Como será a participação dos jovens nas Legislativas?

PorSheilla Ribeiro,11 abr 2021 8:51

Com o país em plena campanha eleitoral para as Legislativas de 2021, o comprometimento político da sociedade em geral e dos jovens, em particular, tem sido tema de discussões, sobretudo devido à elevada taxa de abstenção registada nas últimas eleições autárquicas que chegou a 41,60%. Nesta reportagem, o Expresso das Ilhas faz um conjunto de auscultações para abordar a participação de jovens e a política, enquanto cidadãos eleitores.

Segundo o sociólogo Adilson Semedo, a participação dos jovens nas eleições é “fundamental” para a manutenção do sistema político, mesmo não sendo a maioria dos eleitores. Por outro lado, afirma o mesmo interlocutor que é preocupante perceber “um certo desinteresse” dos mesmos nessa matéria.

“É preocupante que depois de tantos anos ao longo dos quais temos apercebido que a abstenção vem aumentando, não reparamos um verdadeiro interesse em estudar mais profundamente, tentar saber o que se está a passar na camada juvenil para ajudar a perceber e compreender esta abstenção”, diz o sociólogo.

Em termos hipotéticos, para Adilson Semedo faltam algumas referências que possam mobilizar os jovens no sentido de se evitar a abstenção. Este sociólogo acrescenta ainda que em Cabo Verde “negligencia-se” a educação cívica.

“A educação cívica muitas vezes é pensada muito na lógica da participação e não na lógica reflexiva. Então, o desenvolvimento da capacidade reflexiva, crítica, a nível da juventude é fundamental para que consigam, de facto, entender por si, por modo próprio, qual é a importância e qual é a sua relevância no envolvimento nos momentos políticos”, alega.

Para este especialista, a questão é perceber até que ponto o sistema e os actores políticos cabo-verdianos estão interessados num verdadeiro despertar de uma consciência reflexiva da juventude.

Nesse sentido, sustenta, é preciso entender o por quê de se chamar a atenção para a abstenção, e depois “não se fazer nada” para resolvê-la.

“Em termos comportamentais, não é um problema irreversível, mas exige atenção. O problema é até que ponto há um verdadeiro interesse ou, se calhar, os actores envolvidos não têm a verdadeira consciência daquilo que representa para esse sistema montado, o desenvolvimento de uma capacidade crítica da juventude”, aponta.

Jovens universitários e a política

Por seu turno, o docente da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Silvino Évora, afirma que enquanto professor universitário, desejava que o interesse dos jovens universitários pela política fosse maior.

“Quando falamos de estudantes universitários, falamos de uma parcela da sociedade que vai ter uma responsabilidade no futuro, responsabilidade de crítica. Porque sabemos que qualquer sociedade democrática precisa de críticas e não apenas no sentido negativo da palavra. Críticas no sentido de que temos de confrontar, pedir as contas, exigir a qualquer um que exerce poder público no sentido das coisas melhorarem para termos avanço”, começa por dizer.

Por esta razão, entende, seria importante que uma parte da juventude cabo-verdiana, sobretudo aqueles frequentam as universidades, fossem mais exigentes com os que exercem o poder e tivessem mais interesse na participação cívica.

“Os nossos jovens não estão ligados à sociedade. O desleixo que vemos na sociedade de uma forma geral, também se vê nos jovens universitários, o que nos deixa um pouco apreensivos em relação ao futuro do país porque não podemos construir quadros desmoralizados, quadros sem motivação de participar de forma crítica na evolução da sociedade”, profere.

Silvino Évora frisa que embora haja jovens activos, exigentes e participativos, a “grande maioria” passa à margem das questões políticas.

No mesmo sentido, Adilson Semedo aponta que apenas um grupo pequeno de universitários está ligado à política. Aliás, salienta, o interesse desses jovens por essa actividade é “fragmentada”.

“O problema é que muitas vezes essa dinamização é feita muito na lógica partidária. Muitos jovens universitários, ou já entraram ou acabam por ser incluídos nas dinâmicas e manobras partidárias e muitos acabam por perceber que pode ser um atalho para construir um futuro mais sólido”, menciona.

De uma forma geral, o sociólogo acredita que o envolvimento dos jovens na política de forma partidária, não favorece o desenvolvimento de uma consciência crítica e reflectiva.

“O que é uma pena porque a envolvência partidária a nível universitário muitas vezes ou está num extremo em que dizem “não tenho nada a ver com isso, não preciso saber porque não acredito” ou no extremo em que há jovens altamente engajados mas, muito na lógica partidária. Temos dois extremos que no meu entender não é, nesse caso, o mais vantajoso para o interesse não só da juventude, mas para o interesse do país”, discorre.

Cativar os jovens a participar na vida política

Conforme Adilson Semedo, desde a fundação da República Cabo-verdiana, o sistema político deu uma atenção particular à juventude. Mas, no seu ponto de vista, é preciso perceber até que ponto a autonomização reflexiva desse grupo esteve de facto em cima da mesa.

“Para mim, é uma das grandes lacunas que temos tanto na nossa primeira como na segunda República. Um jovem politicamente consciente acaba por ser um jovem partidariamente engajado e acho que essa situação é algo que, a longo prazo, traz problemas de forma geral ao país, ao Estado e à Nação”, alerta.

