Centro Nacional de Artesanato sem muros, uma nova cultura com pintores de dentro e músicos de fora

PorCarlos Filipe Gonçalves,13 fev 2019 6:16

Carlos Filipe Gonçalves-Músico e Jornalista
Carlos Filipe Gonçalves-Músico e Jornalista

​A propósito da cerimónia do início com pompa e circunstância de obras que vão ser realizadas no emblemático palacete do Senador Vera Cruz em Mindelo, S. Vicente chama atenção o seguinte: “Esta reabilitação, que, conforme a nova concepção, vai deixar de ter os muros de protecção tanto na parte da frente como no pátio, numa ideia, segundo a mesma fonte, de «liberdade» e de se celebrar uma «nova altura» no país, em que «as casas do Estado e do senhorio também passam a pertencer ao povo» cf. Inforpress, despacho de «04/02/19 - 6:23 p.m.».

Não deixa de suscitar apreensão a estética e integração naquele conjunto habitacional das obras projectadas, cf. Inforpress “O novo CNAD irá ser composto por três blocos, nomeadamente a parte antiga, que foi a residência do senador Vera-Cruz, que vai receber somente obras de reabilitação e melhoramento, o pátio que vai albergar uma loja e um café e ainda um anexo na parte traseira, que vai ser construído de raiz, com uma cave para se guardar os acervos, dois pisos para galerias, um piso para biblioteca e uma varanda e último piso para escritórios e ateliês.”

Com o devido respeito pelos arquitectos responsáveis pelo projecto, não se compreende que para outros edifícios constantes do património arquitectónico nacional, as Câmaras Municipais e o próprio Governo têm sido implacáveis, na conservação dos mesmos, sobretudo da traça e elementos «originais» e neste caso, se preveja a demolição dos muros que delimitam o edifício, e que o caracterizam sobremaneira… Vá lá que se proceda à demolição dos «casinhotos» no fundo do quintal, o que representa mais uma machadada na memória da Radio Barlavento, pois foi neles que esta rádio funcionou. Um museu da RB acaba de ficar inviabilizado… Já bastava, a machadada dos anos 1960 quando se demoliu um tanque-chafariz existente no centro do páteo interior do edifício que foi então cimentado e deu origem ao que hoje se pode ver…

Não sou resistente a mudanças, até gosto, e muito, de inovações! Mas, imaginem se um palácio ou outro monumento existente em Portugal ou noutro país, fosse alvo de desvarios arquitectónicos que lhes retiram partes do que foi o projecto inicial? Neste caso, a casa do Senador Vera Cruz, não se procurou ver o que eram os planos originais, que devem estar nos arquivos da Câmara? Procurou-se saber o que foi a história daquele edifício, que albergou o primeiro liceu, depois o Grémio e a Rádio Barlavento? Diga-se de passagem que não passou de um desvario da «revolução» depois da «tomada da Radio Barlavento», a instalação naquele edifício do Centro Nacional de Artesanato na parte traseira, e que depois da mudança da radio para novas instalações, acabou por ocupar a totalidade do edifício. De notar ainda, não houve qualquer nacionalização do Grémio e da Radio Barlavento, nem qualquer dispositivo legal que autorizasse a ocupação do edifício e dos bens que lá se encontravam! Será que o edifício foi comprado pelo Estado? A tomada da Rádio Barlavento, passou a ser um facto consumado, depois anos e anos, e na sequência muitas decisões «ministeriais» ao longo do tempo somam-se diversos «atentados» não só sobre aquele edifício, mas em muitos mais casos no que toca ao património arquitectónico do Mindelo. Na sequência de uma revolução/luta de classes ocorrida naquela época, a descaracterização do património arquitectónico da cidade do Mindelo, tem sido uma constante. Os protestos ou chamadas de atenção não são ouvidas, jamais se promoveu um debate, sobre o assunto, prevalecendo sempre as decisões tomadas no silêncio dos gabinetes e com múltiplas conivências. Para justificar/minimizar os atentados, recorre-se sempre ao montante dos investimentos. Segundo a Inforpress “A reabilitação e construção do CNAD vão ser também, segundo a mesma fonte, o “maior investimento”, em cerca de 50 mil contos, de um Governo de Cabo Verde no sector da cultura.”! E segundo a Inforpress “O presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves, assegurou, por seu lado, que com esta construção a cidade irá ficar «mais rica» e será uma mais-valia para todos.”

