. Entre taxistas, passageiros e outros trabalhadores ligados ao transporte, cresce a preocupação com o impacto dos novos custos nas deslocações e nos serviços.

A partir de 1 de Setembro, a gasolina passou a custar 175,40 escudos por litro e o gasóleo normal 169,40 escudos, de acordo com a actualização determinada pela Agência Reguladora Multissectorial da Economia (ARME). Condutores dizem que já sentem a pressão nos custos, enquanto famílias receiam novos aumentos no transporte e no preço dos bens essenciais.

Segundo a ARME, a actualização reflecte a evolução das cotações internacionais dos produtos petrolíferos registada durante Agosto. A nova tabela vigora durante todo o mês de Setembro.A actualização inclui ainda uma componente destinada à recuperação faseada de parte do défice acumulado durante o período em que esteve suspenso o mecanismo de fixação dos preços.

Mas, para quem precisa do combustível para trabalhar, a discussão já ultrapassa a evolução das cotações internacionais. O aumento começa a pesar directamente nos custos diários e levanta uma questão que se repete entre condutores e passageiros: quem vai absorver a diferença?

“A conta não vai fechar”

Para Jardel Pina, taxista na Cidade da Praia, o aumento de Setembro representa mais uma pressão sobre uma actividade em que o rendimento diário depende directamente do número de viagens realizadas.

“O aumento deste mês foi muito expressivo. Isso significa que, no próximo aumento, a gasolina vai chegar aos 200 escudos por litro”, afirma, numa referência à possibilidade de novos aumentos, e não a uma previsão oficial sobre os próximos preços.

Para o taxista, a subida altera a equação diária de quem trabalha ao volante.

“Imagina quanto de combustível gastamos num dia para trabalhar. Temos a nossa meta diária que temos de atingir para entregar o dinheiro ao patrão. Essa conta não vai fechar se não aumentarmos o preço da corrida.”

Jardel Pina reconhece que uma eventual subida do preço das viagens terá impacto directo nos passageiros e poderá provocar reclamações. Ainda assim, considera que os profissionais não conseguem continuar a absorver sozinhos o aumento dos custos.

“Temos consciência de que o passageiro vai sentir e vai acontecer reclamações, mas nós taxista não vamos conseguir suportar este aumento sem aumentar o custo dos trajectos.”

Na sua perspectiva, o debate já não deveria estar centrado apenas na possibilidade de novos aumentos.

“O Governo teve tempo suficiente para planear e amortecer esse custo. Agora estão a dizer que não vai subir mais, mas o aumento já aconteceu neste mês de Setembro. Precisamos de medidas para aliviar essa pressão que já estamos a sentir.”

A preocupação surge num momento em que os profissionais do transporte rodoviário já vinham manifestando inquietação. Em Agosto, condutores de hiaces de Santiago Norte chegaram a pedir intervenção do Governo e da ARME relativamente às tarifas praticadas nas ligações entre os municípios.

Passageiros

Se para quem conduz o combustível representa um custo directo de exploração, para quem utiliza transportes diariamente a preocupação está no impacto que uma eventual revisão das tarifas poderá ter no orçamento familiar.

Na Praia, Keila, empregada doméstica e mãe de duas crianças em idade escolar, acompanha a evolução dos preços com preocupação. Com o regresso às aulas previsto para 21 de Setembro, de acordo com o calendário escolar, a principal dúvida é se o aumento dos combustíveis acabará por chegar também ao preço dos transportes colectivos.

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“Todos estamos apreensivos com o aumento do preço dos combustíveis, porque mais cedo ou mais tarde vai chegar ao cartão-passe dos autocarros.”

Keila explica que utiliza um selo de adulto e dois de criança e espera que o custo das viagens não seja aumentado. A própria admite que, do ponto de vista de quem trabalha no transporte, um aumento pode parecer justificável perante a subida do combustível. O problema, diz, está na capacidade financeira das famílias.

“As aulas recomeçam logo no dia 21 de Setembro. Estamos na torcida para que os autocarros não aumentem o preço dos bilhetes. O aumento seria justo porque o combustível aumentou de preço, mas a pessoa que vive de um salário mínimo não está podendo acompanhar os sucessivos aumentos de tudo em Cabo Verde.”

Para Keila, a pressão não está apenas nos combustíveis. “Não é só o combustível. A comida está caríssima, os materiais escolares, tudo aumentou de preço. Até que ponto vamos conseguir suportar esses aumentos?”