Isto porque, justifica, o engajamento político apenas na lógica partidária implica uma submissão e um comprometimento que é parcial e não com o todo.

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“E isso depois favorece o tipo de narrativas que temos, que é a redução do todo a uma parte e, às vezes, a ideia ou a ideologia que é sustentada por essa parte. Tudo isso, de certo modo, parece um tanto quanto abstracto ou teórico, mas para mim é um grande problema”, considera.

Adilson Semedo sustenta ainda que se os jovens não forem educados para um verdadeiro comprometimento com a sua Nação ou com o seu Estado, a taxa de desinteresse tende a aumentar, devido a lógica que faz com que as pessoas se interessem pelas questões políticas, a partir dos seus interesses pessoais.

“Eu invisto na política, na medida em que tenho interesses em jogo, interesses que espero alcançar. Quem se vê fora desse jogo, que acha que ali não é preciso fazer investimentos porque os seus interesses, em princípio, não estão sendo resguardados, a tendência é desligar, é abrir mão e pôr de lado”, exemplifica.

O pôr de lado, para o sociólogo é um “problema gravíssimo” porque é um tipo de mentalidade que “se está a reproduzir em relação ao futuro”. Mais do que reflexão, sugere, é tempo de perceber e levar essa questão da relação da juventude com a política como um problema geral e de fundo para o sistema político em causa.

Já Silvino Évora explana que, numa visão mais prática do conceito, “a política significa dar às pessoas ou projectos a confiança para resolver os seus problemas de vida”. Sendo assim, diz, quando alguém se predispõe a governar significa que vai tomar medidas colectivas que resolvem, ou, pelo menos, que dirime muitos problemas que a sociedade e camadas sociais vivem em determinados momentos.

“Quando determinados sectores na sociedade percebem que os seus problemas podem estar a aumentar e que com o tempo podem não se resolver na dimensão das suas expectativas, as pessoas acabam por criar uma certa desesperança. Às vezes, a desesperança pode ser não apenas com um partido, mas sim com partidos”, desenvolve.

Logo, prossegue, as pessoas acabam por criar a sensação de que nem um partido, nem outro, vai resolver o seu problema e que está sem alternativa.

“A abstenção é perder a crença de que existe uma proposta que defende a perspectiva de quem se abstém e que resolve os problemas que enfrenta. Entendo que há uma necessidade de quem toma as decisões, de ir à raiz do problema de cada uma das camadas da sociedade e conseguir criar nas pessoas uma sensação de que a política existe para servir as pessoas efectivamente”, ressalta.

Mas, conforme Silvino Évora, na prática tem havido muito discurso de que a política é voltada para as pessoas e falta saber se as pessoas estão a sentir, efectivamente, que estão sendo servidas. Porque, enfatiza, se não sentirem que estão sendo servidas pela política, acabam sempre por ficar em casa sem votar.

Os que votam pela primeira vez

Em Dezembro, Leizy Semedo completou 18 anos. Por isso, fez questão de se recensear para participar nas eleições do próximo dia 18. “Sempre tive vontade de votar. Estou mesmo feliz por poder exercer esse direito pela primeira vez, sempre via as outras pessoas da minha família votarem e ficava com vontade de votar, sentir qual é a sensação”, conta.

Esta jovem admite que já tem claro a ideia em quem irá votar. Mas, reconhece que a sua escolha é independente das propostas e das campanhas feitas nos últimos dias. “Vou votar sim, mas no partido que a minha família sempre votou”, garante.

Leya Silva, de 25 anos, também irá votar pela primeira vez, porque ao fazer o recenseamento aos 18 anos na sua ilha natal, logo se deslocou para Praia fazer a licenciatura.

“Desta vez, resolvi fazer a transferência porque alguém me informou que eu podia fazê-la. Mas, independentemente desse conselho, já estava a pensar em pedir transferência, ou ir para a minha ilha, e dar um voto para o meu partido de coração”, assume.

Esta entrevista narra que têm recebido todos os partidos que fazem a campanha porta-a-porta, mas que não presta atenção no que falam porque já tem em mente a sua opção de voto.

“Para mim não faz muita diferença ouvir as propostas dos outros partidos. Já sei em quem vou votar”, enfatiza.

Com 22 anos, Jéssica Moreira vai às urnas também pela primeira vez no dia 18 de Abril porque apenas resolveu recensear-se no passado Fevereiro.

“Até então não dava muita importância ao recenseamento e voto. Depois das eleições autárquicas comecei a pensar que é necessário para que eu, enquanto cidadã, possa fazer parte da decisão do rumo do país. Por isso, posso afirmar que no próximo dia 18 vou votar, eu quero sentir-me parte de algo”, relata.

Esta jovem assegura que já tem 99% de certeza em quem não vai votar, pelo simples facto “de não gostar” do partido concorrente. Desta feita, está a analisar as propostas que estão sendo apresentadas.

“Estou a analisar as propostas, mas sei que no fim vou votar mais por uma questão de afinidade”, constata. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1010 de 7 de Abril de 2021. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,11 abr 2021 8:51

Editado porJorge Montezinho  em  12 abr 2021 11:53

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