Começava por lhe perguntar, porque há muitas pessoas que ainda não o conhecem: quem é que é Loisito Tavares de Sousa?
Sou o professor Loisito, tenho praticamente 20 anos de ensino e sou pai de dois filhos. Também sou atleta e participo sempre em actividades de reivindicação, de luta pela melhoria da vida dos cabo-verdianos, tentando contribuir, com aquilo que sei, para o bem-estar do povo. Já participei em vários eventos políticos e sempre estive activo na política. É importante realçar que Loisito não é uma personalidade política com actuação na execução de políticas públicas, mas sempre teve uma identidade política. Tenho a firme convicção de que a minha capacidade de luta, a minha sensibilidade humana, o conhecimento e valorização da família e dos direitos humanos, tudo isso é muito importante para Cabo Verde neste momento.
No fundo, é um activista?
Claramente.
Mas nunca esteve ligado à política partidária?
Política partidária não, mas já participei como fundador de um movimento no Tarrafal, em 2020, o MIT – Movimento Independente do Tarrafal, liderado pelo Dr. Cláudio Hernani de Sousa, em que fizemos um grande trabalho. Mudámos a consciência política, contribuímos com aquilo que pudemos no Tarrafal. É só pesquisar, podem ver que o Loisito não apareceu hoje. É um processo: estou num processo de contribuir para um melhor Cabo Verde.
E que experiência da sua vida considera que melhor o preparou para a presidência?
Há várias coisas que me prepararam, mas, neste momento, gostaria de realçar a história da minha vida. É uma história que retrata a vida dos cabo-verdianos. É a história de uma pessoa que não tem nenhuma filiação partidária, não tem grupos, mas tem uma individualidade que quer colocar ao serviço de Cabo Verde. Se analisarmos bem a situação actual de Cabo Verde, verificamos que urge a necessidade de um Presidente fora do arco do poder. Cabo Verde precisa de um Presidente fora do arco do poder. Um Presidente que reforce a questão da independência, porque o poder presidencial também é um poder. Há uma ideia, que não corresponde à verdade, de que o Presidente não tem poder. Isso é um bocadinho paradoxal, porque, se pode vetar e nomear e se representa o país, logo é um poder. Agora, este poder não está ao serviço de Cabo Verde porque, do nosso ponto de vista, é preciso um Presidente longe das amarras, principalmente partidárias. Por isso, neste momento, acho que a minha história de vida, de sacrifício, de luta, de resiliência, de combate, de seriedade e de coerência permite aos cabo-verdianos levar-me em consideração como uma opção para ser Presidente.
Tem 40 anos, é o mais novo dos candidatos. Porque decidiu, neste momento da sua vida, dar este “salto”?
É preciso repensar este conceito de candidato “novo”. Eu não sou novo na política. Na política, não é a idade que conta, mas sim a experiência, a coerência e a inteligência de acção concreta. No continente africano, por exemplo - como já disse o meu mandatário nacional -, não é a idade que determina quem é jovem ou quem é mais velho na política, mas sim a acção prática baseada na sabedoria, que consegue mudar a vida das pessoas. Somos novos, mas não caímos [nesta eleição] de paraquedas. É um caminho, um processo. Já demos o nosso contributo a nível local, já demos o nosso contributo a nível legislativo e agora queremos dar o nosso contributo a nível presidencial.
Então, não vai usar a sua juventude como um trunfo?
É um trunfo. É claro que uma pessoa que ainda tem a mente fresca, que pode fazer coisas novas, que ainda não tem uma carreira sólida no arco do poder cabo-verdiano, pode ser considerada nova na política. Este "novo" é do ponto de vista do sistema político cabo-verdiano, mas, em termos de luta, de emancipação, de dar força à luta contínua pela evolução de Cabo Verde, já há praticamente 20 anos que estamos a fazer isso. Só que agora é o momento de participar ao mais alto nível, de dar aos cabo-verdianos uma oportunidade de escolher algo novo e diferente.
Apresentou a sua candidatura e, num primeiro momento, havia cinco declarações por contabilizar pelo Tribunal Constitucional, pelo que não foi aceite. Como é que viveu esse momento?
