
A mensagem chegou hoje, domingo, já no fim da manhã. Não pretendia ser crónica, nem denúncia. Era apenas um olhar – desses que, quando partilhados, nos obrigam a ver melhor o que já está diante de nós. E o que mostrava era um desencontro.
A Baía do Mindelo apresentava-se no seu melhor: luminosa, serena, quase pedagógica na forma como ensina a beleza. O Monte Cara, na sua permanência silenciosa, dava à paisagem a espessura do tempo. E ali, diante de tudo isso, o navio – imenso, preciso – cumpria o gesto contemporâneo da chegada. Gente a descer, olhares disponíveis, o mundo a entrar. Tudo parecia em ordem. Mas não estava.
Porque, no exacto momento em que era chamada a existir plenamente, a cidade não estava. Não nas portas abertas, não no comércio activo, não no gesto mínimo de acolhimento. Estava, antes, em suspensão – como se tivesse aprendido a conviver com a ausência de si própria.
E aqui convém parar um instante. Não se trata de um episódio. Trata-se de um padrão: investimos na infra-estrutura da chegada, mas adiamos a cultura da recepção; preparamos o porto, mas não activamos a cidade; construímos o cenário, mas deixamos por cumprir o essencial – estar.
O contraste, por isso, não é um detalhe, é um sinal. As lojas chinesas abertas, constantes, disponíveis, a responder ao movimento que nós próprios deixamos passar – não como excepção, mas como prática. Entretanto, regressamos ao comentário, à polémica recorrente, à falta de gás, ao ruído que ocupa o espaço sem alterar o essencial. Falamos da cidade – mas nem sempre estamos nela quando ela acontece.
A mensagem que recebi não acusava. Limitava-se a mostrar. E o que mostrava era isto: Mindelo continua a saber encantar, mas ainda hesita em corresponder ao instante em que o encanto se transforma em oportunidade. Entre a beleza que temos e o gesto que falta, há um intervalo que se repete.
E talvez seja essa a alfinetada que importa fixar:
não basta que o navio chegue.
É preciso que a cidade esteja.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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