Impacto

O impacto começa igualmente a ser sentido por quem presta serviços particulares de transporte. Michael trabalha no transporte de passageiros e mantém contratos com pais e encarregados de educação para levar e buscar crianças à escola. Actualmente, diz que não pretende aceitar novos contratos porque os valores acordados já não compensam os custos. “Tenho um grupo de cinco estudantes do ensino básico obrigatório. O custo mensal para levar e trazer todos os dias sai em torno de 2.000 escudos por criança, mas este valor fica insustentável porque muitas vezes tenho de sair em horário de ponta para ir buscá-los.”

A actividade envolve não apenas combustível, mas também tempo e deslocações em períodos de maior congestionamento. “Com o aumento do preço temos de nos desenrascar para bater a meta diária. Esse trabalho leva tempo e, neste preço, é um valor simbólico para ajudar os pais, mas isso já não vale a pena.”

A pressão também é sentida por motoristas de veículos pesados utilizados no transporte de mercadorias.

Anilton, condutor de veículo pesado de carga, diz que o aumento já faz parte das conversas diárias entre profissionais e clientes. Segundo este profissional, uma das principais dificuldades está em explicar aos clientes que a subida do custo de combustível pode acabar por reflectir-se no preço dos trajectos.

“O aumento já está a ser sentido por todos, nós, os condutores, os passageiros e toda a população. Todos os dias debatemos com o cliente a questão do aumento. Alguns referem que já fazem o mesmo trajecto, nas mesmas condições, há muito tempo por um valor exacto e não aceitam que o aumento do combustível faça com que o mesmo trajecto seja mais caro.”

Para Anilton, a situação exige uma resposta que ultrapasse a capacidade individual de cada profissional. “É lamentável a situação. Estamos a tentar gerir da melhor maneira possível, com a esperança de que, em algum momento, alguma autoridade vai intervir e resolver a situação.”

ADECO

Perante a nova actualização, a Associação para a Defesa do Consumidor (ADECO) manifestou preocupação e apelou ao Governo para adoptar medidas urgentes, coordenadas e socialmente responsáveis. A questão não está apenas no aumento de um produto, mas no efeito acumulado que vários aumentos podem produzir sobre o rendimento das famílias.

MpD exige intervenção do Governo

O Grupo Parlamentar do Movimento para a Democracia (MpD) exige que o Governo intervenha para conter a escalada dos preços dos combustíveis, apontando “as medidas previstas no Orçamento Retificativo para 2026 (…) que incluem um pacote de cerca de 1.700 milhões de escudos destinado ao apoio aos combustíveis”. O debate coloca em cima da mesa a existência de instrumentos públicos de apoio e a capacidade do Estado para amortecer parcialmente as oscilações dos preços internacionais. Para o MpD, o impacto das subidas vai além do custo do abastecimento e poderá atingir os transportes, a produção de electricidade, a distribuição de água, a pesca, a agricultura, a indústria e a circulação de mercadorias, com reflexos nos preços dos bens e serviços essenciais.

“O actual Governo dispõe, portanto, de instrumentos e de cobertura orçamental para agir”, sustenta o grupo parlamentar, que considera insuficiente manter as verbas no Orçamento sem as transformar em medidas concretas.

Por agora, os preços definidos pela ARME permanecem em vigor durante todo o mês de Setembro. A actualização resulta da aplicação do mecanismo de formação dos preços, tendo em conta a evolução das cotações internacionais e os restantes componentes previstos na fórmula. A própria ARME informa que a tabela de Setembro inclui ainda uma componente de recuperação faseada de parte do défice acumulado durante o período de suspensão do mecanismo.

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Medidas de mitigação do Governo

Combustíveis
Entre Abril e Junho, o Governo suspendeu temporariamente o mecanismo automático de fixação dos preços dos combustíveis, estabelecendo limites aos aumentos. Para Junho, o Estado assumiu 70% do défice resultante da não actualização integral dos preços, ficando os restantes 30% sujeitos a recuperação faseada. (Boletim Oficial, Resolução n.º 63/2026 e Resolução n.º 95/2026)

Electricidade
Até 31 de Dezembro de 2026, os beneficiários da Tarifa Social de Electricidade mantêm um desconto de 100% sobre o incremento tarifário. Para as restantes categorias, foi fixado um desconto de 70%. A medida representa uma compensação financeira máxima de 529,08 milhões de escudos às concessionárias, suportada pelo Estado. (Boletim Oficial, Resolução n.º 98/2026 e Despacho Conjunto n.º 59/2026)

Apesar do fim do regime excepcional de formação dos preços dos combustíveis, o Governo mantém medidas de mitigação no sector eléctrico. A actualização dos combustíveis de Setembro inclui ainda uma componente de recuperação faseada de parte do défice acumulado durante o período de suspensão do mecanismo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1293 de 09 de Setembro de 2026.

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Autoria:Edisângela Tavares,13 set 2026 14:55

Editado porEdisângela Tavares  em  13 set 2026 14:56

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