O mandatário nacional definiu isso muito bem.É um momento árduo, mas também gratificante, cheio de aprendizagem. Também um momento com muitos altos e baixos. Entregámos os documentos de candidatura com a confiança e a tranquilidade de que fizemos um grande trabalho. O Acórdão 80/2026 explica os meandros desta decisão. O que importa saber é que foi um momento de muita aprendizagem, porque nós não frequentamos nenhuma universidade para fazer isso. É prática: acção - aprendizagem.E conseguimos realizar. É a primeira vez que um candidato de Santiago Norte, sem apoio, sem estar ligado ao poder, consegue apresentar uma candidatura com este perfil.
Conseguiu reunir apoios em pelo menos 10 concelhos. Quem são estas pessoas? O que acha que as levou a acreditar e a apoiar a sua candidatura?
Temos assinaturas de pessoas do Tarrafal, de São Miguel, de Santa Catarina, de São Lourenço dos Órgãos, de São Salvador do Mundo, de São Domingos, da Praia, de São Vicente, de Santa Cruz e de Ribeira Brava. Ribeira Brava, como está no Acórdão, foi fundamental para que a nossa candidatura fosse aceite, declarada oficial. A minha candidatura não nasceu num gabinete: nasceu nas ruas, de porta em porta, de assinatura em assinatura pelo povo das ilhas. Mesmo que tenha nascido no concelho de Santiago, eu não comecei a política hoje. Há um processo e as pessoas reconhecem-me, e também à minha equipa, composta por pessoas com cartas dadas. Então, não foi muito difícil recolher as assinaturas. Por exemplo, no Tarrafal, conseguimos muitas assinaturas, ficámos completamente surpreendidos e, no fim, sentimo-nos valorizados e sentimos um apoio incondicional. Eu não consigo descrever as dificuldades deste processo, mas com muita garra, com muita ambição e muita luta e com um mandatário nacional cheio de poder e força, conseguimos materializar. Também não podia deixar de mencionar Jailson Silva, um outro elemento do grupo. Conseguimos fazer um trabalho quase impossível.
Qual a sua leitura da forma como o cargo de Presidente da República tem vindo a ser exercido por todos os presidentes, em particular o mais recente, José Maria Neves?
Quanto à presidência do Dr. José Maria Neves, eu, como professor, realmente dou nota «Insuficiente», porque é uma presidência que não cumpre a Constituição e coloca em perigo o equilíbrio do Estado cabo-verdiano. É uma presidência que se baseou mais em polémicas. É uma presidência de boca calada. José Maria Neves, neste caso, não conseguiu ser o guardião e um representante fiel da nossa Constituição. Agora, chegando o tempo de campanha, ele resolveu sê-lo. Cabo Verde, mais do que nunca, precisa de libertar a figura do Presidente da República, porque, se analisarmos a fundo, os cabo-verdianos praticamente ainda não escolheram um Presidente da República no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que o Presidente da República deve ser independente e manter uma certa equidistância. Se tivermos, não um Presidente eleito por sistema de força partidária [será diferente]. O senhor José Maria Neves vai concorrer para o segundo mandato, mas, neste momento, tem o apoio do partido que está no Governo. E já foi, digamos assim, capitão deste partido. Como é que ele agora vai promover a equidistância, uma convivência saudável entre os poderes?
Mas todos os presidentes eleitos até hoje tiveram o apoio de partidos. Nenhum deles foi equidistante?
Cabo Verde está a sentir falta de um Presidente de verdade. Se tivesse um Presidente de verdade, muitas coisas que estão a acontecer na nossa terra não aconteceriam. Imagine-se alguém que se vai candidatar e que o PAICV vai apoiar. Imagine que o partido que está no poder quer fazer alguma obra. Que capacidade, que equidistância é que o Presidente vai ter para ser o árbitro do sistema? O motivo político da nossa candidatura leva isso em consideração: libertar o poder presidencial aqui em Cabo Verde.
Então, que tipo de Presidente seria Loisito Tavares de Sousa?