Todos partilhamos como disse o ministro “essa perspectiva de Mindelo como centro cultural, como grande pólo a partir de onde podemos projectar arte e cultura de Cabo Verde.”Mas, há que envolver as diversas sensibilidades, os artistas, os historiadores, investigadores e demais especialista e porque não, os mais velhos… Enfim, todos de mãos dadas, porque é preciso, evitarmos o sonho precipitado, a ilusão e a aparência, que surgem quando estamos longe da realidade e quando aqueles que supostamente deveriam fornecer os melhores conselhos, carecem de bases de sustentação e lastro cultural. Na verdade não conhecem o passado que foi apagado no interesse de muitos. Daí, que «as casas do Estado e do senhorio também passam a pertencer ao povo» significa a continuação/manutenção perversa de conceitos e imagens geradas por uma «revolução» que culminou com o 9 de Dezembro de 1974 em que este edifício foi o ponto nevrálgico dos acontecimentos: uma luta de classes, que terminou com uma invasão de propriedade, justificada mais tarde como sendo iniciativa das «massas populares».

Não hesito em dizer que a atribuição do edifício do Grémio/Radio Barlavento ao Centro Nacional de Artesanato foi um erro! A minha percepção é que se acedeu a um pedido de artistas plásticos de nomeada, tendo à cabeça Manuel Figueira, que justiça seja feita, dignificaram aquela arte incipiente até 1974 e vieram a beneficiar da dignidade do emblemático edifício,… E assim ficou para traz, a verdadeira história do edifício, que foi ter albergado a Radio Barlavento, uma radio de prestígio e fama no domínio da cultura, e como consequência, toda a ligação do palacete do Senador Vera Cruz à história da música de Cabo Verde. Ficou minimizada/ocultada uma parte substancial das memórias/história de Mindelo e S. Vicente! No entanto, com orgulho se colocou uma placa na parede daquele edifício, a marcar para a posteridade as primeiras gravações da diva Cesária Évora, cuja carreira e fama muito orgulham Cabo Verde! Mas, é preciso dizer que para além de Cesária Évora, por aquele edifício passaram e fizeram gravações, muitos e muitos outros nomes: Luis Rendall, B.Léza, Ti Goy, Titina, Mité Costa, Arlinda Santos… a lista é longa… No pátio daquele edifício, actuaram em saraus e bailes, os mais emblemáticos grupos musicais (conjuntos de Ti Goy, Jack Estrelinha e Tifefa, Voz de Cabo Verde, irmãos Marques da Silva, Tututa, etc. etc.)… Naquele edifício, leccionaram, os mais distintos professores e intelectuais quando ali funcionou o liceu. Por aquele edifício, passaram, gente da Claridade e de outros movimentos literários para fazer programas na Rádio Barlavento, que tanto sucesso, tiveram naquela época. O edifício residência do Senador Vera Cruz, é muito mais do que um Centro de Artesanato, nome indevido que surgiu, julgo inadvertidamente nos anos 1980! Aquele edifício foi e deve/deverá ser um Centro Cultural, uma vez que foi um centro de excelência ligado à música cabo-verdiana, à literatura e poesia, só muito mais tarde viriam a juntar-se as artes plásticas… (me desculpem os artistas ligados a essa área, mas a história foi apagada) a música/músicos foram esquecidos!

Por tudo isso e de acordo com o ministro, citado pela Inforpress, o edifício irá representar um “novo momento” na cultura. Aproveitamos pois este momento para solicitar que a verdade histórica seja reposta, que seja criado um Centro Cultural a funcionar no referido edifício, onde os músicos possam também estar representados (afinal a musica é a maior valência cultural de Cabo Verde!) bem como as outras artes… porque, convenhamos: Centro Nacional de Artesanato é uma designação redutora e circunscrita. Volto a citar o ministro “que as pessoas que visitarem São Vicente vejam que há um «grande centro» dedicado às artes”! Afinal, não é pela música que Cabo Verde é mais conhecido no mundo? Então…


Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 897 de 6 de Fevereiro de 2019.

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Autoria:Carlos Filipe Gonçalves,13 fev 2019 6:16

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  13 fev 2019 6:16

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