
O concerto de Tcheka e Mário Laginha hoje no Centro Cultural Português foi um acontecimento musical maior – desses que inscrevem um momento na memória cultural da cidade. Numa Praia cada vez mais aberta a diálogos artísticos, a apresentação do duo confirmou que a verdadeira inovação nasce do encontro entre sensibilidades maduras e identidades firmes.
Mário Laginha, pianista de referência no panorama português, trouxe ao palco uma escrita musical depurada e rigorosa. No seu piano, a clareza técnica alia-se a uma imaginação disciplinada, onde cada nota é exacta e cada silêncio tem peso próprio. É música que pensa e respira, sem ornamentos supérfluos.
Tcheka, por seu lado, reafirmou a originalidade que o distingue no universo cabo-verdiano. A sua voz, cheia de textura e verdade, e a sua guitarra, simultaneamente rítmica e melódica, mantêm viva a batida de Santiago enquanto a projectam para territórios contemporâneos. Tcheka recria a tradição sem a diluir – e essa é a sua força.
O mérito do concerto residiu no modo como estes dois mundos dialogaram. Mário Laginha acolheu a pulsação crioula sem a domesticar; Tcheka integrou a arquitectura pianística sem perder a raiz. O resultado foi uma música de fusão no melhor sentido do termo: não mistura superficial de géneros, mas procura de um ponto de verdade entre duas linguagens exigentes.
Há doze anos, naquele mesmo espaço, começou o primeiro encontro da dupla. A estreia conjunta na Praia ganhou assim uma dimensão simbólica, quase de regresso a casa. E a resposta do público confirmou a importância do momento: um silêncio denso, atento, respeitoso, que só existe quando a arte atinge um nível de profundidade rara.
Este concerto mostrou que ambos se encontram num patamar de plena maturidade criativa. Juntos, oferecem não apenas espectáculo, mas uma proposta estética sólida – uma música que interpela, desafia e permanece.
Segue-se Mindelo e Ribeira Grande de Santiago. Quem assistir perceberá que este encontro não foi circunstancial: foi inevitável, necessário e, sobretudo, luminoso.
Porque há concertos que não se ouvem apenas – reconhecem-se.
– Manuel Brito-Semedo
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