A primeira coisa é tentar colocar o poder nas mãos do povo, porque a nossa Constituição é resultado das aspirações genuínas do povo de Cabo Verde. A nossa Constituição tem tudo, precisa de ser integrada. A Constituição não pode ser morta, tem de ter vida. Os actores políticos devem provocar esse dinamismo para melhorar as condições de vida dos cabo-verdianos. E, neste momento, o Presidente da República não tem legitimidade para continuar a exercer este cargo.
O que o doutor Loisito faria diferente? Em que seria diferente, quer do incumbente, quer dos outros candidatos?
Teria aberto as portas do Palácio ao povo. Caminharia juntamente com o povo. Ouviria as preocupações do povo. Eu não seria um Presidente passeador, um Presidente que praticamente já andou o mundo inteiro, mas temos zonas de Cabo Verde que ele nunca visitou. Temos de ter um Presidente com dinamismo, que traz vida, confiança e união ao povo cabo-verdiano. Não um Presidente que governou sob a esfera do partidarismo e que agora quer ser o ponto de união. É impossível. A questão da Presidência é muito importante neste momento. O Cabo Verde de hoje não é o Cabo Verde de ontem. Quando recebemos a nossa independência, em 1975, a energia principal que nos deram foi a questão da inviabilidade, de que a nossa terra era inviável. Mas conseguimos. A geração pôs a mão na massa e conseguiu realizar. Claro, com muitos altos e baixos, com muitas energias negativas, mas isso é próprio de um processo de criação. Depois apareceu também a geração que deu o seu contributo e fez entrar a democracia em Cabo Verde. Agora temos um acontecimento fundamental na nossa terra, que é a questão dos Tubarões Azuis. Quer dizer, Cabo Verde agora tem uma fasquia muito alta e esta nova geração é muito ambiciosa, só que precisa de oportunidades, de confiança, principalmente, precisa de respeito para abraçarmos as competências que temos aqui. O maior recurso de Cabo Verde são os recursos humanos, mas também descartamos a ideia de que Cabo Verde é um país pobre. Temos, sim, uma mentalidade de desenvolvimento de porbreza, de exploração da pobreza, mas esta geração tem a ambição de elevar a qualidade de vida dos cabo-verdianos, de homenagear aqueles que, directa ou indirectamente, contribuíram para o processo de desenvolvimento de Cabo Verde e, principalmente, traçar uma nova caminhada, uma caminhada vitoriosa para a nação cabo-verdiana.
Mas quais são, para si, os principais problemas que Cabo Verde atravessa e onde o Presidente poderia usar a sua magistratura de influência?
Sobretudo em áreas sobre as quais o incumbente praticamente não falou nada. Problemas reais que estão a afectar a vida dos cabo-verdianos. Problemas de confiança, de acreditar na nossa juventude. Atacar os problemas na raiz. Temos grandes males sociais que estão a ser ignorados pela classe política. Tem problemas na família. A família precisa de empoderamento. Precisa-se de emprego, emprego jovem. Precisa-se de valorizar a competência, não a diluir. Em Cabo Verde, temos uma diluição de competência. Precisa-se de trazer políticas para o sector primário, para a produção. Cabo Verde precisa de visão que nos possibilite entrar no caminho da produção: produzir aqui.
Temos também questões de relações internacionais, rever alguns tratados, como o Acordo de Pescas, por exemplo.
O Presidente da República também é uma figura emblemática para a diplomacia, para a relação com os outros Estados. A nível internacional, que tipo de PR o dr. Loisito seria?
Não podemos continuar a nomear embaixadores partidários, como se estivessem a receber algum tipo de recompensa. É preciso chegar às nossas comunidades. É preciso investir no diálogo, é preciso formatar o papel de embaixador. Cabo Verde é um país diaspórico. Então, um embaixador é fundamental para sanar e melhorar as nossas relações internacionais.
Os candidatos independentes, olhando para o nosso percurso, costumam ter votações pequenas. O que é que seria, para si, uma candidatura bem-sucedida?
É ganhar as eleições de 15 de Novembro de 2026.
E o que é que espera que os cabo-verdianos compreendam de si e sobre a sua candidatura?
Queremos poder mostrar aos cabo-verdianos que somos a melhor opção neste momento para ocupar o cargo de Presidente da República. Porquê votar nesta candidatura? A nossa campanha vai responder a esta pergunta.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1297 de 07 de Outubro de 2026.
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