Na conferência de imprensa, Paulo Veiga considerou que os primeiros 100 dias do executivo são suficientes para identificar as prioridades governativas e avaliar a capacidade de resposta perante situações de crise. O dirigente do MpD centrou parte da sua intervenção na situação energética da ilha do Fogo, onde, segundo afirmou, várias localidades dos municípios de São Filipe, Santa Catarina e Mosteiros estiveram sujeitas a cortes de electricidade superiores a 24 horas consecutivas, durante quase duas semanas.
O presidente do MpD atribuiu a crise à falta de planeamento da manutenção programada da central eléctrica, anunciada a 18 de Setembro. Segundo Paulo Veiga, não foi disponibilizado um plano alternativo nem prestada informação oficial às populações durante dez dias. Reconheceu, contudo, que os problemas energéticos do Fogo são antigos e atravessam diferentes governos.
Em resposta às declarações do actual executivo sobre a falta de investimentos na central desde 2016, Paulo Veiga apontou a aquisição de um gerador móvel de 1 megawatt, um aval do Estado de 600 mil contos para a manutenção das centrais e um investimento de cerca de dois milhões de euros num novo gerador de 1.600 kW. Referiu ainda a central solar com baterias, financiada pelo Banco Mundial e em fase de testes desde Julho.
Outro dos eixos da intervenção foi o aumento dos preços dos combustíveis. Com base nos dados da entidade reguladora, Paulo Veiga indicou que, desde Junho, a gasolina aumentou 21%, o gasóleo 39%, o gasóleo destinado à pesca 61% e o combustível utilizado na produção de electricidade 78%.
O dirigente criticou a decisão do Governo de não prolongar, depois de 30 de Junho, o mecanismo de contenção dos preços dos combustíveis implementado pelo anterior executivo, que assegurava a absorção pelo Estado de cerca de 70% dos aumentos. Considerou contraditória a opção de manter uma medida de protecção para o gás butano e não a estender aos restantes combustíveis, defendendo que o executivo deve assumir as consequências dessas decisões.
Paulo Veiga criticou igualmente a ausência do chefe do Governo na primeira reunião de concertação social e no encontro de arbitragem orçamental com os partidos em que foram apresentadas as directrizes do Orçamento do Estado para 2027, realizados a 29 de Setembro, considerando que Francisco Carvalho, enquanto titular da pasta das Finanças, deveria estar presente nos momentos de diálogo.
A situação da agricultura e das pescas foi igualmente alvo de críticas. O presidente do MpD descreveu a campanha agrícola como particularmente difícil, devido à falta de chuva e à chegada tardia das precipitações, agravada pelos efeitos da tempestade tropical Gonzalo. Na Brava, afirmou, os agricultores já consideram o ano perdido. Quanto às pescas, apontou a ausência de uma decisão conhecida sobre o subsídio ao combustível anunciado pela ministra responsável pelo sector, a 14 de Setembro.
O presidente do maior partido da oposição chamou ainda a atenção para os cortes previstos nas orientações do Orçamento do Estado para 2027, que, segundo os números apresentados, reduzem em 56% o programa de sustentabilidade energética e em 29% as verbas destinadas à agricultura. Para Paulo Veiga, estas reduções contrastam com as prioridades anunciadas pelo Governo.
Na Brava, apontou o incumprimento da promessa eleitoral de resolver, nos primeiros 30 dias de mandato, os problemas dos transportes marítimos da ilha, nomeadamente através da pernoita diária de um navio no porto da Furna. O prazo terminou a 27 de Julho, sem que a medida tivesse sido concretizada, afirmou.
Neste balanço de cem dias de governação, Paulo Veiga apresentou quatro propostas ao Governo: a obrigatoriedade de planos de contingência antes de qualquer manutenção nas centrais eléctricas; o alargamento aos restantes combustíveis do mecanismo de contenção de preços aplicado ao gás butano; a compensação directa aos agricultores que perderam as colheitas, acompanhada da distribuição de sementes; e a criação de um cheque-combustível para taxistas e profissionais do transporte colectivo.
Para os taxistas e condutores de transporte colectivo, propôs um apoio mensal de oito mil escudos por veículo, até 31 de Setembro, em contrapartida pelo congelamento das tarifas. Para a pesca, defendeu uma compensação correspondente ao aumento do combustível desde Junho, através de descontos directos nas facturas.
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